Mais prática do que discurso

por José Serra e José Roberto Afonso
Artigo publicado no jornal Valor Econômico, em 04/05/2010

Lei de Responsabilidade Fiscal completa dez anos de bons serviços, 
mas é possível avançar mais

"Prática ao invés de promessa" foi o título do artigo que assinamos no dia em que foi aprovada a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o único na mídia nacional e publicado na terceira edição do Valor. Tempos do grande jornalista econômico Celso Pinto, que deu forma ao jornal. Poucos acreditavam que, dez anos depois, estaríamos comemorando o sucesso da LRF como um divisor de águas nas finanças públicas brasileiras e internacionalmente reconhecida por sua abrangência e resultados.

Hoje aproveitamos a oportunidade do décimo aniversário da lei para falar do seu passado e opinar sobre o futuro da responsabilidade fiscal em nosso país. Sobre o presente, não faltarão avaliações positivas diante dos fatos e números incontestáveis, reconhecidos até pelos que votaram contra a lei e depois tentaram derrubá-la na Justiça.

A ideia da LRF surgiu durante a Assembleia Constituinte (1987/1988). Os autores deste artigo atuaram, respectivamente, como relator e assessor técnico da comissão que tratou de orçamento, tributação e finanças. Uma das inovações propostas pelo relator foi prever na Constituição um código de finanças públicas para reunir as normas gerais sobre receitas, gastos, dívida e patrimônio, a fim de lhes dar um fio condutor e garantir sua aplicação aos três níveis de governo. Não fosse o mandamento constitucional, a LRF, numa federação como a nossa, não se aplicaria a Estados e municípios. Este é um grande diferencial da LRF brasileira; em outros países, ela geralmente se restringe ao governo central.

O propósito de induzir um maior e mais sustentado equilíbrio nas contas públicas foi retomado dez anos depois, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso enviou ao Congresso um projeto de lei complementar coordenado pelo Ministério do Planejamento e Orçamento, sob comando de Martus Tavares. O projeto abria caminho para uma mudança estrutural destinada a substituir os ajustes fiscais até então baseados em sucessivos "pacotes" tributários de fim de ano e cortes indiscriminados do Orçamento, além das heranças fiscais malditas não raramente deixadas por um governo ao seu sucessor.

Muitos se surpreenderam com a boa acolhida à iniciativa. Afinal, ela ia na contramão da cultura política dominante até então, segundo a qual déficit era problema exclusivo do Executivo e austeridade fiscal, um assunto da "direita" - como se no Brasil o populismo fiscal não fosse patrimônio comum de todo o espectro político, incluído seus extremos. Bons tempos em matéria de seriedade fiscal...

Dentre outras alterações, os parlamentares definiram que a responsabilidade começa na arrecadação de tributos, tratando a renúncia de receita como um gasto, e se preocuparam com os vínculos entre a política fiscal e a monetária e cambial, exigindo prestações de contas periódicas e inovando ao proibir o Banco Central de emitir títulos por conta própria e fora do Orçamento. A propósito, a LRF detalhou o dispositivo constitucional, oriundo do nosso relatório na Constituinte, que proíbe o Banco Central de financiar o Tesouro, já sacramentando em lei (e complementar) o preceito que assegura à autoridade monetária condições de atuar sem pressões diretas do governo.

O enfoque adotado pela LRF em relação ao federalismo também merece destaque pois permitiu que, após mais de um século de República, a federação brasileira atingisse finalmente sua maioridade fiscal. Os três níveis de governo, do federal à menor prefeitura do país, são iguais perante a lei, sujeitos às mesmas normas, limites e condições. A União não pôde mais assumir dívida que foi contraída por um Estado ou um município - agora cada um tem que cuidar muito bem de suas contas, porque somente seus moradores são premiados ou punidos pelos acertos ou erros de seus administradores e legisladores. Lembramos que a LRF foi editada tão logo completada mais uma rodada de renegociação de dívidas de Estados e municípios e assim fez um corte radical na antiga prática que transferia para os moradores do resto do país o ônus da má gestão de um ente federado.

Poucos sabem que o Brasil foi a primeira economia emergente a adotar uma lei desse tipo e, mesmo em relação aos países ricos, é a mais abrangente. Ela define princípios (à moda anglo-saxônica) e fixa limites e regras (à moda dos norte-americanos e latinos). As metas fiscais são móveis, com cláusulas de escape precisas e detalha mecanismos de correção de rota em caso de eventual ultrapassagem dos seus limites. Mesmo privilegiando a prudência, são previstas sanções amplas e duras, tanto institucionais quanto pessoais. Em termos de transparência, não há outro país que divulgue a evolução das contas públicas tão rápida e detalhadamente, ainda mais se tratando de uma federação com milhares de unidades de governo.

Mas é possível avançar ainda mais. Dez anos depois, é natural que a LRF enfrente novos desafios. É urgente completar sua regulamentação. Também cabe aperfeiçoar e ampliar seu alcance.

O governo anterior enviou propostas ao Congresso poucos meses depois de editada a lei e que, até hoje não foram votadas. Falta instalar o conselho de gestão fiscal, concebido como uma instância representativa (com integrantes das diferentes esferas de governo e também poderes) que pode contribuir para padronizar relatórios e interpretações. Ainda perdura a ausência de limites para a dívida federal, consolidada e mobiliária, cuja fixação cabe à resolução do Senado e à lei ordinária, respectivamente, por mandamento constitucional. Só foram estabelecidos limites, e bem rígidos, para Estados e municípios.

A responsabilidade federativa precisa ser plena. O governo federal permaneceu em certa medida à margem da LRF, num falso paraíso, à custa de saltos da carga tributária, enquanto os governos estaduais e municipais apresentaram um desempenho espetacular: elevaram o superávit primário, reduziram a dívida e ainda empreenderam um maior esforço relativo de investimento. Nada justifica que governadores e prefeitos fiquem expostos aos rigores da lei, caso se endividem em excesso, e o presidente da República passe imune. Também não há por que fugir de divulgar claramente e discutir quanto custam para os cofres públicos as ações na área de crédito e de câmbio. Curiosamente, esses alertas, cada vez mais frequentes, ainda não produziram nenhum efeito prático. Como sempre nesta matéria impera a máxima: austeridade é uma coisa boa... para os outros praticarem.

A responsabilidade orçamentária continua sendo uma frente de batalha aberta. É preciso reformar a lei geral dos orçamentos, que data de 1964. A lei de diretrizes (LDO) e a do plano plurianual (PPA), outras inovações da nossa comissão na Constituinte, nunca foram regulamentadas nacionalmente. A definição da receita nos orçamentos precisa ser mais transparente para evitar a criação de espuma em vez de arrecadação efetiva. A grande maioria das emendas parlamentares traduz pleitos pertinentes de diferentes Estados e municípios, mas precisam ser formuladas com mais rigor técnico e econômico e liberadas sem discricionariedade política. Para garantir a credibilidade da contabilidade pública, é preciso antes de tudo acabar com truques como o cancelamento de empenhos de despesas essenciais no fim do mandato, o que impõe ao governo sucessor um orçamento desequilibrado.

A responsabilidade na gestão pública exige uma nova postura em relação aos gastos, pois o novo cenário macroeconômico não permitirá seguir aumentando indefinidamente a carga tributária. Os governos, como as famílias, também precisam se guiar pelo princípio de fazer mais com os mesmos recursos. Isto implica fomento aos investimentos em modernização da gestão. Muito que já se avançou no lado da arrecadação (hoje quase todas as declarações de imposto de renda são entregues por meio digital), precisa ser estendido para o lado do gasto.

Os investimentos do setor público devem ser aumentados e remodelados para eliminar os gargalos da infraestrutura que florescem pelo Brasil afora. Caímos num desconfortável paradoxo: comparado a outros países, o Brasil é líder em carga tributária dentre os emergentes, campeão mundial de taxa de juros reais, e penúltimo colocado em matéria de taxa de investimentos governamentais.

Apesar das brechas e arranhões aqui e ali, do que falta completar e dos avanços possíveis, a responsabilidade fiscal virou mais do que uma lei em nosso país. Plantou a semente de uma nova cultura na administração pública. Não por acaso, a LRF made in Brazil é um sucesso admirado e estudado em outros países.

Tão relevante quanto a lei em si foi a mudança de mentalidade que a viabilizou. A LRF continua sendo aprovada pela opinião pública e mídia, e as tentativas de driblá-la têm recebido reprovação nacional. Apesar do vai e vem (agora estamos na fase do "vem"), se firmou no país a consciência da necessidade do equilíbrio macroeconômico. Isso aconteceu em grande parte graças à Lei da Responsabilidade Fiscal. Um pique-pique para ela.

