O exército, o político, o morro e a morte

Às seis horas da manhã de 14 de junho de 2008, os amigos David Florêncio, Wellington Gonzaga e Marcos Paulo Campos desceram do táxi, na praça Américo Brum, no alto do morro da Providência - a favela mais antiga do Rio de Janeiro. Chegavam de um baile funk.


Das manchetes ao esquecimento: o caso Providência faz dois anos

Os rapazes, moradores da comunidade, falavam alto e riam, chamando a atenção dos comerciantes que abriam suas lojas ainda com o céu escuro. Do outro lado da praça, um grupo de militares do Exército - que havia seis meses patrulhava a área como parte da estratégia de segurança do Cimento Social, um projeto de reforma de casas populares -, também se virou para acompanhar o burburinho.

Como o táxi continuava estacionado, um dos soldados ventilou a hipótese de que os jovens dariam calote no motorista. Resolveram averiguar a situação. Onze homens fardados e armados com pistolas e fuzis caminharam em direção ao veículo.

Foi quando um dos militares enxergou um objeto bojudo e suspeito na cintura de um dos rapazes e fez sinal aos colegas. Como em uma coreografia ensaiada, o grupo levou as mãos aos coldres e passou a gritar, produzindo uma torrente confusa de ordens. Os jovens entenderam que precisavam se encostar no muro para serem revistados.

Protestaram. Argumentaram que eram moradores da favela, que os militares os conheciam havia tempo e que eram pessoas "de bem". Um dos três ainda emendou: "Vocês não mandam aqui!"

Os soldados seguiam berrando para que os jovens abrissem as pernas, levantassem os braços e se colassem à parede. Diante da cena, o taxista, que recebera pela corrida, partiu acelerando o carro.

Dez minutos se passaram e o bate-boca seguia inflamado. A essa altura, moradores e transeuntes compunham uma plateia aturdida. Alguém de dentro da padaria gritou: "Mostra logo para eles que vocês não têm nada e pronto."

Como se estivessem em câmera lenta - resultado provável do consumo excessivo de álcool durante a noitada -, os rapazes finalmente levaram as mãos à nuca. O movimento fez com que a camiseta de um deles se levantasse revelando a natureza do objeto bojudo e suspeito: era um celular.

De acordo com testemunhas, alguns soldados se entreolharam. O excesso contra os jovens de celular os deixara claramente desconfortáveis. Um dos militares subiu a voz. Disse que, ainda assim, os três seriam levados para "averiguações" na base militar recém-instalada no bairro do Santo Cristo, aos pés do morro da Providência - o que deflagrou um novo embate verbal.

Os rapazes xingavam, faziam gestos obscenos e os soldados davam o troco na mesma moeda. No meio da confusão, um dos jovens se desvencilhou do cerco militar e saiu correndo, seguido pelos dois amigos. Tentavam entrar no beco que os levaria para casa - uma viela escura de menos de 2 metros de largura que desembocava num emaranhado de barracos.

Com as armas em punho e sob o olhar estupefato dos espectadores, os militares iniciaram uma perseguição. O tenente Vinícius Ghidetti, um capixaba de 25 anos, casado e com um filho de 2 meses, comandava a operação. Enquanto corria, levantou o braço e atirou para o alto. O disparo fez com que moradores se jogassem no chão, passantes se escondessem atrás de muretas e os curiosos - que já somavam mais de cinquenta pessoas - escapassem para dentro das lojas.

Os três rapazes foram capturados e levados de volta à praça. Zé do Guaraná, um paraibano que vive na Providência há quatro décadas e é dono de uma loja de materiais de construção, ainda guarda detalhes. "O Marcos Paulo tentou se distanciar do grupo, mas um soldado negro e alto puxou ele de volta e ficou dizendo: 'Não! Não! Você fica aqui também'", contou.

Durante uma hora, os rapazes permaneceram sentados no chão, sob o bulício revoltado dos moradores, à espera do jipe oficial que os levaria para a base militar, onde seria checado se tinham pendências com a Justiça. Foi nessa situação que Bárbara Gonzaga, uma jovem magra de cabelos frisados, viu seu irmão, Wellington, pela última vez.

"Quando cheguei perto, um soldado me disse: 'Pode se despedir dele. Pode se despedir'", contou, numa manhã recente, na sala de sua casa, no coração da Providência.

Às 7h30, David, Wellington e Marcos Paulo entraram no jipe. Os presentes ouviram quando os militares disseram que em breve os três estariam de volta. "Quando o jipe desapareceu pela ladeira, fiquei desesperada. Senti uma coisa muito ruim", lembrou Bárbara.

A informação de que três jovens tinham sido detidos levou um átimo para cruzar a favela. Desde a chegada dos 290 militares ao morro da Providência, dezoito episódios de desacato - média de quase um por semana - haviam sido registrados. O clima amistoso entre Exército e moradores parecia ser mais uma quimera das autoridades, própria para consumo externo, do que a realidade cotidiana da favela.

David, Wellington e Marcos Paulo eram vizinhos. Quem os visse juntos, poderia tomá-los por irmãos. O corte de cabelo era igual - curto, raspado a máquina -, a altura era semelhante e as roupas, parecidas.

O mais velho era David. Tinha 24 anos e cursava à noite o último ano do ensino médio. Durante o dia, trabalhava numa lan house. Aos 19 anos, Wellington concluía o 2º ano do ensino médio na mesma escola. Fazia bicos como contínuo, entregador de pizza e garçom. Ambos tinham passagem pela polícia. Quando ainda não tinham completado 18 anos, Wellington fora apreendido por associação ao tráfico e David, por porte de arma e corrupção de menores. Marcos Paulo tinha 17 anos e a ficha limpa. Estava na 7ª série.

Às 8 horas, o tenente Vinícius Ghidetti chegou à base militar do Santo Cristo trazendo consigo os três jovens. Ali, encontrou-se com o capitão Laerte Ferrari, a quem relatou o ocorrido. Ghidetti sugeriu a seu superior que enquadrasse os rapazes por crime de desacato a autoridade.

O capitão

Ferrari mandou o tenente ignorar o episódio e soltar os jovens. Ghidetti bateu continência sem disfarçar a contrariedade. Naquele momento, lembrou-se do que lera no documento confidencial elaborado pelo Exército durante o período de planejamento da operação na Providência. "Nenhuma fração da Força Terrestre pode ser derrotada e o Exército Brasileiro não pode ser desmoralizado."

Meses depois, Ghidetti explicou a razão pela qual decidira não acatar a ordem do seu superior. Livrar os jovens de uma repreensão que lhe parecia merecida poderia afetar o moral e o prestígio da tropa junto aos moradores da favela. Foi assim que, segundo afirmou em juízo, decidiu que David, Wellington e Marcos Paulo mereciam uma lição.

Horas antes, assim que o jipe saiu de seu campo de visão, Bárbara Gonzaga correu para avisar sua mãe, Lílian, sobre Wellington. Lílian, de 43 anos, que na hora fazia a faxina da Vila Olímpica da Gamboa, largou o serviço e foi uma das primeiras pessoas a chegar à base militar onde estavam seu filho e os dois amigos.

Da cancela, era possível enxergá-los ainda no pátio. "Eu vi os soldados obrigando os meninos a sentar e levantar milhares de vezes, só de maldade. Gritei pra eles liberarem os garotos, mas eles me ignoraram." Segundo Lílian, seu filho estava arranhado e com a blusa rasgada.

Benedita Monteiro, avó de David, uma cearense de 70 anos e de pele vincada, ainda dormia quando soube que seu neto predileto havia sido capturado pelo Exército. Teve tempo apenas de calçar os chinelos antes de sair a sua procura. "O que vocês fizeram com o meu menino?", perguntou ao primeiro homem fardado que cruzou no caminho. "Não se preocupe, tia. Eles foram fazer uma averiguação e já voltam", respondeu o soldado.

Ao chegar em frente à base do Santo Cristo, ela foi recebida com hostilidade. "Os militares atiçavam uns bichões enormes contra a gente", disse. Bichões, explicou, eram cachorros.

Maria de Fátima Barbosa, de 50 anos, criara Marcos Paulo desde que ele tinha 6 anos. A avó do menino falecera e ela, como vizinha, assumira para si a responsabilidade. "Desde então, cuidei dele como se tivesse saído de mim", contou. Também estava deitada quando soube do ocorrido. Mandou sua filha mais velha ir atrás da história.

Por volta das 9 horas, cerca de cinquenta pessoas se aglomeravam no portão da base militar para exigir a libertação dos rapazes. Gritavam, xingavam e pediam clemência. O tenente Vinícius Ghidetti ignorou os protestos. Reuniu sua tropa e mandou que subisse num caminhão onde já estavam os jovens.

Os rapazes se equilibravam na boleia do veículo quando Ghidetti avisou: "Vou escrever 'cv' na testa de vocês", referindo-se à sigla do Comando Vermelho, a facção criminosa que domina a Providência. Segundos depois, aprimorou a ideia. Disse que os largaria num morro controlado por um grupo rival. Para bom entendedor, aquilo tinha o peso de uma sentença de morte.

Ghidetti mandou chamar um colega que conhecesse a geopolítica da violência local. Foi informado de que a favela da Mineira - a dois passos do Sambódromo, como se pode constatar pelos desfiles de escola de samba - era controlada pela Amigos dos Amigos, a ada, inimiga intestina do Comando Vermelho.

Ordenou ao motorista que deixasse a base pelos fundos, de modo a evitar a multidão. Cruzou novamente com o capitão Ferrari, que se surpreendeu com o fato de os rapazes ainda estarem por ali. O capitão quis saber por que sua ordem não fora cumprida.

Ghidetti explicou suas razões: soltar os rapazes na base pareceria concessão à pressão das famílias, o que seria vexaminoso. Ele os liberaria "um pouco mais à frente". O chefe se deu por satisfeito e autorizou a passagem do veículo.

Em dez minutos, o caminhão do Exército chegou ao morro da Mineira. Segundo o relato de Ghidetti, no trajeto ele chegou a perguntar aos jovens se estavam arrependidos por terem desacatado a tropa, mas, como "não obteve respostas satisfatórias", determinou que o motorista seguisse para as vielas da favela.

Não tardou para que o veículo fosse parado por traficantes armados. Em seu depoimento ao Conselho Especial de Justiça, Ghidetti classificou o encontro com os criminosos como "contato fortuito". Segundo disse, jamais havia falado ou visto qualquer um deles. A prova seria o fato de terem ficado sob a mira dos bandidos até um sargento descer do caminhão e esclarecer que não haveria conflito.