José Serra e José Roberto Afonso são economistas, respectivamente, professor e doutorando da Unicamp

"O último samurai" e o golpe quase perfeito

Suemono-giri é o nome em japonês para “corte de objeto estacionário.” Esse nome é dado para um golpe perfeito executado com a espada, capaz de cortar qualquer objeto, seja um corpo humano, uma viga de madeira, uma coluna de pedra, etc.. Esse golpe é executado num só movimento, começando com a espada ainda embainhada, a qual é retirada de uma só vez, e desse gesto se segue sem descontinuidade o corte do alvo, pelo qual a lâmina passa sem se deter, como se houvesse cortado apenas o ar, ininterruptamente, sendo sustada ao final com pleno controle, como uma mera extensão do braço.


A concentração do espadachim antes do golpe; a energia contida prestes a explodir; o movimento rápido, certeiro, fatal; a perfeição da lâmina capaz de cortar qualquer objeto; a tempestade desencadeada em uma única rajada de vento, acompanhada de um grito; o retorno ao repouso como se nada houvesse existido; a alternância de movimento e repouso, tensão e distensão, máximo de mobilidade e de imobilidade, típicos da arte marcial japonesa; todo o ritual está permeado por uma elevada consciência estética. O golpe perfeito é uma obra de arte, assim como a vida de um samurai é uma performance que busca um ideal de beleza moral. Ética e estética estão fundidos na filosofia samurai, como em toda verdadeira ética e em toda verdadeira estética.


O golpe perfeito representa o estágio mais alto da técnica japonesa de uso da espada, distintivo dos grandes mestres dessa arte marcial. Por sua simplicidade e precisão, pelo nível de concentração, auto-controle e adestramento, representa a síntese da cultura militar japonesa e de seu projeto civilizatório, configurado na sociedade samurai.


O filme “O último samurai” é uma superprodução hollywoodiana protagonizada pelo mega-astro Tom Cruise, talhada para concorrer em várias categorias do Oscar, que pretende retratar o ocaso dessa sociedade samurai. O filme se baseia num episódio real, acontecido em 1877, em que o moderno exército japonês enfrentava a rebelião de guerreiros da Escola antiga que se recusavam a aderir aos métodos contemporâneos. O personagem de Tom Cruise, um oficial estadunidense contratado para trasmitir o “know how” militar ocidental aos “bárbaros”, foi inserido romanescamente na história. O curioso é que tal personagem acabou seduzido pelo modo de vida dos antigos guerreiros japoneses, justamente aqueles contra os quais fora contratado para combater.


O último samurai do título não é na verdade Nathan Algren, o personagem de Tom Cruise, mas sim Katsumoto Moritsugu (interpretado por Ken Watanabe, desde já meu favorito para o Oscar de coadjuvante). A publicidade do filme, naturalmente, apresenta Tom Cruise em primeiro plano, em pôsteres gigantes, como se ele fosse o samurai do título. Mais do que propaganda enganosa, trata-se de um erro conceitual. Nathan Algren não chega de fato a ser um samurai. Nem que ele quisesse, não poderia. Não porque é um estrangeiro, o que não constitui um obstáculo definitivo. O obstáculo é a própria estrutura da narrativa, a função que a história lhe reserva. Explicaremos esse detalhe mais adiante.


Katsumoto é o verdadeiro samurai do título. Ele é um nobre, senhor de uma província, equivalente a um senhor feudal do ocidente. Como nobre, ele está no topo da hierarquia social. Seus guerreiros e seu povo lhe devem obediência total, até a própria morte. Katsumoto, por sua vez, deve obediência ao Imperador, de quem é vassalo. O Imperador, na religião xintoísta, é um deus vivo, descendente da deusa do sol, criadora do mundo. Na época retratada pelo filme, o Imperador Meiji estava promovendo a modernização do país.


Meiji era na verdade um jovem fraco, sem personalidade, manipulado por ministros ambiciosos, entre os quais se sobressai um certo sr. Omura. Simultaneamente ministro e empresário, ele próprio tem interesses pessoais e empresariais na modernização do Japão. Dono de ferrovias e provavelmente de outros negócios a elas ligados, deseja ver o país inteiro unido e modernizado, pronto para entrar na disputa de mercados com as potências da época: Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos. A posse feudal da terra, estabelecida por laços de tradição e lealdade pessoal, deve ser substituída pela propriedade privada capitalista acessível pelo dinheiro. O uso de armas (espadas) por particulares deve ser suprimido em nome do monopólio do uso da força (fuzis) pelo Estado burguês.


Uma e outra tarefa da revolução burguesa no Japão pressupõem a remoção do nobre Katsumoto Moritsugu e sua fidelidade aos princípios morais da tradição. Para modernizar o país, Omura traz ao Japão especialistas de todos os ramos da atividade econômica moderna, de diversas nacionalidades. Algren se encaixa nesse plano como o especialista em técnicas militares modernas, com seu currículo de exterminador de tribos indígenas a serviço do exército estadunidense.


É contra Omura que Katsumoto se insurge, não contra o Imperador. De acordo com o código de ética dos samurais, o suserano é dono da vida de seus vassalos. Se o Imperador lhe ordenasse, Katsumoto cometeria o sepukku, o suicídio ritual, e o faria de bom grado. Ele admite isso várias vezes no filme e é preciso crer no que o samurai diz. Ele considera que sua rebelião está a serviço do Imperador e não contra ele. Contra o Imperador e contra o povo japonês estão na verdade Omura e seus sequazes corruptos. Se o Imperador não se dissuadir de seu engano, Katsumoto está disposto a dar a vida por isso. Ele está preso ao seu sentido de honra e segue seu dever até a morte. Sua tragédia contém um inescapável conteúdo de estupidez, conseqüência direta do absurdo inerente ao regime absolutista, pelo qual um homem de valor deve sua vida a um monarca que não passa de um fantoche inexpressivo.


Antes de prosseguir nos detalhes do filme, é preciso dar o cenário histórico da transformação da sociedade japonesa. As transformações que Katsumoto tenta deter para preservar a integridade do Império foram desencadeadas pelo próprio Imperador, há não mais do que uma década então. A contradição se aprofunda até se tornar irreconciliável. Trata-se de uma contradição inerente ao modo japonês de transição do feudalismo para o capitalismo. O Japão seguiu o mesmo esquema da Alemanha, que Lukács chamou de “via prussiana” para o capitalismo.


Na via prussiana a classe dos aristocratas feudais, proprietários de terra, os “junkers” alemães, que era simultaneamente a massa da oficialidade do exército, realizou de maneira autoritária a transição do feudalismo para o capitalismo, sem ceder o poder à burguesia e mantendo a classe trabalhadora sob o pesado tacão do Estado policial bismarckiano. Os junkers passaram diretamente de senhores feudais proprietários de terra para donos de empresas capitalistas. Não houve uma revolução burguesa na Alemanha. A burguesia alemã sempre foi débil e a democracia nunca criou raízes no país. Desse solo nasceria o nazismo.


O processo japonês seguiu o mesmo esquema, mas com pequenas diferenças. O Japão sempre teve uma mesma dinastia imperial, que se perpetuou em uma linha de sucessão direta desde seus ancestrais semilendários na pré-história até seu descendente no século XXI, o atual Imperador Akihito. Mas essa dinastia não esteve sempre no governo. No século XII o poder do Imperador foi ofuscado pela ditadura militar dos shoguns. A linhagem imperial não foi extinta, mas manteve apenas um poder formal, derivado de suas funções religiosas.


Desde o século XII as famílias tradicionais de senhores feudais guerreiros disputaram o cargo de shogun. A pacificação foi alcançada sob o shogunato Tokugawa, que se instalou em 1600. Tokugawa proibiu o intercâmbio com o exterior. Comerciantes e missionários estrangeiros foram banidos do Japão entre 1635 e 1853. Ao contrário do império chinês, que desmoronou sob o assédio das potências imperialistas ocidentais, o Japão se manteve unido. Foi na Era Tokugawa que se desenvolveu a sociedade samurai, com uma legislação formal e rigorosa sobre todos os aspectos da vida social. O país foi dividido em algumas centenas de províncias governadas por senhores feudais hereditários, cada um com seu pequeno exército de samurais, mas todos vassalos do poder central em Edo (Tóquio).


A sociedade foi dividida em castas hereditárias rígidas. Os guerreiros foram proibidos de trabalhar para seu sustento, os camponeses foram proibidos de usar armas. A nobreza militar separou-se como uma classe social superior, acima do clero, do campesinato e dos artesãos e comerciantes. O feudalismo japonês se cristalizou. A condição de samurai tornou-se hereditária. O privilégio de usar armas tornou-se seu dever e desenvolveu-se aí o Bushido, o “modo de vida do guerreiro”. Isso é bastante paradoxal, pois justamente quando acabaram as guerras civis, a função do guerreiro ganha uma formalização definitiva. Os guerreiros se tornam guerreiros no sentido pleno e simultaneamente se tornam inúteis. Muitos senhores feudais se revoltam contra o governo central, mas em vão. Isoladamente, não podem resistir ao shogunato e são exterminados.


Não é à toa que nesse período se desenvolve o culto do suicídio. Guerreiros se suicidam por lealdade a seus mestres, oprimidos pelo poder central. Monges se suicidam por sua fé. Amantes se suicidam por seu amor impossível, proibido pelas famílias, etc.. o sentido trágico da vida, o fatalismo e a coragem diante da morte se tornam valores permanentes da sociedade japonesa. A rigidez da Era Tokugawa manteve o Japão unido e permitiu um grande desenvolvimento de sua cultura. Os samurais, além da arte da espada, da qual se tornaram mestres inigualáveis, desenvolveram também a poesia, a pintura, a cerimônia do chá, etc.. O estudo e a arte, assim como a luta, também era seu privilégio e seu dever.


Mas essa situação era insustentável. A roda da História não parava de se mover no ocidente. Os países europeus passavam por uma revolução industrial e logo voltam a se expandir pelo mundo em busca de mercados. O mesmo aconteceu com os Estados Unidos. Em 1853 uma frota estadunidense ameaçou bombardear Tóquio caso o país não se abrisse para o comércio. A abertura que sobreveio foi um desastre para o Japão. No curto espaço de uma década, a economia feudal se desintegrou.


Na tentativa de remediar o desastre, a aristocracia japonesa promoveu um levante e derrubou o governo do último shogun Tokugawa, em 1868. O Imperador foi reinstalado no trono, no que foi chamado de Revolução Meiji. O pensamento dos autores dessa revolução era de que o Japão deveria se igualar em poder às potências ocidentais para não ser dominado por elas. O resultado dessa revolução seria a transformação das tradicionais famílias nobres em proprietários de grandes grupos empresariais, os zaibatsus. Honda, Toyota, Mazda, Mitsubishi, Matsushita, etc., são todos nomes de antigas famílias da aristocracia japonesa, que como os junkers alemães, se tornaram empresários modernos.


Katsumoto, o personagem de “O último samurai”, com seu tradicionalismo, foi pego no olho do furacão por essa transformação. Ao mesmo tempo que via no Imperador a salvação do país, contra a degradação que os estrangeiros trouxeram, ele não podia aceitar que os japoneses se rebaixassem a usar os mesmos métodos que os ocidentais, ou seja, armas de fogo. O problema prático é que qualquer guerra contra os estrangeiros somente poderia ser vencida com o uso de armas de fogo. Mas isso, para um samurai como Katsumoto, é apenas um detalhe. Como explicou Graham a Algren, a espada de um samurai é sua própria alma. Mais do que a degradação da técnica militar, o que revoltava Katsumoto era a degradação moral sob o capitalismo.


É nesse cenário que entra Nathan Algren. A trajetória deste personagem é praticamente idêntica à de John Dunbar, o protagonista de “Dança com lobos”. Tão idêntica que “O último samurai” pode até ser acusado de plágio. Mas ninguém acusou “Dança com lobos” de ser plágio de “Um homem chamado cavalo” e “Pequeno-grande homem”, dois “westerns” clássicos dos anos 70, portanto ficamos por isso mesmo. Assim como Dunbar, Algren é um oficial do exército estadunidense que se desilude com as promessas da carreira militar e decide experimentar uma vida diferente em outra forma de sociedade. As circunstâncias os levam a combater contra o exército estadunidense de onde saíram, pois compreendem que o modo de vida que adotaram, e que o exército estadunidense vem destruir, é mais humano do que a vida na sociedade burguesa.


Para cada personagem chave de “O último samurai”, há um equivalente no seu modelo “Dança com lobos”. Ambos os protagonistas, Algren e Dunbar, que correspondem um ao outro, estão cercados de uma série de figuras que também são correspondentes simétricos nas duas narrativas. Algren/Dunbar têm uma figura que funciona como guia nos estágios iniciais da viagem, na figura de Graham/Timons, um mestre na figura de Katsumoto/Pássaro esperneante, um rival que se torna amigo na figura de Ujio/Vento no cabelo, um garoto que o admira em Higen/Grande sorriso, um interesse romântico em Taka/De pé com punhos, um rival dentro do exército em Bagley/Spivey, um grupo de inimigos tribais nos ninjas/pawnees, etc..


O esquematismo desse modelo é evidente. Mas “O último samurai” é inferior na comparação com “Dança com lobos”. O início do filme é burocrático e apressado. A sociedade estadunidense de onde emerge Algren, na função de vendedor de armas, é explicitamente apresentada como degradada. O maniqueísmo explícito nunca é um bom começo para qualquer narrativa. Da mesma forma, a sociedade japonesa onde Algren se integra é um pastiche da estadunidense, um velho oeste em rápida mutação rumo ao capitalismo selvagem. Fica evidente que o exército de Omura e a passagem de Algren por ele são meros expedientes para que o protagonista encontre seu destino. O final do filme, por sua vez, é arrastado e também esquemático. Sobre os problemas do final, falaremos adiante.


O que interessa realmente é o miolo do filme, a viagem de Algren para a vila de Katsumoto e sua transformação em samurai. É essa viagem existencial que dá o pretexto para a observação que nos interessa. É lá que Algren encontra o alívio de sua consciência culpada pelo massacre de inocentes que perpetrou no passado. O processo de sua cura mental é quase uma psicanálise realizada por Katsumoto, que entretanto não se completa. O processo de psicanálise coincide com o processo de treinamento de Algren na arte da espada, trabalho do mestre Ujio. O ocidental aprende com Nobutada que deve abandonar suas preocupações, usar seus instintos, desapegar-se.


O problema inerente a um filme como este é que a filosofia samurai se dissolve numa mera técnica de relaxamento. Como se Tom Cruise tivesse resolvido ir a um “spa”. O filme serve como veículo para a busca de paz espiritual do astro, recém-saído de um casamento com Nicole Kidman. A ex- de Cruise já foi reconhecida como atriz competente e agraciada com um Oscar, prêmio que o astro ainda cobiça. “O último samurai” é sua mais nova tentativa de abocanhar o prêmio. A aposta é na sedução que o oriente exerce. Desde que os Beatles adotaram um guru indiano nos anos 1960, os astros da cultura pop ocidental tem buscado novidades milenares (sic) a serem exploradas: ora o Dalai Lama, ora Buda, ora o mosteiro Shao Lin; e agora o Japão.


Para esse fim Tom Cruise contratou dois gabaritados especialistas do ramo de filmes épicos, o diretor Edward Zwick, de “Lendas da paixão” e o roteirista John Logan, de “Gladiador”. Os dois são artesãos competentes. “O último samurai” é uma produção suntuosa e visualmente impecável. Estão lá as indefectíveis batalhas de samurais, no estilo de Akira Kurosawa. O seu problema neste particular é concorrer com “O Retorno do rei”. As batalhas em “O último samurai” são até mais selvagens, mas no geral perdem na comparação com o filme de Peter Jackson, que é disparado o favorito da temporada de épicos. Teremos ainda este ano “O mestre dos mares” e “Tróia”; e mais adiante, “Crusade”, de Ridley Scott e “Alexander”, de Oliver Stone. Quando Hollywood adere a uma moda, não brinca em serviço. Com a recente onda de filmes épicos, o sangue vai jorrar das telas.


A viagem turística de Tom Cruise/Algren pelo menos serve de pretexto para o que realmente interessa a este escriba, a exploração do modo de vida de uma vila japonesa tradicional. No país outrora governado pelos samurais, toda a sociedade era samurai. O ciclo da vida é encarado com extrema naturalidade e simplicidade. Os homens nascem, os homens morrem. A morte não é um problema para os orientais em geral, ao contrário do que é para os cristãos. Os ocidentais cristãos valorizam a vida, os japoneses valorizam a morte. Para os samurais, a morte é o próprio objetivo da vida. Vive-se para alcançar uma morte honrada.


A morte é tão mais honrada quanto tiver sido a vida. A vida deve ser dedicada à perfeição, em busca dessa morte honrada. Perfeição na luta, perfeição na arte, perfeição nos gestos, na fala, na conduta. Essa busca obsessiva e ascética pela perfeição se casa com o desapego. Não esqueçamos que no Japão a religião animista do xintoísmo combinou-se à filosofia budista, que prega exatamente o desapego como caminho para a felicidade. A harmonia dos camponeses com seu universo, com seu destino, sua natureza circundante, é quase utópica. É aí que está toda profundidade do filme, toda sua beleza e poesia. É por esta parte que o filme vale à pena ser visto, portanto não pretendo estragá-la com uma descrição detalhada.