De acordo com o relato de pelo menos três integrantes do pelotão, Ghidetti começou o diálogo com os traficantes avisando que trazia "um presentinho". O tenente nega veementemente a frase. Diz também ser falsa a informação de que teria feito um acordo com a facção Amigos dos Amigos para "vender" os jovens, como chegou a ser divulgado à época.

Entretanto, reconhece ter informado que os rapazes eram da Providência e mereciam um "susto". De acordo com o testemunho de alguns soldados, a conversa foi encerrada com um aperto de mão entre um dos chefes do crime organizado local e o tenente Ghidetti, que se despediu dizendo: "Valeu."

Assistindo à cena, apavorados, os jovens tentaram fugir, mas foram capturados com facilidade. Não tinham escolha. De um lado, havia as armas dos criminosos. Do outro, as do Exército Brasileiro. Ficaram com os traficantes.

A tropa tomou o caminho de volta. Ao chegar à base, os familiares ainda protestavam. Ghidetti mandou que seus soldados informassem que os rapazes tinham sido soltos no centro da cidade. Ao pelotão, pediu discrição sobre o episódio.

Anoitecia e ainda não havia notícias de David, Wellington e Marcos Paulo. As famílias tinham passado o dia peregrinando por hospitais, delegacias e andando a esmo pelo centro da cidade.

Uma vizinha de Maria de Fátima, a tutora de Marcos Paulo, recebeu o telefonema de uma prima, moradora do morro da Mineira. Ela dizia que três garotos "de fora do morro" tinham sido vistos por lá. Alguém da família de Wellington resolveu ligar para o tal objeto bojudo e suspeito. Do outro lado da linha, uma voz atendeu: "Já perdeu. Tá morto." A notícia se espalhou rapidamente pela comunidade.

Minutos depois, mais de 100 pessoas se concentravam na praça Américo Brum. Os militares pediram reforço e subiram em um coreto para se proteger da multidão, que atirava pedras e garrafas. Revidaram com tiros para o alto.

A vereadora Líliam Sá, do Partido da República, cujo rosto podia ser visto nos cartazes que dominavam o entorno da praça, foi chamada às pressas, mas acabou também sendo alvo do gás de pimenta lançado pelos soldados. A confusão varou a madrugada.

O delegado Ricardo Dominguez, responsável pela 4ª dp, lanchava com seus trigêmeos quando foi avisado de que o posto policial estava tomado por familiares de três jovens da Providência que estavam desaparecidos. Ouviu que as pessoas insistiam em envolver o Exército no desaparecimento.

Dominguez, um homem alto, de cabelos bem penteados e pele levemente rosada, entendeu a gravidade do assunto. Ao chegar à delegacia, começou as investigações. Foi pessoalmente à sede do Comando Militar do Leste, a instância máxima do Exército na capital.

Ali, deu de cara com os onze membros do pelotão do tenente Vinícius Ghidetti, que começavam a amargar uma detenção administrativa por haver desobedecido à ordem para soltar os rapazes. Interrogou-os um por um ao longo da madrugada. "Era tarde quando obtive a confissão do tenente. Sem qualquer sinal de remorso, ele me contou que havia deixado os jovens na Mineira para que os traficantes lhes dessem um susto", lembrou. "Mas, até ali, não havia corpos. Não se falava em homicídio."

Naquela noite, o Disque-Denúncia recebeu sete informações importantes sobre o caso. A partir delas, foi possível reconstituir as últimas horas de David, Wellington e Marcos Paulo.

Para morrer, basta que o indivíduo cruze a fronteira entre duas facções criminosas rivais. Na esquina das ruas Emília Guimarães e Van Erven, diante de vários moradores da Mineira, os três jovens foram baleados depois de serem brutalmente espancados e torturados. Os corpos foram jogados numa caçamba de lixo da praça Doutor Roberto, que a Comlurb recolheu sem saber o que continha.

Nas primeiras horas da manhã seguinte, o delegado Dominguez recebeu um telefonema de um colega do posto policial de Duque de Caxias. Foi informado de que três corpos tinham sido encontrados em Gramacho, no maior aterro sanitário da América Latina, uma montanha fétida que recebe diariamente 9 mil toneladas de dejetos urbanos.

Dominguez ligou para um dos familiares dos rapazes. "Quando atenderam, me identifiquei e perguntei onde estavam. Disseram-me que estavam protestando em frente à base militar do Santo Cristo. Na hora, hesitei. Não queria causar mais tumulto, mas resolvi dizer: 'Olha, desculpa, acharam os corpos.'"

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal, Wellington tinha "19 pafs", sigla para perfuração por arma de fogo. Um dos tiros estraçalhou seu olho direito. As mãos foram amarradas com fios de náilon que abriram sulcos profundos nos pulsos. Um plástico transparente envolvia o pescoço e a cabeça, de onde escorriam pedaços do cérebro. "Nota-se destruição total da massa encefálica e tronco-cerebral, descolada da dura-máter", escreveu o legista, referindo-se à membrana mais extensa, espessa e fibrosa do cérebro.

David levou 26 tiros e foi amarrado com fios de telefone e cordas de sisal. As pernas tinham diversas fraturas, e o crânio fora fatalmente atingido. O menor Marcos Paulo morreu com dois disparos à queima-roupa.

A Associação de Moradores da Providência e organizações não governamentais dispararam telefonemas para a imprensa e para políticos locais, com o intuito de engrossar o protesto iniciado na porta da base. De lá, o grupo marchou até o prédio do Comando Militar do Leste gritando palavras de ordem. "Ah! Ah! Quem matou vai pagar", "Justiça! Justiça!" No meio do caminho, os manifestantes cruzaram com um jipe do Exército, que se viu obrigado a dar marcha a ré e se retirar do local.

No dia seguinte, às seis da tarde, os jovens foram enterrados. Uma hora depois, o Rio de Janeiro testemunharia um dos protestos populares mais violentos de que se tem notícia. Cerca de 300 pessoas atacaram a sede do Comando Militar do Leste com paus, pedras, cartazes, garrafas e até coroas de flores trazidas do cemitério.

Do alto do edifício, os soldados apontavam suas armas para a multidão. Usaram bombas de efeito moral, balas de borracha e gás lacrimogênio para conter o tumulto. O trânsito de algumas ruas e a saída do terminal rodoviário que liga o Centro à Baixada Fluminense foram interrompidos. Houve quebra-quebra de carros, queima de ônibus e saques. A desordem só chegou ao fim no meio da madrugada.

David, Wellington e Marcos Paulo não puderam ser enterrados no cemitério do Caju, o mais próximo de suas casas - no Rio, cemitérios também se dividem entre facções criminosas. O Caju é área exclusiva da Amigos dos Amigos. Os três corpos foram levados para o São João Batista, na Zona Sul da cidade.

Segundo a avó de David, Benedita Monteiro, o enterro dos três - que custou 6 mil reais - foi pago pelos traficantes da Providência. "O dono do morro ligou para a irmã dele, que é quem está no lugar dele enquanto ele está preso, e disse que o movimento não podia agir como se nada tivesse acontecido." Era hora de mostrar apoio às mães e, sobretudo, repúdio total ao Exército e à rival ada. Os parentes de Wellington e Marcos Paulo negam essa versão.

Os meninos foram enterrados em caixão de madeira de lei. Um cortejo os acompanhou até o cemitério: sete ônibus, dezenas de kombis e inúmeras motos com cartazes afixados em que se lia: "A minha infelicidade é ter votado em você, Lula e Cesar Maia" e também: "Crivella, anjo mau".

No início do ano anterior, 2007, parlamentares do prb, o partido do vice-presidente José Alencar e do senador Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, tinham uma audiência agendada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tratariam de assuntos de praxe, como coli-
gações e cargos.

Na primeira brecha, Crivella pediu a palavra. Tirou da pasta uma fotografia do morro da Providência alterada por Photoshop. Nela, via-se a favela com barracos decadentes ao lado de casas remodeladas, com fachadas refeitas e telhados novos. "Presidente", disse o senador, "a Providência pode ficar assim."

Crivella vendia diretamente ao governo federal o diamante de sua próxima campanha eleitoral: o projeto Cimento Social. A proposta previa a recuperação de 782 casas da favela. Tetos e janelas seriam trocados e paredes, repintadas. Os barracos seriam revestidos com placas pré-moldadas de 1 centímetro de espessura feitas com uma argamassa patenteada pela Universidade de São Paulo que duraria "mil anos".

Pelo projeto, as novas estruturas resistiriam "ao impacto de balas de até 7,5 milímetros de calibre, a uma distância mínima de 20 metros". Também se previa a implantação de um sistema de esgoto, a instalação de centros comunitários, creches, postes de iluminação e a criação de um sistema de proteção para a rede elétrica e telefônica. Por último, a área seria reflorestada.

Numa tarde recente, Crivella falou da reunião ocorrida há três anos. Segundo disse, o presidente Lula comprou a ideia "no ato" e convocou engenheiros do Ministério das Cidades para ouvir a proposta do senador.

Dias depois, Crivella sobrevoaria de helicóptero a favela carioca em companhia de Ambrosino de Serpa Coutinho, engenheiro da Secretaria de Habitação do Ministério das Cidades. Em 2008, Crivella foi lançado candidato do prb à prefeitura do Rio, com o apoio do presidente Lula.

No meio do caminho do Cimento Social, havia Cesar Maia, um obstáculo barulhento e de peso. O então prefeito passou a dizer que a remodelação das casas na Providência não passava de promessa eleitoreira feita às vésperas de um pleito relevante. Queria impugnar a licitação pública das obras.

A reação do Palácio do Planalto foi imediata. Em vez de ser submetido aos trâmites usuais de um projeto público - envio de carta-consulta e cumprimento de todas as etapas burocráticas previstas em lei -, o governo federal acolheu a ideia de Crivella por meio de uma emenda parlamentar apresentada pelo próprio senador.

Em vez de o contrato de repasse de verbas, no valor de 12 milhões de reais, ser firmado entre o Ministério das Cidades e a prefeitura - como seria o usual - estabeleceu-se um acordo de cooperação técnica entre o Ministério das Cidades e o da Defesa. Desse modo, foram dispensados o envolvimento da prefeitura carioca e a fiscalização da Caixa Econômica Federal, a quem compete controlar o uso de recursos públicos em obras de habitação popular.

"Usar o Exército na proteção dos canteiros era a única alternativa viável", explicou Crivella, numa tarde de maio no plenário do Senado, em Brasília. "As polícias do Rio não tinham gente suficiente nem interesse político para executar aquilo", acrescentou.