Katsumoto, o líder dessa utopia, sabe que seu modo de vida está condenado. A contradição na qual sua ética o arremessa é na verdade irresolúvel. A integridade de seu modo de vida contrasta frontalmente com a indignidade da sociedade capitalista em que está se tornando o Japão. O contraste conceitual se transforma em confronto físico quando a cavalaria samurai arremete contra as metralhadoras do exército de Omura. Esse confronto físico exemplifica à perfeição o contraste entre dois tipos de sociedade, que cabe aos filósofos explicar. A favor das metralhadoras e canhões se coloca o filósofo alemão Hegel, quando diz que:


“ ‘O princípio do mundo moderno – o pensamento e o universal – deu à coragem uma forma superior, porque sua manifestação agora parece mais mecânica, não ato deste indivíduo particular, mas do membro de um conjunto. Além do mais, parece ter-se voltado não contra um único indivíduo, mas contra um grupo hostil, daí a bravura pessoal parecer impessoal. É por essa razão que o pensamento inventou o canhão, e a invenção desta arma, que transformou a forma da valentia exclusivamente pessoal em uma bravura mais abstrata, não é acidental’ ”.1


Ou seja, segundo o filósofo, o uso do canhão representa a forma mais elevada de coragem. Hegel é o representante ideológico máximo do Estado burguês. A ele cabe racionalizar as transformações que a sociedade capitalista traz a todos os aspectos da vida. Assim como o empresário industrial tirou ao trabalhador a posse dos seus meios de produção, o exército moderno tira ao guerreiro a posse de suas armas. Não mais samurais com espadas e sim soldados com fuzis. Tudo mais racional e moderno, conforme o espírito do mundo do capitalismo.


Mészaros desmistifica a absurda tentativa de Hegel de justificar o injustificável:

“O poder do capital de derrubar tudo – eliminando seu ancoradouro humano com a universalização da produção fetichista de mercadorias – é aqui espelhado na filosofia, virando de cabeça para baixo os valores humanos, em nome do ‘pensamento e do universal’.(...) Em última análise a lógica oculta da tendência atual do armamento moderno (...) não é a ‘bravura impessoal’, mas a destruição verdadeiramente impessoal de toda a humanidade: Holocausto e Hiroshima combinados em escala global.”2


Assim como o trabalho e a vida em geral, a arte da guerra também perde o sentido, quando é substituída pela indústria da destruição em massa. É por esse motivo que o estilo de vida samurai é humanamente superior ao militarismo moderno, apesar de ser uma forma militar arcaica. O Bushido envolve auto-aperfeiçoamento, cultura, ética, honra; o militarismo moderno consiste em apertar botões para destruir o inimigo á distância.


Em uma primeira análise, a cultura militar samurai não é melhor do que qualquer outro militarismo. Ou seja, uma cultura repressiva e reacionária, que muito facilmente se coloca a serviço da ordem estabelecida. Especialmente no caso dos samurais, o ofício militar se reveste de um orgulho aristocrático de classe. Esse orgulho elitista de uma casta ciosa de seus privilégios e seu poder de vida e morte sobre os plebeus dificilmente pode se tornar simpático. Isso só acontece quando os soldados, ao invés de oprimir seu povo, se colocam como defensores dos valores dessa sociedade, de sua cultura e sua honra, como Katsumoto. Para o samurai dedicado exclusivamente à arte da luta, a causa é na verdade irrelevante. O mais importante é o modo como se morre.


Para Katsumoto, um facínora como Custer, que massacrou os índios na conquista imperialista do oeste estadunidense, é tão heróico quanto Leônidas e seus trezentos homens, que nas Termópilas salvaram a Grécia da invasão persa. Deve-se perdoar Katsumoto por desconhecer a história estadunidense. Mas não se pode perdoar Algren, pois para ele Custer é um vilão apenas por ter levado seus soldados à morte e não pela causa em favor da qual lutava. Se é que se pode chamar o massacre dos nativos e o roubo de suas terras de causa. Do ponto de vista do soldado, porém, a causa é indiferente. O que importa é o heroísmo da luta. Por isso, para Katsumoto, Custer foi um herói. Mas isso não passa de um gracejo. Pois Custer era feito da mesma matéria de Bagley, o superior de Algren, que veio destruir os samurais.


O problema surge pois quando o próprio modo de vida samurai está em jogo. É esse o dilema do líder Katsumoto. Com o advento das armas de fogo, os samurais se tornam militarmente obsoletos. Contra a concorrência das metralhadoras, os samurais empreendem um ataque puramente ludita. A causa dos samurais somente se torna simpática porque, no caso presente, se coloca contra o avanço da degradação capitalista. Nem mesmo um filme estadunidense pode esconder isso. O seu sacrifício acaba sendo inútil e estúpido, mas sua mensagem ecoa até hoje.


O filme tenta transformar o significado dessa morte numa mensagem de superioridade moral, sem questionar o conteúdo das escolhas ideológicas de Katsumoto. Ademais, esse questionamento seria bastante problemático. O desenvolvimento posterior das relações EUA/Japão é embaraçoso, indo de Pearl Harbor a Hiroshima. O espectador sabe que o Japão moderno se tornou uma potência imperialista, entrando em guerra contra os próprios Estados Unidos de Algren. Assim, de certo modo, a mensagem de Katsumoto foi ouvida pelo Imperador, ainda que distorcida.


As espadas usadas pelos soldados do exército imperialista do Japão moderno ainda eram fabricadas de acordo com os métodos arcaicos da Era Tokugawa. O teste de qualidade das espadas japonesas era chamado de o-tameshi. O o-tameshi consiste num ritual em que se corta ao meio um cadáver humano deitado, com um golpe de espada, um golpe suemono-giri. As melhores espadas eram capazes de cortar dois ou três corpos empilhados, ou até cinco corpos. Consta que todas as espadas usadas pelo exército japonês na guerra russo-japonesa de 1904 passaram pelo teste o-tameshi cortando cinco corpos. Talvez isso explique porque o Império russo sofreu uma derrota tão acachapante, cuja crise subseqüente inclusive precipitou uma primeira tentativa fracassada de Revolução Russa em 1905. O exército imperialista japonês conservou muito da ética de sacrifício dos samurais. Dela deriva o impulso suicida dos “kamikaze”, os pilotos que arremessavam seus aviões carregados de explosivos sobre os navios estadunidenses nas batalhas da Segunda Guerra Mundial.


A causa de Katsumoto encontrou assim uma espécie de sobrevivência, mas não fica muito bem num filme feito para o público estadunidense se estender a respeito disso. Já é até ousadia demais mostrar o Imperador Meiji dizer ao embaixador estadunidense que seu tratado não interessa ao Japão. Dizer isso é bastante perigoso da parte de qualquer governante dos dias de hoje. Infelizmente, não há mais samurais à moda antiga para lembrar aos nossos governantes do dever de fazê-lo. O sacrifício de Katsumoto serviu pois para despertar o Imperador e subtrair o Japão da órbita do imperialismo estadunidense. Bom para o Japão, pior para os países que décadas depois foram vítimas do imperialismo japonês. No final das contas, o espírito de Omura, com seus interesses comerciais, acabou triunfando sobre a grandeza dos samurais. Os heróis morrem e submergimos todos no nível da mediocridade.


Esses desenvolvimentos no plano da História estão contidos em embrião no conflito dramático do cinema. Na impossibilidade de desenvolver concretamente as implicações ideológicas do conflito Omura/Katsumoto, o filme se contenta em apresentar um embate moral entre duas personalidades. Nessa restrição está a fraqueza do filme, a sua submissão aos cânones da narrativa cinematográfica estadunidense tradicional, com sua tendência para as conciliações que consolam o espectador.


Ao mostrar a morte de Katsumoto, “O último samurai” não se limita a uma mensagem puramente fatalista, ao estilo japonês, e insiste em conseguir a reabilitação moral póstuma do herói, ao estilo hollywoodiano. O público de cinema hollywoodiano está acostumado a ver o sacrifício do herói, como aconteceu por exemplo em “Matrix”, ou, para não fugir do mesmo registro épico, em “Coração Valente”. Mas o público aceita essas mortes porque é imediatamente consolado pela notícia de que o herói se saiu moralmente vencedor e sua causa de alguma forma triunfou, o que para a estética samurai é supérfluo. O esquema dramático de “O último samurai” permanece assim irremediavelmente cristão. Por isso não alcança a profundidade trágica dos verdadeiros filmes de samurai, como os de Akira Kurosawa.