Quando relembrou o caso da Providência, Crivella lançou o olhar para longe, e ficou assim, como se tomado pela tristeza. Depois de um silêncio, disse que a morte dos três jovens era "uma desgraça". Perguntado sobre quem teria dado a ordem final autorizando a ocupação da favela pelas tropas durante as obras do Cimento Social, ele respondeu sem titubear: "O Lula. O presidente Lula."

Desde a Grécia Clássica se discute se os militares devem ou não atuar dentro das fronteiras do país que defendem. Em A República, Platão sustenta que não, sob pena de comprometer a própria existência do Estado. Na Roma Antiga, os generais evitavam entrar na cidade com suas tropas. Acampavam além do Rubicão, um riacho fora dos muros, como um ato de respeito ao Senado e à polis, que tinha sua organização e dinâmica próprias. Quando em 49 a.C, o general Júlio César resolve violar o entendimento tácito, o resultado é conhecido: a República se transforma em Império, e o cidadão romano é alijado do poder.

Em países como os Estados Unidos, as Forças Armadas costumam ser mantidas à distância dos assuntos internos. Em setembro de 2006, quando o então presidente George W. Bush quis enviar tropas militares a uma Nova Orleans destruída pelo furacão Katrina, precisou de uma manobra política para convencer os congressistas a alterar uma lei que datava do século xix. Desde então, o Exército tem autorização para atuar dentro das fronteiras nacionais em situações de emergência decorrentes de desastres naturais, epidemias ou ataques terroristas. E só.

Pela Constituição brasileira, se o país não estiver em guerra ou vivendo sob estado de sítio ou de defesa, Exército, Marinha e Aeronáutica podem ser requisitados para agir nas questões de segurança pública mediante a assinatura de um decreto presidencial, mas somente se os órgãos responsáveis pela ordem - as polícias federais, civis, militares e os Corpos de Bombeiros militares estiverem "indisponíveis, inexistentes ou insuficientes".

No livro O Uso Político das Forças Armadas e Outras Questões Militares, o coordenador do Centro de Estudos de Direito Militar, o promotor militar João Arruda, mostra que, entre 1994 e 2004, o Exército atuou em operações que descaracterizam sua função, como a destruição de plantações de maconha ou a expulsão dos sem-terra da fazenda do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

"O que se tem observado nos últimos anos é a banalização do emprego das Forças Armadas para enfrentar problemas policiais (...) estão transformando os militares em uma versão atualizada de capitães do mato."

Durante o governo Lula, foi criada a Força Nacional de Segurança Pública, constituída por policiais militares e federais. Um dos objetivos era estabelecer uma força que substituísse o Exército nas tarefas cada vez mais constantes a que era chamado a participar. Entretanto, em dezembro de 2007, quando se decidiu que a manutenção da ordem nas obras do Cimento Social ficaria a cargo do Exército, a opção não foi sequer cogitada.

Na ocasião em que os militares ocuparam a Providência, não existia qualquer decreto ou solicitação formal assinada pelo presidente Lula. Na melhor das hipóteses, havia uma autorização verbal. O Congresso tampouco fora informado. E as polícias do Rio não tinham decretado falência nem tinham sido declaradas incapazes. Mesmo assim, as tropas começaram a agir. O acordo de cooperação interministerial que validaria a operação só seria assinado quase dois meses depois.

À época do assassinato dos jovens, o Centro de Comunicação Social do Exército emitiu notas sucessivas à imprensa alegando que a presença das tropas se enquadrava nos preceitos de uma "ação subsidiária". É a expressão usada quando soldados ajudam nas campanhas de vacinação e em dias de eleição.

No início de maio, o general Luiz Cesário da Silveira Filho, número 1 do Comando Militar do Leste à época das obras do Cimento Social, participava de um evento promovido pelo oficialato carioca. Entre apertos de mão, lembrou-se de quando foi avisado por telefone pelo comandante geral do Exército, Enzo Peri, que o senador Crivella o procuraria para tratar do projeto da Providência.

"Ele me pediu que o recebesse bem e assim o fiz", disse. "Mas, quando o senador me contou seus planos, avisei: lá tem drogas e o Exército não convive com o ilícito." Segundo o general Cesário, o político pareceu não se importar com o aviso e insistiu que era possível fazer a obra sem nenhum tiro se a associação de moradores fosse envolvida na empreitada. "Na hora, sugeri que ele voltasse à Brasília", lembrou o militar.

Nos meses que se seguiram, o general produziu alguns informes sobre o risco de uma operação militar no morro da Providência. Ele sabia que, pela posição geográfica e pelos altos índices de criminalidade na área, a operação acabaria tomando contornos de ocupação militar. Mesmo assim, recebeu ordens superiores para tocar a missão.

Nove dias depois do crime, o presidente Lula se encontrou com a avó e as duas mães dos rapazes e prometeu indenizar as famílias rapidamente. Na semana seguinte, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, anunciou a possibilidade de a União conceder uma pensão vitalícia no valor de um salário mínimo às vítimas. O valor foi considerado risível pelas famílias, que mantiveram uma ação indenizatória contra o Estado correndo na Justiça. No Superior Tribunal de Justiça, a praxe tem sido decretar indenizações de cerca de 500 salários mínimos em casos semelhantes.

Nos dois anos que se seguiram, no entanto, só foram cumpridos dois de cinco mandados de prisão emitidos contra criminosos do morro da Mineira. O governador Sérgio Cabral chegou a justificar a morosidade da polícia, alegando que os policiais não "faziam mágica".

Em agosto de 2008, a Justiça Federal determinou que a União pagasse um salário mínimo às famílias de David e de Wellington - como Marcos Paulo nunca foi formalmente adotado, sua mãe de criação foi excluída - como antecipação de tutela, figura jurídica que antecede a sentença. Em abril, ciente de que os familiares ainda não haviam recebido nada, o juiz solicitou comprovação do cumprimento de sua determinação. Até o mês passado, não recebera resposta.

Pouco antes, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio embargou as obras do Cimento Social por suspeita de viés eleitoreiro em favor do senador Marcelo Crivella. Até aquele dia, o 194º da operação, só trinta das 782 casas prometidas haviam sido reformadas.

Crivella disse ter tirado 800 mil reais do próprio bolso para concluir parte das obras abandonadas. Segundo ele, o projeto chegou à marca de 100 residências renovadas. Quem visita o morro, no entanto, tem dificuldade em apontar mais de vinte.

O senador também comprou um terreno na parte baixa da Providência e contratou operários para, em três dias, construir um minicondomínio. No total, gastou 100 mil reais. Cercou o espaço com grades de ferro, ergueu três casas de dois pisos num terreno plano em forma de T e instalou um portão para carros numa viela estreita demais para a passagem de veículos.

A construção foi batizada de "Vila Zé Alencar e Dona Marisa". Ali, moram as famílias dos três jovens assassinados. A irmã de Wellington, Bárbara, riu quando perguntei se as paredes eram mesmo resistentes a tiros. Ela se levantou e apontou para o ar-condicionado. "Eu fiz esse buraco com a ajuda de uma faca de cozinha", disse. Com a ponta dos dedos, mostrou que a parede se esfarela ao toque.

Era final de tarde quando Fátima, que criou Marcos Paulo, comentou: "Gente, todo mundo se esqueceu de nós... Agora a única coisa que importa é essa tal de upp [Unidade de Polícia Pacificadora]." Olhando para três policiais que conversavam na esquina de sua casa, ponderou: "Eu só queria que me dissessem por que eu devo acreditar que essa polícia pacificadora aí vai dar certo..." Apesar dos fuzis e das pistolas, as upps são compostas por policiais militares que recebem treinamento específico e são amparados pela Constituição para atuar na garantia da segurança pública.

Há dois anos, o tenente Ghidetti está preso numa cela do 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca, Zona Norte do Rio. O primeiro ano serviu para ele cumprir a única sentença que já recebeu, no caso, da Justiça Militar - 365 dias de cadeia por insubordinação ao capitão Ferrari. O segundo ano tem sido de espera ao pronunciamento da Justiça Federal. Recentemente, soube que será julgado por triplo homicídio num tribunal do júri. A data ainda não foi marcada.

Ghidetti nunca deu entrevistas, mas enviou para esta reportagem uma carta na qual conta como foi a sua infância e adolescência. Numa folha de papel pautado, ele descreve, em letra de forma, a rotina de um jovem pobre, ambicioso e dedicado à vida militar. Em Nova Venécia, cidade do Espírito Santo onde foi criado, ex-professores falam dele como um menino de boas notas que queria ser astronauta.

Marcelo Crivella, candidato à reeleição para o Senado, está em primeiro lugar nas pesquisas, com 40% das intenções de voto. Mais uma vez, conta com o apoio do presidente Lula.

Fonte: Revista Piaui

A pedagogia da fofoca

Pouco antes do Carnaval, a carioca Roberta Escansette aproximou-se do balcão de atendimento da Biblioteca Nacional, no centro do Rio de Janeiro, e, equilibrando os óculos de aro fino na ponta do nariz, pediu: "Quero tudo sobre teatro grego." Em seguida, e para estupefação dos funcionários que a observavam, pediu mais: "Quero também todos os documentos sobre a história do rádio, das rádio novelas, das revistas brasileiras e da televisão." Passou então dias e dias no edifício neoclássico da Cinelândia. Estudou as origens do mito - de Ésquilo a Aristófanes -, descobriu que o ator Téspis é o mais antigo ancestral de Brad Pitt e saiu de lá com uma certeza inabalável: oitenta horas é tempo mais que suficiente para ensinar um homo sapiens a ser repórter de celebridade.

Com um lápis afiado na ponta dos dedos, a erudição acumulada no cérebro e o conteúdo teórico estalando as sinapses, Escansette se debruçou sobre seus dez anos de jornalismo de fofoca e, em instantes, voilà!, sistematizou os vinte mandamentos da reportagem de celebridade. O documento era um compêndio de tudo, absolutamente tudo que um indivíduo precisa saber para escrever com esmero e rigor sobre temas como o décimo quinto casamento de Bruno Gagliasso ou as vicissitudes da última namorada esbofeteada de Dado Dolabella. Quando chegou ao fim da lista, comemorou. Nascia ali a ementa do primeiro curso de extensão sobre jornalismo de celebridade da história deste país.