A incompletude trágica do filme está expressa na falta de música japonesa tradicional na trilha sonora. A música em “O último samurai” não diz muito do espírito japonês, ao contrário do que acontece em “O tigre e o dragão”, por exemplo, cuja trilha sonora expressa musicalmente o espírito chinês. A música japonesa tradicional é triste, trágica, quase angustiante, mas sempre severa e serena, fatalista. A música ocidental usada em “O último samurai” não foge ao padrão hollywoodiano de violinos pesados e melosos, para induzir uma sensação forçada de triunfo, pois a estrutura narrativa do filme, com sua tentativa de produzir artificialmente um triunfo da causa do herói, assim o exige.


Nathan Algren se reduz a um portador da mensagem de Katsumoto. Por isso dissemos que ele não pode ser considerado um verdadeiro samurai. O destino do personagem não lhe concedeu essa honra. Por mais que Katsumoto tenha dito que o estadunidense recuperou sua honra na batalha, e que o próprio Algren tenha dito ao Imperador que se mataria, se ele assim o ordenasse, conforme manda a ética samurai; apesar disso fica no ar uma insatisfação com a sobrevivência de Algren. Para ser um verdadeiro samurai, deveria ter morrido no campo de batalha. Sobreviver é para os fracos. Mais do que sobreviver, o filme insinua que Algren voltou para a aldeia samurai, o que deve servir de consolação para aquela metade do público que foi ao cinema com interesses românticos.


Tom Cruise tentou o seu golpe perfeito, mas não conseguiu. Por um triz, por um pequeno detalhe, ele falhou. A fidelidade aos cânones da narrativa cinematográfica estadunidense tradicional o impede de ser um samurai de verdade, pois insiste em um final moralista como prêmio de consolação. O golpe perfeito deve ser dado com um só movimento, do desembainhar da espada à queda do objeto fendido. Sem hesitações, sem segunda tentativa, sem epílogo, sem consolação, sem remorso. “O último samurai”, por conta de suas hesitações, idas e vindas, finais duvidosos, não alcança essa perfeição. Não se trata de um verdadeiro suemono-giri.


Notas:


1. Istvan Mészaros, “Para além do capital”, Ed. Boitempo, SP 2002, pg. 186.

2. idem, pg 187.

Daniel M. Delfino

Suemono-giri é o nome em japonês para “corte de objeto estacionário.” Esse nome é dado para um golpe perfeito executado com a espada, capaz de cortar qualquer objeto, seja um corpo humano, uma viga de madeira, uma coluna de pedra, etc.. Esse golpe é executado num só movimento, começando com a espada ainda embainhada, a qual é retirada de uma só vez, e desse gesto se segue sem descontinuidade o corte do alvo, pelo qual a lâmina passa sem se deter, como se houvesse cortado apenas o ar, ininterruptamente, sendo sustada ao final com pleno controle, como uma mera extensão do braço.

Nome original: The last samurai

Produção: Estados Unidos

Ano: 2003

Idiomas: Inglês, Japonês, Francês

Diretor: Edward Zwick

Roteiro: John Logan Elenco: Ken Watanabe, Tom Cruise, William Atherton, Chad Lindberg, Ray Godschall Sr., Billy Conolly, Tony Goldwyn, Timothy Spall, John Koyama, Togo Igawa

Gênero: ação, aventura, drama, guerra

Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/

Bravo, maestro!

Ricardo Noblat

"Cada um de nós é responsável pelo que constrói". 
(Aécio Neves, ao rejeitar qualquer culpa pelo que acontecer com Serra)


Lula comanda sua sucessão como um virtuose da política. Impôs ao PT um candidato que ele jamais escolheria já pensou nisso? Meteu-se no processo de escolha do candidato do PSDB reforçando o nome de José Serra. Ao convencer Fernando Pimentel, do PT, a abdicar da disputa ao governo de Minas Gerais, agrada o PMDB e, de quebra, Aécio Neves.


Talento só não basta. Há que ter sorte. Isso vale para todo mundo. Lula teve muita sorte. Faça de conta que não houve o escândalo do mensalão quando rolou a cabeça de José Dirceu, o poderoso chefe da Casa Civil da presidência da República. Ali, uma cabeça de peso rolaria de qualquer forma para que Lula preservasse a dele.


E faça de conta também que não houve o escândalo da quebra do sigilo bancário de Francenildo da Costa, o caseiro da alegre mansão de Brasília freqüentada pelo ministro Antonio Palocci, da Fazenda. Francenildo disse ter visto Palocci na mansão uma dezena de vezes. Palocci negou. Fracenildo perdeu o sigilo e Palocci, o emprego.


A essa altura, Dirceu e Palocci estariam se pegando para ver quem seria o candidato do PT à sucessão de Lula. Dirceu tinha o controle do PT e interlocutores dentro de todos os partidos. A economia com Palocci fora muito bem e esse seria seu maior trunfo. Dizia-se na época que a dupla mandava mais no governo do que o próprio Lula.


Uma eventual vitória de Dirceu ou de Palocci nas eleições de outubro próximo não acabaria debitada exclusivamente na conta de Lula. A sombra de Lula não pesaria tanto sobre o governo de um ou do outro como pesará sobre um possível governo de Dilma. Ela é uma invenção de Lula Dirceu e Palocci, não.


Fernando Henrique Cardoso teve dois candidatos à sua vaga em 2002 José Serra, o oficial, e Lula, o "in pectore". Era fraternal amigo de ambos. Entregar a faixa presidencial ao primeiro ex-operário eleito garantiria melhor espaço para Fernando Henrique nos livros de História. Se Lula governasse mal, ele até pensaria em voltar.


Lula repetiu a fórmula de Fernando Henrique. Ganha com Dilma. Não perde com Serra. O PT recusou o convite de Itamar Franco para fazer parte do seu governo mas Lula não se recusou a indicar Serra para ministro da Fazenda. Itamar conversou com Serra duas vezes. Achou-o com mais pinta de presidente do que de ministro.


Antonio Carlos Magalhães ensinou que presidência da República é destino. Lula ajudou Serra a governar São Paulo abrindo-lhe os cofres da União, apressando o repasse de verbas, comprando-lhe por meio do Banco do Brasil a Nossa Caixa, atendendo, enfim, a maioria dos seus pedidos. Adversário não se trata assim.


Caso Serra seja eleito, Lula dormirá em paz. Sabe que ele não promoverá nenhuma devassa em seu governo. Nem caçará petistas pelo simples prazer de caçá-los. Serra foi o ministro do governo Fernando Henrique que mais se cercou de petistas. O ministério da Saúde abrigou muitos deles.


Na última terça-feira, em São Paulo, Lula garantiu que o próximo presidente, seja quem for, não estragará "o que já foi feito". A palavra dele: "Não acredito e não aceito mais a idéia imbecil que se falava no Brasil de que se ganhar fulano vai estragar tudo, se ganhar beltrano vai estragar tudo. Não existe essa hipótese".


A quem beneficia Lula ao renunciar ao "terrorismo eleitoral" usado contra ele em eleições passadas? A Serra, ora. Lula quis dizer: vença Dilma ou Serra, o que foi feito de bom nos últimos oito anos será preservado. Assim como ele preservou a política econômica de Fernando Henrique e seus programas sociais, expandindo-os.


Nenhum governador da oposição foi mais cúmplice de Lula do que Aécio, agora empenhado em ser sucedido por seu vice. Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte, poderia se eleger. Para selar o apoio do PMDB a Dilma, Lula apoiará Hélio Costa para governar Minas. Facilitou a vida de Aécio. Espera que Aécio facilite a vida de Dilma.

E-mail para: noblat@oglobo.com.br

BLOG DO NOBLAT: www.oglobo.com.br/noblat

O mundo de hoje é travesti

Arnaldo Jabor

Sou uma besta, todos o sabem; mas, não chego a esse relincho lamentável do asno que o escreveu. Diz coisas como: "A mulher tem um cheirinho gostoso, elas sempre encontram um lugarzinho em nosso ombro." Uma bosta, atribuída a mim. Toda hora um idiota me copia e joga na rede. Por isso, vou falar um pouco de mulher, eu que mal as entendo na vida. Não falarei das coxas e seios e bumbuns... Falo de uma aura mais fluida que as percorre.


Gosto do olhar de onça, parado, quando queremos seduzi-las, mesmo sinceramente, pois elas sabem que a sinceridade é volúvel, não perdura. Um sorriso de descrédito lhes baila na boca quando lhe fazemos galanteios, mas acreditam assim mesmo, porque elas querem ser amadas, muito mais que desejadas. Elas estão sempre fora da vida social, mesmo quando estão dentro.