Sentada numa lanchonete de um shopping do Rio, a morena de 28 anos que circula pela noite carioca como frila da revista Caras defendeu sua iniciativa como quem defende religião: "Estou cansada desse preconceito com o repórter de celebridade. É uma profissão honrada, que paga as contas. Descobri uma oportunidade, e a Facha resolveu investir num nicho de mercado que merece atenção." Por Facha, leia-se Faculdades Integradas Hélio Alonso, uma universidade com dois campi no Rio. Como o -Supremo Tribunal Federal determinou, em 2009, que diploma não faz falta em redação nenhuma - que dirá, então, certificado de curso de extensão -, Escansette sabe que a briga é ladeira acima. Mas a moça está confiante. No sábado, dia 10 de abril, às 8h30, ela estará a postos, de giz em punho, para receber quem estiver disposto a desembolsar 2.250 reais por 80 horas de expertise em notoriedade.

Enquanto esperava uma Coca-Cola que nunca chegaria, ela topou revelar alguns dos tópicos que abordará em sala de aula. Antes, porém, esclareceu que seu currículo é sólido. Se estava ali, era tão-somente porque havia sido setorista - o repórter que cobre um único assunto - de Giovana Antonelli, Vera Fischer, Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos, o cantor. "Eles me ensinaram tudo!", disse com sentimento.

O mandamento supremo é este: "Na agenda do jornalista de celebridade tem que constar o telefone dos famosos e também dos assessores deles - maquiadores, cabeleireiros, assistentes de produção, figurinistas etc." Ela explica: "Esse pessoal do segundo escalão é valioso. Eles costumam ser humilhados, maltratados, e aí descontam passando informação sobre as celebrities ou sobre a agenda delas. Importantíssimo cultivar esse vínculo."

O segundo mandamento é um no, nein, non: "O repórter de celebridade não tem direito à tietagem." O deslumbramento seria o atalho mais curto para o desmanche da isenção e da objetividade, princípios que Escansette preza muito. "Tirar foto com o famoso que acabou de ser entrevistado acaba com a credibilidade de qualquer pessoa", adverte. É preciso rigor. "Gente assim deve ficar longe da redação. Melhor se ater aos fã-clubes."

O terceiro e o quarto mandamentos inserem-se no campo da hermenêutica. Mais especificamente, vinculam-se às reflexões de Escansette sobre o estatuto da negação e do silêncio: "Um famoso nunca-jamais-never admite de cara que está se separando. Melhor abrir a conversa com um papo leve [lição número 3] e mostrar que você fez uma pré-apuração consolidada [lição 4] antes de entrar de sola. Se tiver foto dele[a] beijando outro[a], melhor." Os futuros repórteres de celebridade também aprenderão que o silêncio e a verborragia agressiva são igualmente eloquentes: "O silêncio mostra onde o jornalista tem de fuçar, e, quando a celebridade fica arisca, é porque ela deve. Aí é só apurar direitinho..."

Ao longo de sua carreira, Roberta Escansette já deu furos que só por puro despeito não entraram para os anais do jornalismo nacional. Foi ela quem descobriu a amante de Marcelo Silva quando ele ainda estava com Susana Vieira. Foi ela quem contou para o Brasil que Giovana Antonelli estava de malas prontas para morar em Nova York, levando consigo o filho Pietro, fruto do casamento com Murilo Benício. E também foi ela - como não? - a primeira a falar sobre a intrigante gravidez de Daniela Cicarelli.

É do alto desse currículo que Escansette tira legitimidade para tratar de assuntos espinhosos. Perseguição de famosos, por exemplo: "1) Não use o mesmo carro todos os dias; 2) não grude um carro no outro porque pode haver um acidente; 3) decore as placas dos famosos quando eles ainda estiverem na festa; 4) ande sempre com vidros recobertos por insulfilm; e 5) só se aproxime com uma pergunta depois de ter feito a foto."

Com esses saberes, Escansette garante seu ganha-pão desde o segundo semestre da faculdade. Como frila, ela consegue cerca de 200 reais por noite, o que rende uns 5 mil reais por mês. E ela ainda se diverte. Na noite anterior, havia entrevistado Caio Blat, que considerou "uma gracinha".

Mas e quando o famoso se chateia? "Mande flores!", responde rápido. "E um cartãozinho de próprio punho dizendo algo como 'Fulano, entenda a nossa -posição. Trabalhamos com a verdade. Agradecemos a compreensão. Desde já contamos com a parceria.'" Quando Escansette publicou que Susana Vieira estava sendo trocada pela proto-célebre Fernanda Cunha, por exemplo, ela enviou um buquê à atriz, acompanhado de um cartãozinho assim: "Nós estamos do seu lado. Queremos a sua felicidade." (A reportagem não conseguiu falar com a atriz para saber se as flores saíram voando pela janela.)

Até a última semana de março, havia oito inscritos no curso de extensão de jornalismo de celebridade, -metade do quórum mínimo para a formação da turma.

Fonte: Piaui

O poder da intuição

Veja como aquele palpite pode ser útil na hora de tomar uma decisão na vida. Aprenda a utilizar a intuição a seu favor — você vai se surpreender

texto Rafael Tonon fotos Nati Canto design Adriana C. Wolff

Pensamos, logo existimos. Desculpe- me, leitor, começar este texto assim, com um clichê já tão propagado da filosofia – e com a licença de ainda colocá-lo no plural, vá lá... Mas é difícil encontrar um argumento mais certeiro para definir a existência humana que nossa capacidade de pensar, não é mesmo? A verdade, entretanto, é que algo parece errado nesse raciocínio tão lógico. Errado, não. Talvez incompleto. Afinal, nós só nos tornamos efetivamente humanos na medida em que conseguimos combinar nossos pensamentos – e aí, vale incluir o que pensamos sobre os outros e o mundo ao nosso redor – com outras formas de conhecimento de que dispomos, como nossos sentimentos, nossas sensações e nossas intuições para percebermos o mundo que nos rodeia.

Às vezes, mesmo quando a razão tenta nos demover de uma ideia que parece logicamente infundada, nós vamos lá, damos a cara a bater. Teimamos e, vez por outra, ainda provamos que nossa própria razão estava redondamente enganada. Afinal, nossa consciência de mundo não dá conta de ser tão racional assim – ou de buscar racionalidade em tudo. Por isso, somos capazes de perceber muitas coisas sem que elas passem pelo crivo da razão. Os sentimentos estão aí para comprovar. Quem nunca se apaixonou a ponto de perder as estribeiras da lógica?

Outra forma de conhecimento não respaldada pela razão está na intuição, que vem do latim intueri e significa considerar, ver anteriormente. Sabe quando você tem a certeza de alguma coisa, mas não sabe explicar por que ou de onde ela veio? Pois então, isso é uma manifestação dessa nossa intuição, uma capacidade de conhecimento que eu e você temos, mas que nem sempre valorizamos, é verdade. Porém, está na hora de reavaliarmos nossa forma de tomarmos consciência sobre as coisas: os pressentimentos podem nos levar a tomar decisões melhores que as deliberações racionais. Para compreender, não basta pensar. É preciso sentir e, principalmente, intuir.

A razão tem razão? 

  Não é difícil entender por que muita gente ainda torce o nariz para a intuição. Hoje o modelo de conhecimento que temos no mundo moderno ocidental ainda é muito embasado pelo pensamento racional e lógico. “É algo que herdamos dos gregos há mais de 2 mil anos”, afirma o psicoterapeuta e filósofo Ari Rehfeld. Uma frase do tipo “eu acredito que seja assim por pura intuição” dificilmente vai convencer um amigo ou um chefe. Por sabermos disso, tratamos de sabotar internamente nossos sinais particulares, não dando a devida atenção a eles. O pior é que desperdiçamos, assim, uma poderosa ferramenta para tomarmos decisões muito melhores.

A intuição é uma aptidão que todos nós temos, mas que precisa ser desenvolvida – assim como a própria capacidade de pensar. É aquela percepção ou decisão que aparentemente não tem uma explicação lógica e que até contraria o senso comum, mas que no fim das contas faz todo o sentido. Ela funciona como um guia interno, que se manifesta através de um conhecimento não-linear. “Por isso a intuição aparece através de sensações inexplicáveis, insights, sonhos, ou de uma voz interna que parece dizer ‘sim, isso está certo’ ou ‘isso não vai funcionar’”, diz a psiquiatra americana Judith Orloff, autora do livro Second Sight (“Outro olhar”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil). É difícil explicar a intuição porque ela é como um lampejo, uma resposta imediata que nossos neurônios constroem diante uma situação. “Um pressentimento sempre nos inquieta porque não sabemos de onde ele surgiu, ele não vem a partir de um raciocínio consciente, mas de um lugar desconhecido da nossa mente”, escreve Judith.

A lógica e os modos conscientes de pensamento monopolizaram nossa forma de compreender o mundo. Mas, no entanto, a lógica é apenas umas das muitas ferramentas úteis de que a mente pode se valer. “Até porque há informações e percepções que vão direto para o inconsciente, sem passar pelo filtro do nosso consciente”, complementa Rehfeld. Filósofos como Platão já valorizaram a intuição como um ponto de partida para suas ideias. As sacadas surgiam intuitivamente e, depois, eles tratavam de colocá-las à prova sob a luz do racionalismo. “Mas hoje vivemos num mundo em que não temos tempo de parar e intuir. Estamos condenados ao ritmo do pensamento racional”, diz o psicoterapeuta.

Menos é mais  
Em plena era da informação, sofremos mesmo do mal do “pensar demais”. Tanto que, de muito raciocinar, sobrecarregamos toda a capacidade de atenção do cérebro, comprometendo a saúde da mente. Como resultado, acabamos entregues à depressão e à ansiedade. Pensar demais e saber demais podem se transformar em um problema. Durante uma viagem à Itália, a musicista Abbie Conant foi convidada a fazer um teste para a Filarmônica de Munique. Os 33 candidatos tiveram que tocar atrás de uma tela, que os tornava invisíveis ao comitê de seleção. Conant se concentrou para fazer uma apresentação perfeita, mas errou uma nota. Ela pensou que seria desclassificada. Mas todos do comitê estavam estarrecidos com o que tinham ouvido. O diretor da Filarmônica ficou tão excitado que despachou de volta os candidatos que ainda não tinham se apresentado.

Mas, quando chamaram Conant, ficaram surpresos – e decepcionados – por ela ser mulher. Mulher e trombone não combinavam para o diretor da Filarmônica. E, apesar de ter vencido todas as rodadas de audições, ela entrou para a orquestra contra a vontade do diretor que, um ano depois, a rebaixou para segundo trombone. Conant ficou tão indignada que levou o caso para os tribunais. Como provas, fez uma batelada de exames: soprou em máquinas especiais e teve até seu sangue examinado para comprovar sua capacidade de absorção de oxigênio. Todos os resultados foram acima da média. Só depois de oito anos, por determinação da justiça, é que ela foi reintegrada à posição de primeiro trombone.

A história é contada no livro Blink – A Decisão num Piscar de Olhos, do jornalista americano Malcolm Gladwell, e mostra que, se tivessem levado em consideração apenas a primeira impressão da audição de Conant, os membros da Filarmônica teriam uma grande artista como primeiro trombone desde o começo. “Mas, por acharem que ela poderia ser frágil para um instrumento tão masculino, resolveram dar crédito ao pensamento racional, que indica que as mulheres são menos aptas a instrumentos que exigem maior fôlego, e não ao que tinham ouvido”, escreve o jornalista. Isso também acontece com muitos de nós. O ato de pensar objetivamente nas razões pode levar a decisões que nos deixam menos satisfeitos. Analisar todos os lados da questão pode não ser uma boa tática.

A mente intuitiva  
A questão é que nem que nos esforcemos muito podemos tomar todas as decisões da nossa vida sob o crivo da razão. Nossa mente trabalha melhor relegando ao inconsciente uma boa parcela do pensamento racional – ela não daria conta de tudo, se não usasse esse artifício. Por causa disso, a própria evolução dotou nossa mente da capacidade de reagir antes mesmo de pensar quando estamos diante de uma situação de risco – a intuição é, portanto, uma aptidão evolutiva. “O instinto que nos faz hoje optar por algo que conhecemos equivale ao instinto de sobrevivência no mundo selvagem. Podemos escolher uma refeição com ovos verdes, mas você não escolheria uma opção menos exótica, se pudesse?”, questiona o professor de Psicologia da Universidade de Chicago, Gerd Gigerenzer, no livro O Poder da Intuição. “Quando optamos por alimentos que conhecemos, obtemos as calorias necessárias sem perder tempo de arriscar a sorte para saber se a refeição exótica é tóxica.”

Antes mesmo que você considere o ovo colorido, sua mente já mandou um recado que é melhor comer o velho ovo com clara branca e gema amarela. A intuição permite à nossa mente colocar alguns comportamentos e decisões em piloto automático. “Pensar toda vez em como se anda de bicicleta ou como se deve sorrir nem sempre é melhor do que fazer ambas as coisas de forma automática. As partes inconscientes da mente são capazes de decidir sem que nós – ou o eu consciente – conheçamos as razões”, afirma Gigerenzer.

Somos capazes de fazer uma viagem inteira dirigindo por uma estrada com buracos e condições adversas sem sequer racionalizar uma parte do trajeto sequer. Mas isso só foi possível depois de a mente ter adquirido conhecimento suficiente para poder relegar ao inconsciente a tarefa de conduzir a direção. O mesmo ocorre com nossa intuição. Afinal, nós só temos intuições a partir de experiências, de informações e do conhecimento que obtivemos, voluntariamente ou não. “Na verdade, a natureza dá ao ser humano um potencial, e a prática ao longo do tempo se transforma numa capacidade.” A mente intuitiva se adapta e age com economia valendo-se do inconsciente, das aptidões evolutivas e dos métodos empíricos que desenvolvemos no decorrer da nossa vida. Eles consistem em procurarmos nos ater à informação mais relevante e ignorar o resto. Na maior parte das vezes, os pressentimentos se baseiam num volume surpreendentemente pequeno de informações.
Como no caso de uma proposta de emprego em que o salário é ótimo, mas, segundo aquela sua amiga, o chefe do departamento é um grosso e o clima organizacional, bastante tumultuado. Empiricamente, a única informação que você pode comprovar é que o salário oferecido é o triplo do que você ganha. A relação pessoal da sua amiga com o chefe e a equipe pode ser relativa – ou um problema só dela. Vai de você confiar na informação de que dispõe ou levar em consideração tudo o que ouviu. Por isso, a intuição tem a ver com palpites, com os riscos que corremos e que só a vivência e a experiência vão nos mostrar se acertamos ou não.

Atenção aos sinais  
As pessoas que resolvem seguir sua intuição e se dão bem passam a dar mais valor aos avisos e sinais que o inconsciente lhes dá. A cantora Tiê sempre foi de dar ouvidos aos seus pressentimentos. “Se eu cismo com uma coisa que acho que pode não ser legal, não faço. E é muito difícil alguém me convencer do contrário”, diz. Ela já se negou a participar de shows simplesmente por achar que não valeriam a pena – ao mesmo tempo que aceitou fazer outros em lugares aparentemente nem tão legais mas que sua intuição dizia ser a melhor escolha. “E é engraçado que meus palpites sempre se comprovam.” Tiê também usa sua intuição na hora de criar e compor. Dá mais valor às ideias que surgem espontaneamente e dificilmente fica pensando e alterando notas e palavras depois. “Dos cinco sentidos, acho que o olfato é o que eu tenho mais apurado, por isso costumo brincar que a intuição é o olfato da mente, porque nos permite farejar de longe as coisas. Dificilmente a gente se engana com um cheiro, né?”

Intuir, na verdade, significa utilizar um outro sentido de que dispomos além da visão, da audição, do olfato, do paladar e do tato. É mesmo como um “sexto sentido” colocado à nossa disposição e que nos ajuda a melhorar nossa relação com o mundo e facilitar nossa vida. E da mesma forma que, quanto mais nós ouvimos, melhor reconhecemos um ruído, quanto mais usamos a intuição, melhor conseguimos aproveitar os pressentimentos. A intuição melhora com a experiência sem que a gente se dê conta. Um ótimo executivo é capaz de prever se um produto vai ter sucesso de mercado mesmo que as pesquisas que sua empresa encomendou indiquem que não – e que não consiga explicar logicamente seus argumentos. Isso porque, em anos de carreira, teve experiências suficientes para conhecer o mercado e armazenar registros inconscientes. Claro que não significa que ele tenha poderes sobrenaturais, mas que aprendeu a perceber os sinais que sua mente dá mesmo quando as coisas não pareçam ter lá muita lógica.

Isso só é possível através do conhecimento que temos – do mundo que nos cerca e de nós mesmos. É o autoconhecimento, aliás, que nos permite reconhecer os pressentimentos que a nossa mente tem. Porque é fácil confundir intuição com desejo e com medo. Se estamos em um relacionamento que nos faz mal, por exemplo, é fácil intuir que precisamos buscar uma nova forma de ser feliz. Mas isso diz respeito a um desejo interno, que nem sempre é tão claro e que, por causa disso, pode ser erroneamente interpretado como intuição. “Uma pessoa que tem a sensação estranha de que seu avião pode cair precisa ponderar se não se trata de um medo que ela mesma tem de voar. Porque a mente de um fóbico tende a projetar todos os riscos relacionados a um medo”, diz a psicóloga Virgínia Marchini, diretora do Centro de Desenvolvimento do Potencial Intuitivo, em São Paulo.

Se estivermos realmente atentos aos sinais do inconsciente, defende Virgínia, aumentamos nossa capacidade de usar nossa intuição e de decidir acertadamente. Para que isso ocorra, precisamos estar com a mente mais tranquila possível – afinal, quanto maior nosso nível de estresse e de ansiedade, menor a acuidade dos nossos sentidos. “Nervosos e agitados, somos menos propensos a sentir gostos, diferenciar cheiros e, consequentemente, perceber pressentimentos”, diz. A intuição depende de um estado mental de relaxamento. As pesquisas indicam que, nesse estado, a mente intuitiva não precisa de mais de dois segundos para que seja capaz de tomar decisões.

Confiar (e agir)  
Desenvolver a intuição significa adotar uma postura mais reflexiva e trabalhar a autoconfiança. Apostar naquilo que você percebe e sente. Dedicar-se um tempo ao silêncio e ao recolhimento ajuda. Registrar e interpretar sonhos e impressões, também, porque essas práticas facilitam o acesso ao mundo interno, assim como ler, conhecer, assistir, viajar. Outros sinais aparecem em nosso próprio corpo, não apenas na mente. Sintomas físicos como insônia e agitação podem indicar desconforto com uma situação ou decisão que se esteja pensando em tomar. “Cada um de nós tem a sabedoria e o conhecimento de que necessita em seu próprio interior”, escreveu o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, um defensor da intuição. Precisamos só estar abertos a identificá-los, já que, afinal, tendemos a viver tão melhor à medida que percebemos o que nos rodeia.

Intuir, portanto, é enxergar melhor o mundo olhando para dentro de nós mesmos. Por isso é preciso confiar nas nossas próprias intuições. De nada adianta abrir uma comunicação com o inconsciente se esse conhecimento não impulsionar ações. “A intuição é vivencial, precisa ser praticada”, diz a psicóloga Virgínia. Assim como precisamos experimentar relacionamentos para quebrar a cara ou colocar a mão no fogo para perceber que ele queima. E viver é mesmo correr riscos, fazer apostas. E, para isso, nem sempre basta apenas pensar.

Livros  
Blink, Malcolm Gladwell, Rocco O Poder da Intuição, Gerd Gigerenzer, Best Seller Sway – The Irresistible Pull of Irracional Behaviour, Ori e Rom Brafman, Broadway Books

Fonte: vidasimples

Mais prática do que discurso

por José Serra e José Roberto Afonso
Artigo publicado no jornal Valor Econômico, em 04/05/2010

Lei de Responsabilidade Fiscal completa dez anos de bons serviços, 
mas é possível avançar mais

"Prática ao invés de promessa" foi o título do artigo que assinamos no dia em que foi aprovada a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o único na mídia nacional e publicado na terceira edição do Valor. Tempos do grande jornalista econômico Celso Pinto, que deu forma ao jornal. Poucos acreditavam que, dez anos depois, estaríamos comemorando o sucesso da LRF como um divisor de águas nas finanças públicas brasileiras e internacionalmente reconhecida por sua abrangência e resultados.

Hoje aproveitamos a oportunidade do décimo aniversário da lei para falar do seu passado e opinar sobre o futuro da responsabilidade fiscal em nosso país. Sobre o presente, não faltarão avaliações positivas diante dos fatos e números incontestáveis, reconhecidos até pelos que votaram contra a lei e depois tentaram derrubá-la na Justiça.