Podem ser as maiores executivas, mas seu corpo lateja sob o tailleur e lá dentro os órgãos estranham a estatística e o negócio. Elas querem ser vestidas pelo amor. O amor para elas é um lugar onde se sentem seguras, protegidas.


O termômetro das mulheres é: "Estou sendo amada ou não? Esse bocejo, seu rosto entediado... será que ele me ama ainda?" A mulher não acredita em nosso amor. Quando tem certeza dele, pára de nos amar. A mulher precisa do homem impalpável, impossível. As mulheres têm uma queda pelo canalha. O canalha é mais amado que o bonzinho. Ela sofre com o canalha, mas isso a justifica e engrandece, pois ela tem uma missão amorosa: quer que o homem a entenda, mas isso está fora de nosso alcance. A mulher pensa por metáforas.


O homem por metonímias. Entenderam? Claro que não. Digo melhor, a mulher compõe quadros mentais que se montam em um conjunto simbólico sem fim, como a arte. O homem quer princípio, meio e fim. Não estou falando da mulher sociológica, nem contemporânea, nem política. Falo de um sétimo órgão que todas têm, de um "ponto g" da alma.


Mulher não tem critério; pode amar a vida toda um vagabundo que não merece ou deixar de amar instantaneamente um sujeito devoto. Nada mais terrível que a mulher que cessa de te amar. Você vira um corpo sem órgãos, você vira também uma mulher abandonada.


Toda mulher é "Bovary"... e para serem amadas, instilam medo no coração do homem. Carinhosas, mas com perigo no ar. A carinhosa total entedia os machos... ficam claustrofóbicos. O homem só ama profundamente no ciúme. Só o corno conhece o verdadeiro amor. Mas, curioso, a mulher nunca é corna, mesmo abandonada, humilhada, não é corna. O homem corneado, carente, é feio de ver. A mulher enganada ganha ares de heroína, quase uma santidade. É uma fúria de Deus, é uma vingadora, é até suicida. Mas nunca corna. O homem corno é um palhaço. Ninguém tem pena do corno. O ridículo do corno é que ele achava que a possuía. A mulher sabe que não tem nada, ela sabe que é um processo de manutenção permanente. O homem só vira homem quando é corneado.


A mulher não vira nada nunca. Nem nunca é corneada... pois está sempre se sentindo assim. Como no homossexualismo: a lésbica não é viado.


A mulher é poesia. O homem é prosa. Isso não quer dizer que a mulher seja do bem e o homem do mal. Não. Muita vez, seus abismos são venenosos, seu mistério nos mata. A mulher quer ser possuída, mas não só no sexo, tipo "me come todinha". Falam isso no motel, para nos animar. O homem é pornográfico; a mulher é amorosa. A pornografia é só para homens. A mulher quer ser possuída em sua abstração, em sua geografia mutante, a mulher quer ser descoberta pelo homem para ela se conhecer. Ela é uma paisagem que quer ser decifrada pelas mãos e bocas dos exploradores. Ela não sabe quem é. Mas elas também não querem ser opacas, obscuras. Querem descobrir a beleza que cabe a nós revelar-lhes. As mulheres não sabem o que querem; o homem acha que sabe.


O masculino é certo; o feminino é insolúvel. O homem é espiritual e a mulher é corporal. A mulher é metafísica; homem é engenharia. A mulher deseja o impossível; desejar o impossível é sua grande beleza. Ela vive buscando atingir a plenitude e essa luta contra o vazio justifica sua missão de entrega. Mesmo que essa "plenitude" seja um "living" bem decorado ou o perfeito funcionamento do lar. O amor exige coragem. E o homem... é mais covarde. O homem, quando conquista, acha que não tem mais de se esforçar e aí , dança...


A mulher é muito mais exilada das certezas da vida que o homem. Ela é mais profunda que nós. Ela vive mais desamparada e, no entanto, mais segura. A vida e a morte saem de seu ventre. Ela faz parte do grande mistério que nós vemos de fora, com o pauzinho inerme. Ela tem algo de essencial, tem algo a ver com as galáxias. Nós somos um apêndice.


Hoje em dia, as mulheres foram expulsas de seus ninhos de procriação, de sua sexualidade passiva, expectante e jogadas na obrigação do sexo ativo e masculino. A supergostosa é homem. É um travesti ao contrário. Alguns dizem que os homens erigiram seus poderes e instituições apenas para contrariar os poderes originais bem superiores da mulher.


As mulheres sofrem mais com o mal do mundo. Carregam o fardo da dor histórica e social, por serem mais sensíveis e mais fracas. Os homens, por serem fálicos, escamoteiam a depressão e a consciência da morte com obsessões bélicas, financeiras ou políticas. As mulheres agüentam firmes a dor incompreendida. O mundo está tão indeterminado que está ficando feminino, como uma mulher perdida: nunca está onde pensa estar. O mundo determinista se fracionou globalmente, como a mulher. Mas não é o mundo delicado, romântico e fértil da mulher; é um mundo feminino comandado por homens boçais. Talvez seja melhor dizer um mundo travesti. O mundo hoje é travesti. Fonte: A Gazeta

Militares impuseram a Lula a maior derrota desde a redemocratização

Ontem, eu apontei uma óbvia derrota do governo ao ter de mudar o famigerado decreto — na verdade, editou um outro reformando o primeiro — que supostamente trata dos direitos humanos. Estou contente com o que ainda está naquela porcaria? É claro que não! Deixei claro lá: é só o começo. A evidência de que Lula foi obrigado a fazer o que não queria está no fato de que alguns blogueiros de aluguel insistem na tese de que nada mudou; de que Lula venceu, e Jobim e os militares teriam sido derrotados. É ridículo!

Em relação aos militares, o recuo não poderia ter sido mais vexaminoso. A investigação das violações dos direitos humanos “no contexto da repressão política” virou “violações de direitos humanos praticadas no período fixado no art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição”. Oba! Alguém se lembrou só um pouquinho da Constituição! Sabem o que isso significa? Que a tal comissão se dedicará a um levantamento arqueológico — sem revisão da Lei da Anistia, conseqüências legais ou afins — de crimes políticos cometidos entre, calculem!, 1946 e 1988!!!


Alguém perguntará: “Reinaldo, qual a chance de uma comissão como essa examinar também os crimes da esquerda?” Reposta: zero! Seja o governo vindouro petista ou tucano, a ladainha será a mesma. Os adoradores de falsos mártires e de cadáveres continuarão a contar a sua gesta falsificada, fingindo-se de grandes defensores da liberdade, da democracia e da paz. Mas isso os aparelhos culturais ocupados pelas esquerdas já fazem, não?


O importante é que o bolchevismo bolorento da VPR, do MR-8 e da ALN não vai ajustar contas com os “inimigos”. Lula achou que podia tudo. E VIU QUE SUA VARA É CURTA PARA CUTUCAR AS LEIS E A CONSTITUIÇÃO. Por enquanto ao menos. O NOVO DECRETO FAZ O FAVOR DE CITAR A CARTA. Assim, sim: o presidente da República e os bolchevistas bolorentos são seus servos, gostem ou não. Eles não gostam.


Ademais, não se escreverá por aí, eu sei, mas é fato: desde a redemocratização do Brasil, essa é a maior derrota que os militares impõem ao governo civil. Lula não passaria o vexame se a situação não fosse grave. Tutela? Não! Quem desrespeitava a lei era o decreto. É preciso parar com essa, como posso escrever?, tara fetichista de que aquele que enverga uniforme está sempre errado. Às vezes, um prosaico isopor nos ombros pode ser mais autoritário do que os temidos galões.


O resto
Atenção! O fato de os dinossauros bolchevistas terem corrido dos militares com seus fuzis simbólicos entre as pernas não quer dizer que tenha cessado o risco. O decreto continua:
- a ameaçar o direito de propriedade;
- a ameaçar a liberdade de expressão;
- a ameaçar a liberdade religiosa;
- a ameaçar a autonomia do ensino;
- a, em suma, defender a substituição da sociedade pelo PT e seus ditos “movimentos sociais”.


À boca nem tão pequena, os petistas asseguram que ninguém no partido vai querer se ocupar das medidas propostas no decreto. Os mais espertos dizem, sem cerimônia, que isso é só espasmo para agradar a extrema esquerda, mas não haverá conseqüências práticas. Não interessa! As intenções, muito más, estão todas reveladas no texto e valem por uma espécie de programa de governo de Dilma Rousseff. É certo que as disposições lá elencadas poderiam ser apresentadas na forma de projetos de lei a qualquer tempo. Ninguém precisa de decreto para isso. Mas o fato é que ele existe e que ninguém precisa interpretar a vontade dos petistas: elas foram arreganhadas no texto.