A ideia da LRF surgiu durante a Assembleia Constituinte (1987/1988). Os autores deste artigo atuaram, respectivamente, como relator e assessor técnico da comissão que tratou de orçamento, tributação e finanças. Uma das inovações propostas pelo relator foi prever na Constituição um código de finanças públicas para reunir as normas gerais sobre receitas, gastos, dívida e patrimônio, a fim de lhes dar um fio condutor e garantir sua aplicação aos três níveis de governo. Não fosse o mandamento constitucional, a LRF, numa federação como a nossa, não se aplicaria a Estados e municípios. Este é um grande diferencial da LRF brasileira; em outros países, ela geralmente se restringe ao governo central.

O propósito de induzir um maior e mais sustentado equilíbrio nas contas públicas foi retomado dez anos depois, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso enviou ao Congresso um projeto de lei complementar coordenado pelo Ministério do Planejamento e Orçamento, sob comando de Martus Tavares. O projeto abria caminho para uma mudança estrutural destinada a substituir os ajustes fiscais até então baseados em sucessivos "pacotes" tributários de fim de ano e cortes indiscriminados do Orçamento, além das heranças fiscais malditas não raramente deixadas por um governo ao seu sucessor.

Muitos se surpreenderam com a boa acolhida à iniciativa. Afinal, ela ia na contramão da cultura política dominante até então, segundo a qual déficit era problema exclusivo do Executivo e austeridade fiscal, um assunto da "direita" - como se no Brasil o populismo fiscal não fosse patrimônio comum de todo o espectro político, incluído seus extremos. Bons tempos em matéria de seriedade fiscal...

Dentre outras alterações, os parlamentares definiram que a responsabilidade começa na arrecadação de tributos, tratando a renúncia de receita como um gasto, e se preocuparam com os vínculos entre a política fiscal e a monetária e cambial, exigindo prestações de contas periódicas e inovando ao proibir o Banco Central de emitir títulos por conta própria e fora do Orçamento. A propósito, a LRF detalhou o dispositivo constitucional, oriundo do nosso relatório na Constituinte, que proíbe o Banco Central de financiar o Tesouro, já sacramentando em lei (e complementar) o preceito que assegura à autoridade monetária condições de atuar sem pressões diretas do governo.

O enfoque adotado pela LRF em relação ao federalismo também merece destaque pois permitiu que, após mais de um século de República, a federação brasileira atingisse finalmente sua maioridade fiscal. Os três níveis de governo, do federal à menor prefeitura do país, são iguais perante a lei, sujeitos às mesmas normas, limites e condições. A União não pôde mais assumir dívida que foi contraída por um Estado ou um município - agora cada um tem que cuidar muito bem de suas contas, porque somente seus moradores são premiados ou punidos pelos acertos ou erros de seus administradores e legisladores. Lembramos que a LRF foi editada tão logo completada mais uma rodada de renegociação de dívidas de Estados e municípios e assim fez um corte radical na antiga prática que transferia para os moradores do resto do país o ônus da má gestão de um ente federado.

Poucos sabem que o Brasil foi a primeira economia emergente a adotar uma lei desse tipo e, mesmo em relação aos países ricos, é a mais abrangente. Ela define princípios (à moda anglo-saxônica) e fixa limites e regras (à moda dos norte-americanos e latinos). As metas fiscais são móveis, com cláusulas de escape precisas e detalha mecanismos de correção de rota em caso de eventual ultrapassagem dos seus limites. Mesmo privilegiando a prudência, são previstas sanções amplas e duras, tanto institucionais quanto pessoais. Em termos de transparência, não há outro país que divulgue a evolução das contas públicas tão rápida e detalhadamente, ainda mais se tratando de uma federação com milhares de unidades de governo.

Mas é possível avançar ainda mais. Dez anos depois, é natural que a LRF enfrente novos desafios. É urgente completar sua regulamentação. Também cabe aperfeiçoar e ampliar seu alcance.

O governo anterior enviou propostas ao Congresso poucos meses depois de editada a lei e que, até hoje não foram votadas. Falta instalar o conselho de gestão fiscal, concebido como uma instância representativa (com integrantes das diferentes esferas de governo e também poderes) que pode contribuir para padronizar relatórios e interpretações. Ainda perdura a ausência de limites para a dívida federal, consolidada e mobiliária, cuja fixação cabe à resolução do Senado e à lei ordinária, respectivamente, por mandamento constitucional. Só foram estabelecidos limites, e bem rígidos, para Estados e municípios.

A responsabilidade federativa precisa ser plena. O governo federal permaneceu em certa medida à margem da LRF, num falso paraíso, à custa de saltos da carga tributária, enquanto os governos estaduais e municipais apresentaram um desempenho espetacular: elevaram o superávit primário, reduziram a dívida e ainda empreenderam um maior esforço relativo de investimento. Nada justifica que governadores e prefeitos fiquem expostos aos rigores da lei, caso se endividem em excesso, e o presidente da República passe imune. Também não há por que fugir de divulgar claramente e discutir quanto custam para os cofres públicos as ações na área de crédito e de câmbio. Curiosamente, esses alertas, cada vez mais frequentes, ainda não produziram nenhum efeito prático. Como sempre nesta matéria impera a máxima: austeridade é uma coisa boa... para os outros praticarem.

A responsabilidade orçamentária continua sendo uma frente de batalha aberta. É preciso reformar a lei geral dos orçamentos, que data de 1964. A lei de diretrizes (LDO) e a do plano plurianual (PPA), outras inovações da nossa comissão na Constituinte, nunca foram regulamentadas nacionalmente. A definição da receita nos orçamentos precisa ser mais transparente para evitar a criação de espuma em vez de arrecadação efetiva. A grande maioria das emendas parlamentares traduz pleitos pertinentes de diferentes Estados e municípios, mas precisam ser formuladas com mais rigor técnico e econômico e liberadas sem discricionariedade política. Para garantir a credibilidade da contabilidade pública, é preciso antes de tudo acabar com truques como o cancelamento de empenhos de despesas essenciais no fim do mandato, o que impõe ao governo sucessor um orçamento desequilibrado.

A responsabilidade na gestão pública exige uma nova postura em relação aos gastos, pois o novo cenário macroeconômico não permitirá seguir aumentando indefinidamente a carga tributária. Os governos, como as famílias, também precisam se guiar pelo princípio de fazer mais com os mesmos recursos. Isto implica fomento aos investimentos em modernização da gestão. Muito que já se avançou no lado da arrecadação (hoje quase todas as declarações de imposto de renda são entregues por meio digital), precisa ser estendido para o lado do gasto.

Os investimentos do setor público devem ser aumentados e remodelados para eliminar os gargalos da infraestrutura que florescem pelo Brasil afora. Caímos num desconfortável paradoxo: comparado a outros países, o Brasil é líder em carga tributária dentre os emergentes, campeão mundial de taxa de juros reais, e penúltimo colocado em matéria de taxa de investimentos governamentais.

Apesar das brechas e arranhões aqui e ali, do que falta completar e dos avanços possíveis, a responsabilidade fiscal virou mais do que uma lei em nosso país. Plantou a semente de uma nova cultura na administração pública. Não por acaso, a LRF made in Brazil é um sucesso admirado e estudado em outros países.

Tão relevante quanto a lei em si foi a mudança de mentalidade que a viabilizou. A LRF continua sendo aprovada pela opinião pública e mídia, e as tentativas de driblá-la têm recebido reprovação nacional. Apesar do vai e vem (agora estamos na fase do "vem"), se firmou no país a consciência da necessidade do equilíbrio macroeconômico. Isso aconteceu em grande parte graças à Lei da Responsabilidade Fiscal. Um pique-pique para ela.

José Serra e José Roberto Afonso são economistas, respectivamente, professor e doutorando da Unicamp

"O último samurai" e o golpe quase perfeito

Suemono-giri é o nome em japonês para “corte de objeto estacionário.” Esse nome é dado para um golpe perfeito executado com a espada, capaz de cortar qualquer objeto, seja um corpo humano, uma viga de madeira, uma coluna de pedra, etc.. Esse golpe é executado num só movimento, começando com a espada ainda embainhada, a qual é retirada de uma só vez, e desse gesto se segue sem descontinuidade o corte do alvo, pelo qual a lâmina passa sem se deter, como se houvesse cortado apenas o ar, ininterruptamente, sendo sustada ao final com pleno controle, como uma mera extensão do braço.


A concentração do espadachim antes do golpe; a energia contida prestes a explodir; o movimento rápido, certeiro, fatal; a perfeição da lâmina capaz de cortar qualquer objeto; a tempestade desencadeada em uma única rajada de vento, acompanhada de um grito; o retorno ao repouso como se nada houvesse existido; a alternância de movimento e repouso, tensão e distensão, máximo de mobilidade e de imobilidade, típicos da arte marcial japonesa; todo o ritual está permeado por uma elevada consciência estética. O golpe perfeito é uma obra de arte, assim como a vida de um samurai é uma performance que busca um ideal de beleza moral. Ética e estética estão fundidos na filosofia samurai, como em toda verdadeira ética e em toda verdadeira estética.


O golpe perfeito representa o estágio mais alto da técnica japonesa de uso da espada, distintivo dos grandes mestres dessa arte marcial. Por sua simplicidade e precisão, pelo nível de concentração, auto-controle e adestramento, representa a síntese da cultura militar japonesa e de seu projeto civilizatório, configurado na sociedade samurai.


O filme “O último samurai” é uma superprodução hollywoodiana protagonizada pelo mega-astro Tom Cruise, talhada para concorrer em várias categorias do Oscar, que pretende retratar o ocaso dessa sociedade samurai. O filme se baseia num episódio real, acontecido em 1877, em que o moderno exército japonês enfrentava a rebelião de guerreiros da Escola antiga que se recusavam a aderir aos métodos contemporâneos. O personagem de Tom Cruise, um oficial estadunidense contratado para trasmitir o “know how” militar ocidental aos “bárbaros”, foi inserido romanescamente na história. O curioso é que tal personagem acabou seduzido pelo modo de vida dos antigos guerreiros japoneses, justamente aqueles contra os quais fora contratado para combater.


O último samurai do título não é na verdade Nathan Algren, o personagem de Tom Cruise, mas sim Katsumoto Moritsugu (interpretado por Ken Watanabe, desde já meu favorito para o Oscar de coadjuvante). A publicidade do filme, naturalmente, apresenta Tom Cruise em primeiro plano, em pôsteres gigantes, como se ele fosse o samurai do título. Mais do que propaganda enganosa, trata-se de um erro conceitual. Nathan Algren não chega de fato a ser um samurai. Nem que ele quisesse, não poderia. Não porque é um estrangeiro, o que não constitui um obstáculo definitivo. O obstáculo é a própria estrutura da narrativa, a função que a história lhe reserva. Explicaremos esse detalhe mais adiante.