A Associação Nacional dos Editores de Revista (Aner) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) voltaram a afirmar que o decreto fere a liberdade de expressão. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) emitiu um dura e curta nota, a saber:

As notícias de que o Governo recuou e alterou dispositivos do polêmico PNDH 3 devem ser recebidas com reserva e atenção.

É verdade que a reação da sociedade impede o Governo de seguir em seus propósitos autoritários. Mas os conflitos estabelecidos pelo Decreto da Presidência da República não se esgotam com a revisão da referência à questão militar.

Todas as outras declarações de intenção contidas no PNDH 3 permanecem. Foram mantidas as ameaças às instituições democráticas, ao estado de direito e à liberdade de expressão.

Em conseqüência, mantenho meu protesto e insisto na indignação e no apelo ao bom senso.

Kátia Abreu está certa. Uma primeira derrota do governo não é o suficiente, como deixei claro no texto de ontem, para tranqüilizar os que defendem o estado de direito e as leis. Os petistas deixaram claro, com a versão 3.0 do Programa Nacional de Direitos Humanos, que a democracia, para eles, tem valor não mais do que tático. Tendo conquistado as instâncias do Estado, a própria democracia que os conduziu ao poder começa a ser tratada como inimiga. A razão é simples: ela enseja alternância de poder, pluralidade, liberdade de opinião, tudo aquilo que a esquerda abomina.


Hora de celebrar a grande derrota que sofreram. E, CONVENHAM, NINGUÉM VAI TIRAR ESTE GOSTINHO DESTE BLOG POR RAZÕES ÓBVIAS. Hora de mobilizar os democratas para lhes impor novas derrotas. Sempre que esses caras perdem, o Brasil ganha. O que é bom para eles será sempre ruim para o país.

À luta!

Fonte: Blog do Reinaldo Azevedo

Lista das pessoas mortas por terroristas de esquerda 3

A IMPRESSIONANTE COVARDIA DE LAMARCA

E continua a lista com os nomes das vítimas dos terroristas de esquerda. Neste grupo, destaca-se a impressionante covardia de Carlos Lamarca, o grande herói do panteão da mistificação. Sabe-se que era um assassino frio. Mas prestem atenção às circunstâncias da morte de Alberto Mendes Junior, a vítima nº 56: era também perverso.


51 - 17/01/70 - José Geraldo Alves Cursino - Sargento PM - São Paulo / SP
Morto a tiros por terroristas.

52 - 20/02/70 - Antônio Aparecido Posso Nogueró - Sargento PM - São Paulo
Morto pelo terrorista Antônio Raimundo de Lucena quando tentava impedir um ato terrorista no Jardim Cerejeiras, Atibaia/SP.

53 - 11/03/70 - Newton de Oliveira Nascimento - Soldado PM - Rio de Janeiro
No dia 11/03/70, os militantes do grupo tático armado da ALN Mário de Souza Prata, Rômulo Noronha de Albuquerque e Jorge Raimundo Júnior deslocavam-se num carro Corcel azul, roubado, dirigido pelo último, quando foram interceptados no bairro de Laranjeiras- RJ por uma patrulha da PM. Suspeitando do motorista, pela pouca idade que aparentava, e verificando que Jorge Raimundo não portava habilitação, os policiais ordenaram-lhe que entrasse no veículo policial, junto com Rômulo Noronha Albuquerque, enquanto Mauro de Souza Prata, acompanhado de um dos soldados, iria dirigindo o Corcel até a delegacia mais próxima. Aproveitando-se do descuido dos policiais, que não revistaram os detidos, Mário, ao manobrar o veículo para colocá-lo à frente da viatura policial, sacou de uma arma e atirou, matando com um tiro na testa o soldado da PM Newton Oliveira Nascimento, que o escoltava no carro roubado. O soldado Newton deixou a viúva dona Luci e duas filhas menores, de quatro e dois anos.

54 - 31/03/70 - Joaquim Melo - Investigador de Polícia - Pernambuco
Morto por terroristas durante ação contra um “aparelho”

55 - 02/05/70 - João Batista de Souza - Guarda de Segurança - SP
Um comando terrorista, integrado por Devanir José de Carvalho, Antonio André Camargo Guerra, Plínio Petersen Pereira, Waldemar Abreu e José Rodrigues Ângelo, pelo Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), e mais Eduardo Leite (Bacuri), pela Resistência Democrática (REDE), assaltaram a Companhia de Cigarros Souza Cruz, no Cambuci/SP. Na ocasião Bacuri assassinou o guarda de segurança João Batista de Souza.

56 - 10/05/70 - Alberto Mendes Junior- 1º Tenente PM - SP
Esta é uma das maiores expressões da covardia e da violência de que era capaz o terrorista Carlos Lamarca. No dia 08/05/70, 7 terroristas, chefiados por ele, estavam numa pick-up e pararam num posto de gasolina em Eldorado Paulista. Foram abordados por policiais e reagiram a bala, conseguindo fugir. Ciente do ocorrido, o Tenente Mendes organizou uma patrulha. Em duas viaturas, dirigiu-se de Sete Barras para Eldorado Paulista. Por volta das 21h, houve o encontro com os terroristas, que estavam armados com fuzis FAL, enquanto os PMs portavam o velho fuzil Mauser modelo 1908. Em nítida desvantagem bélica, vários PMs foram feridos, e o Tenente Mendes verificou que diversos de seus comandados estavam necessitando de urgentes socorros médicos. Julgando-se cercado, Mendes aceitou render-se desde que seus homens pudessem receber o socorro necessário. Tendo os demais componentes da patrulha permanecido como reféns, o Tenente levou os feridos para Sete Barras.

De madrugada, a pé e sozinho, Mendes buscou contato com os terroristas, preocupado que estava com o restante de seus homens. Encontrou Lamarca, que decidiu seguir com seus companheiros e com os prisioneiros para Sete Barras. Ao se aproximarem dessa localidade, foram surpreendidos por um tiroteio, ocasião em que dois terroristas - Edmauro Gopfert e José Araújo Nóbrega - desgarraram-se do grupo, e os cinco terroristas restantes embrenharam-se no mato, levando junto o Tenente Mendes. Depois de caminharem um dia e meio na mata, os terroristas e o tenente pararam para descansar. Carlos Lamarca, Yoshitame Fujimore e Diógenes Sobrosa de Souza afastaram-se e formaram um “tribunal revolucionário”, que resolveu assassinar o Tenente Mendes. Os outros dois, Ariston Oliveira Lucena e Gilberto Faria Lima, ficaram vigiando o prisioneiro.

Poucos minutos depois, os três terroristas retornaram. Yoshitame Fujimore desfechou-lhe violentos golpes na cabeça, com a coronha de um fuzil. Caído e com a base do crânio partida, o Tenente Mendes gemia e se contorcia em dores. Diógenes Sobrosa de Souza desferiu-lhe outros golpes na cabeça, esfacelando-a. Ali mesmo, numa pequena vala e com seus coturnos ao lado da cabeça ensangüentada, o Tenente Mendes foi enterrado. Em 08/09/70, Ariston Lucena foi preso pelo DOI-CODI e apontou o local onde o tenente estava enterrado.

57 - 11/06/70 - Irlando de Moura Régis - Agente da Polícia Federal - RJ
Foi assassinado durante o seqüestro do embaixador da Alemanha, Ehrendfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben. A operação foi executada pelo Comando Juarez Guimarães de Brito. Participaram Jesus Paredes Soto, José Maurício Gradel, Sônia Eliane Lafóz, José Milton Barbosa, Eduardo Coleen Leite (Bacuri), que matou Irlando, Herbert Eustáquio de Carvalho, José Roberto Gonçalves de Rezende, Alex Polari Alvarenga e Roberto Chagas da Silva.

58 - 15/07/70 - Isidoro Zamboldi - segurança - SP
Morto pela terrorista Ana Bursztyn durante assalto à loja Mappin.

59 - 12/08/70 - Benedito Gomes - Capitão do Exército - SP
Morto por terroristas, no interior do seu carro, na Estrada Velha de Campinas.

60 - 19/08/70 - Vagner Lúcio Vitorino da Silva - Guarda de segurança - RJ
Morto durante assalto do Grupo Tático Armado da organização terrorista MR-8 ao Banco Nacional de Minas Gerais, no bairro de Ramos. Sônia Maria Ferreira Lima foi quem fez os disparos que o mataram. Participaram, também, dessa ação os terroristas Reinaldo Guarany Simões, Viriato Xavier de Melo Filho e Benjamim de Oliveira Torres Neto, os dois últimos recém-chegados do curso em Cuba.