Katsumoto é o verdadeiro samurai do título. Ele é um nobre, senhor de uma província, equivalente a um senhor feudal do ocidente. Como nobre, ele está no topo da hierarquia social. Seus guerreiros e seu povo lhe devem obediência total, até a própria morte. Katsumoto, por sua vez, deve obediência ao Imperador, de quem é vassalo. O Imperador, na religião xintoísta, é um deus vivo, descendente da deusa do sol, criadora do mundo. Na época retratada pelo filme, o Imperador Meiji estava promovendo a modernização do país.


Meiji era na verdade um jovem fraco, sem personalidade, manipulado por ministros ambiciosos, entre os quais se sobressai um certo sr. Omura. Simultaneamente ministro e empresário, ele próprio tem interesses pessoais e empresariais na modernização do Japão. Dono de ferrovias e provavelmente de outros negócios a elas ligados, deseja ver o país inteiro unido e modernizado, pronto para entrar na disputa de mercados com as potências da época: Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos. A posse feudal da terra, estabelecida por laços de tradição e lealdade pessoal, deve ser substituída pela propriedade privada capitalista acessível pelo dinheiro. O uso de armas (espadas) por particulares deve ser suprimido em nome do monopólio do uso da força (fuzis) pelo Estado burguês.


Uma e outra tarefa da revolução burguesa no Japão pressupõem a remoção do nobre Katsumoto Moritsugu e sua fidelidade aos princípios morais da tradição. Para modernizar o país, Omura traz ao Japão especialistas de todos os ramos da atividade econômica moderna, de diversas nacionalidades. Algren se encaixa nesse plano como o especialista em técnicas militares modernas, com seu currículo de exterminador de tribos indígenas a serviço do exército estadunidense.


É contra Omura que Katsumoto se insurge, não contra o Imperador. De acordo com o código de ética dos samurais, o suserano é dono da vida de seus vassalos. Se o Imperador lhe ordenasse, Katsumoto cometeria o sepukku, o suicídio ritual, e o faria de bom grado. Ele admite isso várias vezes no filme e é preciso crer no que o samurai diz. Ele considera que sua rebelião está a serviço do Imperador e não contra ele. Contra o Imperador e contra o povo japonês estão na verdade Omura e seus sequazes corruptos. Se o Imperador não se dissuadir de seu engano, Katsumoto está disposto a dar a vida por isso. Ele está preso ao seu sentido de honra e segue seu dever até a morte. Sua tragédia contém um inescapável conteúdo de estupidez, conseqüência direta do absurdo inerente ao regime absolutista, pelo qual um homem de valor deve sua vida a um monarca que não passa de um fantoche inexpressivo.


Antes de prosseguir nos detalhes do filme, é preciso dar o cenário histórico da transformação da sociedade japonesa. As transformações que Katsumoto tenta deter para preservar a integridade do Império foram desencadeadas pelo próprio Imperador, há não mais do que uma década então. A contradição se aprofunda até se tornar irreconciliável. Trata-se de uma contradição inerente ao modo japonês de transição do feudalismo para o capitalismo. O Japão seguiu o mesmo esquema da Alemanha, que Lukács chamou de “via prussiana” para o capitalismo.


Na via prussiana a classe dos aristocratas feudais, proprietários de terra, os “junkers” alemães, que era simultaneamente a massa da oficialidade do exército, realizou de maneira autoritária a transição do feudalismo para o capitalismo, sem ceder o poder à burguesia e mantendo a classe trabalhadora sob o pesado tacão do Estado policial bismarckiano. Os junkers passaram diretamente de senhores feudais proprietários de terra para donos de empresas capitalistas. Não houve uma revolução burguesa na Alemanha. A burguesia alemã sempre foi débil e a democracia nunca criou raízes no país. Desse solo nasceria o nazismo.


O processo japonês seguiu o mesmo esquema, mas com pequenas diferenças. O Japão sempre teve uma mesma dinastia imperial, que se perpetuou em uma linha de sucessão direta desde seus ancestrais semilendários na pré-história até seu descendente no século XXI, o atual Imperador Akihito. Mas essa dinastia não esteve sempre no governo. No século XII o poder do Imperador foi ofuscado pela ditadura militar dos shoguns. A linhagem imperial não foi extinta, mas manteve apenas um poder formal, derivado de suas funções religiosas.


Desde o século XII as famílias tradicionais de senhores feudais guerreiros disputaram o cargo de shogun. A pacificação foi alcançada sob o shogunato Tokugawa, que se instalou em 1600. Tokugawa proibiu o intercâmbio com o exterior. Comerciantes e missionários estrangeiros foram banidos do Japão entre 1635 e 1853. Ao contrário do império chinês, que desmoronou sob o assédio das potências imperialistas ocidentais, o Japão se manteve unido. Foi na Era Tokugawa que se desenvolveu a sociedade samurai, com uma legislação formal e rigorosa sobre todos os aspectos da vida social. O país foi dividido em algumas centenas de províncias governadas por senhores feudais hereditários, cada um com seu pequeno exército de samurais, mas todos vassalos do poder central em Edo (Tóquio).


A sociedade foi dividida em castas hereditárias rígidas. Os guerreiros foram proibidos de trabalhar para seu sustento, os camponeses foram proibidos de usar armas. A nobreza militar separou-se como uma classe social superior, acima do clero, do campesinato e dos artesãos e comerciantes. O feudalismo japonês se cristalizou. A condição de samurai tornou-se hereditária. O privilégio de usar armas tornou-se seu dever e desenvolveu-se aí o Bushido, o “modo de vida do guerreiro”. Isso é bastante paradoxal, pois justamente quando acabaram as guerras civis, a função do guerreiro ganha uma formalização definitiva. Os guerreiros se tornam guerreiros no sentido pleno e simultaneamente se tornam inúteis. Muitos senhores feudais se revoltam contra o governo central, mas em vão. Isoladamente, não podem resistir ao shogunato e são exterminados.


Não é à toa que nesse período se desenvolve o culto do suicídio. Guerreiros se suicidam por lealdade a seus mestres, oprimidos pelo poder central. Monges se suicidam por sua fé. Amantes se suicidam por seu amor impossível, proibido pelas famílias, etc.. o sentido trágico da vida, o fatalismo e a coragem diante da morte se tornam valores permanentes da sociedade japonesa. A rigidez da Era Tokugawa manteve o Japão unido e permitiu um grande desenvolvimento de sua cultura. Os samurais, além da arte da espada, da qual se tornaram mestres inigualáveis, desenvolveram também a poesia, a pintura, a cerimônia do chá, etc.. O estudo e a arte, assim como a luta, também era seu privilégio e seu dever.


Mas essa situação era insustentável. A roda da História não parava de se mover no ocidente. Os países europeus passavam por uma revolução industrial e logo voltam a se expandir pelo mundo em busca de mercados. O mesmo aconteceu com os Estados Unidos. Em 1853 uma frota estadunidense ameaçou bombardear Tóquio caso o país não se abrisse para o comércio. A abertura que sobreveio foi um desastre para o Japão. No curto espaço de uma década, a economia feudal se desintegrou.


Na tentativa de remediar o desastre, a aristocracia japonesa promoveu um levante e derrubou o governo do último shogun Tokugawa, em 1868. O Imperador foi reinstalado no trono, no que foi chamado de Revolução Meiji. O pensamento dos autores dessa revolução era de que o Japão deveria se igualar em poder às potências ocidentais para não ser dominado por elas. O resultado dessa revolução seria a transformação das tradicionais famílias nobres em proprietários de grandes grupos empresariais, os zaibatsus. Honda, Toyota, Mazda, Mitsubishi, Matsushita, etc., são todos nomes de antigas famílias da aristocracia japonesa, que como os junkers alemães, se tornaram empresários modernos.


Katsumoto, o personagem de “O último samurai”, com seu tradicionalismo, foi pego no olho do furacão por essa transformação. Ao mesmo tempo que via no Imperador a salvação do país, contra a degradação que os estrangeiros trouxeram, ele não podia aceitar que os japoneses se rebaixassem a usar os mesmos métodos que os ocidentais, ou seja, armas de fogo. O problema prático é que qualquer guerra contra os estrangeiros somente poderia ser vencida com o uso de armas de fogo. Mas isso, para um samurai como Katsumoto, é apenas um detalhe. Como explicou Graham a Algren, a espada de um samurai é sua própria alma. Mais do que a degradação da técnica militar, o que revoltava Katsumoto era a degradação moral sob o capitalismo.


É nesse cenário que entra Nathan Algren. A trajetória deste personagem é praticamente idêntica à de John Dunbar, o protagonista de “Dança com lobos”. Tão idêntica que “O último samurai” pode até ser acusado de plágio. Mas ninguém acusou “Dança com lobos” de ser plágio de “Um homem chamado cavalo” e “Pequeno-grande homem”, dois “westerns” clássicos dos anos 70, portanto ficamos por isso mesmo. Assim como Dunbar, Algren é um oficial do exército estadunidense que se desilude com as promessas da carreira militar e decide experimentar uma vida diferente em outra forma de sociedade. As circunstâncias os levam a combater contra o exército estadunidense de onde saíram, pois compreendem que o modo de vida que adotaram, e que o exército estadunidense vem destruir, é mais humano do que a vida na sociedade burguesa.


Para cada personagem chave de “O último samurai”, há um equivalente no seu modelo “Dança com lobos”. Ambos os protagonistas, Algren e Dunbar, que correspondem um ao outro, estão cercados de uma série de figuras que também são correspondentes simétricos nas duas narrativas. Algren/Dunbar têm uma figura que funciona como guia nos estágios iniciais da viagem, na figura de Graham/Timons, um mestre na figura de Katsumoto/Pássaro esperneante, um rival que se torna amigo na figura de Ujio/Vento no cabelo, um garoto que o admira em Higen/Grande sorriso, um interesse romântico em Taka/De pé com punhos, um rival dentro do exército em Bagley/Spivey, um grupo de inimigos tribais nos ninjas/pawnees, etc..


O esquematismo desse modelo é evidente. Mas “O último samurai” é inferior na comparação com “Dança com lobos”. O início do filme é burocrático e apressado. A sociedade estadunidense de onde emerge Algren, na função de vendedor de armas, é explicitamente apresentada como degradada. O maniqueísmo explícito nunca é um bom começo para qualquer narrativa. Da mesma forma, a sociedade japonesa onde Algren se integra é um pastiche da estadunidense, um velho oeste em rápida mutação rumo ao capitalismo selvagem. Fica evidente que o exército de Omura e a passagem de Algren por ele são meros expedientes para que o protagonista encontre seu destino. O final do filme, por sua vez, é arrastado e também esquemático. Sobre os problemas do final, falaremos adiante.