61 - 29/08/70 - José Armando Rodrigues - Comerciante - CE
Proprietário da firma Ibiapaba Comércio Ltda. Após ter sido assaltado em sua loja, foi seqüestrado, barbaramente torturado e morto a tiros por terroristas da ALN. Após seu assassinato, seu carro foi lançado num precipício na serra de Ibiapaba, em São Benedito, CE. Autores: Ex-seminaristas Antônio Espiridião Neto e Waldemar Rodrigues Menezes (autor dos disparos), José Sales de Oliveira, Carlos de Montenegro Medeiros, Gilberto Telmo Sidney Marques, Timochenko Soares de Sales e Francisco William.

62 - 14/09/70 - Bertolino Ferreira da Silva - Guarda de segurança - SP
Morto durante assalto praticado pelas organizações terroristas ALN e MRT ao carro pagador da empresa Brinks, no Bairro do Paraíso em são Paulo.

63 - 21/09/70 - Célio Tonelly - soldado da PM - SP
Morto em Santo André. Quando de serviço em uma rádio-patrulha, tentou deter terroristas que ocupavam um automóvel.

64 - 22/09/70 - Autair Macedo - Guarda de segurança - RJ
Morto por terroristas, durante assalto a empresa de ônibus Amigos Unidos

65 - 27/10/70 - Walder Xavier de Lima - Sargento da Aeronáutica - BA
Morto quando, ao volante de uma viatura, conduzia terroristas presos, em Salvador. O assassino, Theodomiro Romeiro dos Santos (Marcos) o atingiu com um tiro na nuca. Organização: PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário).

66 - 10/11/70 - José Marques do Nascimento - civil - SP
Morto por terroristas que trocavam tiros com a polícia.

67 - 10/11/70 - Garibaldo de Queiroz - Soldado PM - SP
Morto em confronto com terroristas da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) que faziam uma panfletagem armada na Vila Prudente, São Paulo.

68 - 10/11/70 - José Aleixo Nunes - soldado PM - SP
Também morto na ocorrência relatada acima.

69 - 10/12/70 - Hélio de Carvalho Araújo - Agente da Polícia Federal - RJ
No dia 07/12, o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, foi seqüestrado pela VPR. Participaram da operação os terroristas Adair Gonçalves Reis, Gerson Theodoro de Oliveira, Maurício Guilherme da Silveira, Alex Polari de Alvarenga, Inês Etienne Romeu, Alfredo Sirkis, Herbert Eustáquio de Carvalho e Carlos Lamarca. Após interceptar o carro que conduzia o Embaixador, Carlos Lamarca bateu com um revólver Smith-Wesson, cano longo, calibre 38, no vidro do carro. Abriu a porta traseira e, a uma distância de dois metros, atirou, duas vezes contra o agente Hélio. Os terroristas levaram o embaixador e deixaram o agente agonizando. Transferido para o hospital Miguel Couto, morreu no dia 10/12/70.

70 - 07/01/71 - Marcelo Costa Tavares - Estudante - MG
Morto por terroristas durante um assalto ao Banco Nacional de Minas Gerais.
Autor dos disparos: Newton Moraes.

71 - 12/02/71 - Américo Cassiolato - Soldado PM - São Paulo
Morto por terroristas em Pirapora do Bom Jesus.

72 - 20/02/71 - Fernando Pereira - Comerciário - Rio de Janeiro
Morto por terroristas quando tentava impedir um assalto ao estabelecimento “Casa do Arroz”, do qual era gerente.

73 - 08/03/71 - Djalma Peluci Batista - Soldado PM - Rio de Janeiro
Morto por terroristas, durante assalto ao Banco do Estado do Rio de Janeiro.

74 - 24/03/71 - Mateus Levino dos Santos - Tenente da FAB - Pernambuco
O PCBR necessitava roubar um carro para participar do seqüestro do cônsul norte-americano, em Recife. No dia 26/06/70, o grupo decidiu roubar um Fusca, estacionado em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife, nas proximidades do Hospital da Aeronáutica. Ao tentarem render o motorista, descobriram tratar-se de um tenente da Aeronáutica. Carlos Alberto disparou dois tiros contra o militar: um na cabeça e outro no pescoço. Depois de nove meses de intenso sofrimento, morreu no dia 24 de março de 1971, deixando viúva e duas filhas menores. O imprevisto levou o PCBR a desistir do seqüestro.

75 - 04/04/71 - José Julio Toja Martinez - Major do Exército - Rio de Janeiro
No início de abril, a Brigada Pára-Quedista recebeu uma denúncia de que um casal de terroristas ocupara uma casa localizada na rua Niquelândia, 23, em Campo Grande/RJ. Não desejando passar esse informe à 2ª Sessão do então I Exército, sem aprofundá-lo, a 2ª Sessão da Brigada, chefiada pelo major Martinez, montou um esquema de vigilância da casa. Por volta das 23h, chega um casal de táxi. A mulher ostentava uma volumosa barriga, sugerindo gravidez.

O major Martinez acabara de concluir o curso da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, onde, por três anos, exatamente o período em que a guerra revolucionária se desenvolvera, estivera afastado desses problemas em função da própria vida escolar bastante intensa. Estagiário na Brigada de Pára-Quedista, a quem também não estava afeta a missão de combate à subversão, não se havia habituado à virulência da ação terrorista.

Julgando que o casal nada tinha a ver com a subversão, Martinez iniciou a travessia da rua, a fim de solicitar-lhe que se afastasse daquela área. Ato contínuo, da barriga, formada por uma cesta para pão com uma abertura para saque da arma ali escondida, a “grávida” retirou um revólver, matando-o antes que pudesse esboçar qualquer reação. O capitão Parreira, de sua equipe, ao sair em sua defesa, foi gravemente ferido por um tiro desferido pelo terrorista. Nesse momento, os demais agentes desencadearam cerrado tiroteio, que causou a morte do casal de terroristas. Eram os militantes do MR-8 Mário de Souza Prata e Marilena Villas-Bôas Pinto, responsáveis por uma extensa lista de atos terroristas. No “aparelho” do casal, foram encontrados explosivos, munição e armas, além de dezenas de levantamentos de bancos, de supermercados, de diplomatas estrangeiros e de generais do Exército. Martinez deixou viúva e quatro filhos, três meninas e um menino, a mais velha, à época, com 11 anos.

76 - 07/04/71 - Maria Alice Matos - Empregada doméstica - Rio de Janeiro
Morta por terroristas quando do assalto a um depósito de material de construção.

77 - 15/04/71 - Henning Albert Boilesen - (Industrial - São Paulo)
Quando da criação da Operação Bandeirante, o então comandante do II Exército, general Canavarro, reuniu-se com o governador do Estado de São Paulo, com várias autoridades federais, estaduais, municipais e com industriais paulistas para solicitar o apoio para um órgão que necessitava ser criado com rapidez, a fim de fazer frente ao crescente terrorismo que estava em curso no estado de São Paulo. Assim, vários industriais, entre eles Boilesen, se cotizaram para atender ao pedido daquela autoridade militar. Por de3cisão de Lamarca, Boilesen, um dinamarquês naturalizado brasileiro, foi assassinado. Participaram da ação os terroristas Yuri Xavier Pereira, Joaquim Alencar Seixas, José Milton Barbosa, Dimas Antonio Casimiro e Antonio Sérgio de Matos. No relatório escrito por Yuri, e apreendido pela polícia, aparecem as frases “durante a fuga trocávamos olhares de contentamento e satisfação. Mais uma vitória da Revolução Brasileira”. Vários carros e casas foram atingidos por projéteis. Duas mulheres foram feridas. Sobre o corpo de Boilesen, atingido por 19 tiros, panfletos da ALN e do MRT, dirigidos “Ao Povo Brasileiro”, traziam a ameaça: “Como ele, existem muitos outros e sabemos quem são. Todos terão o mesmo fim, não importa quanto tempo demore; o que importa é que eles sentirão o peso da JUSTIÇA REVOLUCIONÁRIA. Olho por olho, dente por dente”.

78 - 10/05/71 - Manoel da Silva Neto - Soldado PM - SP
Morto por terroristas durante assalto à Empresa de Transporte Tusa.

79 - 14/05/71 - Adilson Sampaio - Artesão - RJ
Morto por terroristas durante assalto às lojas Gaio Marti.

80 - 09/06/71 - Antônio Lisboa Ceres de Oliveira - Civil - RJ
Morto por terroristas durante assalto à boate Comodoro

Fonte: Blog do Reinaldo Azevedo

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