O que interessa realmente é o miolo do filme, a viagem de Algren para a vila de Katsumoto e sua transformação em samurai. É essa viagem existencial que dá o pretexto para a observação que nos interessa. É lá que Algren encontra o alívio de sua consciência culpada pelo massacre de inocentes que perpetrou no passado. O processo de sua cura mental é quase uma psicanálise realizada por Katsumoto, que entretanto não se completa. O processo de psicanálise coincide com o processo de treinamento de Algren na arte da espada, trabalho do mestre Ujio. O ocidental aprende com Nobutada que deve abandonar suas preocupações, usar seus instintos, desapegar-se.


O problema inerente a um filme como este é que a filosofia samurai se dissolve numa mera técnica de relaxamento. Como se Tom Cruise tivesse resolvido ir a um “spa”. O filme serve como veículo para a busca de paz espiritual do astro, recém-saído de um casamento com Nicole Kidman. A ex- de Cruise já foi reconhecida como atriz competente e agraciada com um Oscar, prêmio que o astro ainda cobiça. “O último samurai” é sua mais nova tentativa de abocanhar o prêmio. A aposta é na sedução que o oriente exerce. Desde que os Beatles adotaram um guru indiano nos anos 1960, os astros da cultura pop ocidental tem buscado novidades milenares (sic) a serem exploradas: ora o Dalai Lama, ora Buda, ora o mosteiro Shao Lin; e agora o Japão.


Para esse fim Tom Cruise contratou dois gabaritados especialistas do ramo de filmes épicos, o diretor Edward Zwick, de “Lendas da paixão” e o roteirista John Logan, de “Gladiador”. Os dois são artesãos competentes. “O último samurai” é uma produção suntuosa e visualmente impecável. Estão lá as indefectíveis batalhas de samurais, no estilo de Akira Kurosawa. O seu problema neste particular é concorrer com “O Retorno do rei”. As batalhas em “O último samurai” são até mais selvagens, mas no geral perdem na comparação com o filme de Peter Jackson, que é disparado o favorito da temporada de épicos. Teremos ainda este ano “O mestre dos mares” e “Tróia”; e mais adiante, “Crusade”, de Ridley Scott e “Alexander”, de Oliver Stone. Quando Hollywood adere a uma moda, não brinca em serviço. Com a recente onda de filmes épicos, o sangue vai jorrar das telas.


A viagem turística de Tom Cruise/Algren pelo menos serve de pretexto para o que realmente interessa a este escriba, a exploração do modo de vida de uma vila japonesa tradicional. No país outrora governado pelos samurais, toda a sociedade era samurai. O ciclo da vida é encarado com extrema naturalidade e simplicidade. Os homens nascem, os homens morrem. A morte não é um problema para os orientais em geral, ao contrário do que é para os cristãos. Os ocidentais cristãos valorizam a vida, os japoneses valorizam a morte. Para os samurais, a morte é o próprio objetivo da vida. Vive-se para alcançar uma morte honrada.


A morte é tão mais honrada quanto tiver sido a vida. A vida deve ser dedicada à perfeição, em busca dessa morte honrada. Perfeição na luta, perfeição na arte, perfeição nos gestos, na fala, na conduta. Essa busca obsessiva e ascética pela perfeição se casa com o desapego. Não esqueçamos que no Japão a religião animista do xintoísmo combinou-se à filosofia budista, que prega exatamente o desapego como caminho para a felicidade. A harmonia dos camponeses com seu universo, com seu destino, sua natureza circundante, é quase utópica. É aí que está toda profundidade do filme, toda sua beleza e poesia. É por esta parte que o filme vale à pena ser visto, portanto não pretendo estragá-la com uma descrição detalhada.


Katsumoto, o líder dessa utopia, sabe que seu modo de vida está condenado. A contradição na qual sua ética o arremessa é na verdade irresolúvel. A integridade de seu modo de vida contrasta frontalmente com a indignidade da sociedade capitalista em que está se tornando o Japão. O contraste conceitual se transforma em confronto físico quando a cavalaria samurai arremete contra as metralhadoras do exército de Omura. Esse confronto físico exemplifica à perfeição o contraste entre dois tipos de sociedade, que cabe aos filósofos explicar. A favor das metralhadoras e canhões se coloca o filósofo alemão Hegel, quando diz que:


“ ‘O princípio do mundo moderno – o pensamento e o universal – deu à coragem uma forma superior, porque sua manifestação agora parece mais mecânica, não ato deste indivíduo particular, mas do membro de um conjunto. Além do mais, parece ter-se voltado não contra um único indivíduo, mas contra um grupo hostil, daí a bravura pessoal parecer impessoal. É por essa razão que o pensamento inventou o canhão, e a invenção desta arma, que transformou a forma da valentia exclusivamente pessoal em uma bravura mais abstrata, não é acidental’ ”.1


Ou seja, segundo o filósofo, o uso do canhão representa a forma mais elevada de coragem. Hegel é o representante ideológico máximo do Estado burguês. A ele cabe racionalizar as transformações que a sociedade capitalista traz a todos os aspectos da vida. Assim como o empresário industrial tirou ao trabalhador a posse dos seus meios de produção, o exército moderno tira ao guerreiro a posse de suas armas. Não mais samurais com espadas e sim soldados com fuzis. Tudo mais racional e moderno, conforme o espírito do mundo do capitalismo.


Mészaros desmistifica a absurda tentativa de Hegel de justificar o injustificável:

“O poder do capital de derrubar tudo – eliminando seu ancoradouro humano com a universalização da produção fetichista de mercadorias – é aqui espelhado na filosofia, virando de cabeça para baixo os valores humanos, em nome do ‘pensamento e do universal’.(...) Em última análise a lógica oculta da tendência atual do armamento moderno (...) não é a ‘bravura impessoal’, mas a destruição verdadeiramente impessoal de toda a humanidade: Holocausto e Hiroshima combinados em escala global.”2


Assim como o trabalho e a vida em geral, a arte da guerra também perde o sentido, quando é substituída pela indústria da destruição em massa. É por esse motivo que o estilo de vida samurai é humanamente superior ao militarismo moderno, apesar de ser uma forma militar arcaica. O Bushido envolve auto-aperfeiçoamento, cultura, ética, honra; o militarismo moderno consiste em apertar botões para destruir o inimigo á distância.


Em uma primeira análise, a cultura militar samurai não é melhor do que qualquer outro militarismo. Ou seja, uma cultura repressiva e reacionária, que muito facilmente se coloca a serviço da ordem estabelecida. Especialmente no caso dos samurais, o ofício militar se reveste de um orgulho aristocrático de classe. Esse orgulho elitista de uma casta ciosa de seus privilégios e seu poder de vida e morte sobre os plebeus dificilmente pode se tornar simpático. Isso só acontece quando os soldados, ao invés de oprimir seu povo, se colocam como defensores dos valores dessa sociedade, de sua cultura e sua honra, como Katsumoto. Para o samurai dedicado exclusivamente à arte da luta, a causa é na verdade irrelevante. O mais importante é o modo como se morre.


Para Katsumoto, um facínora como Custer, que massacrou os índios na conquista imperialista do oeste estadunidense, é tão heróico quanto Leônidas e seus trezentos homens, que nas Termópilas salvaram a Grécia da invasão persa. Deve-se perdoar Katsumoto por desconhecer a história estadunidense. Mas não se pode perdoar Algren, pois para ele Custer é um vilão apenas por ter levado seus soldados à morte e não pela causa em favor da qual lutava. Se é que se pode chamar o massacre dos nativos e o roubo de suas terras de causa. Do ponto de vista do soldado, porém, a causa é indiferente. O que importa é o heroísmo da luta. Por isso, para Katsumoto, Custer foi um herói. Mas isso não passa de um gracejo. Pois Custer era feito da mesma matéria de Bagley, o superior de Algren, que veio destruir os samurais.


O problema surge pois quando o próprio modo de vida samurai está em jogo. É esse o dilema do líder Katsumoto. Com o advento das armas de fogo, os samurais se tornam militarmente obsoletos. Contra a concorrência das metralhadoras, os samurais empreendem um ataque puramente ludita. A causa dos samurais somente se torna simpática porque, no caso presente, se coloca contra o avanço da degradação capitalista. Nem mesmo um filme estadunidense pode esconder isso. O seu sacrifício acaba sendo inútil e estúpido, mas sua mensagem ecoa até hoje.


O filme tenta transformar o significado dessa morte numa mensagem de superioridade moral, sem questionar o conteúdo das escolhas ideológicas de Katsumoto. Ademais, esse questionamento seria bastante problemático. O desenvolvimento posterior das relações EUA/Japão é embaraçoso, indo de Pearl Harbor a Hiroshima. O espectador sabe que o Japão moderno se tornou uma potência imperialista, entrando em guerra contra os próprios Estados Unidos de Algren. Assim, de certo modo, a mensagem de Katsumoto foi ouvida pelo Imperador, ainda que distorcida.


As espadas usadas pelos soldados do exército imperialista do Japão moderno ainda eram fabricadas de acordo com os métodos arcaicos da Era Tokugawa. O teste de qualidade das espadas japonesas era chamado de o-tameshi. O o-tameshi consiste num ritual em que se corta ao meio um cadáver humano deitado, com um golpe de espada, um golpe suemono-giri. As melhores espadas eram capazes de cortar dois ou três corpos empilhados, ou até cinco corpos. Consta que todas as espadas usadas pelo exército japonês na guerra russo-japonesa de 1904 passaram pelo teste o-tameshi cortando cinco corpos. Talvez isso explique porque o Império russo sofreu uma derrota tão acachapante, cuja crise subseqüente inclusive precipitou uma primeira tentativa fracassada de Revolução Russa em 1905. O exército imperialista japonês conservou muito da ética de sacrifício dos samurais. Dela deriva o impulso suicida dos “kamikaze”, os pilotos que arremessavam seus aviões carregados de explosivos sobre os navios estadunidenses nas batalhas da Segunda Guerra Mundial.


A causa de Katsumoto encontrou assim uma espécie de sobrevivência, mas não fica muito bem num filme feito para o público estadunidense se estender a respeito disso. Já é até ousadia demais mostrar o Imperador Meiji dizer ao embaixador estadunidense que seu tratado não interessa ao Japão. Dizer isso é bastante perigoso da parte de qualquer governante dos dias de hoje. Infelizmente, não há mais samurais à moda antiga para lembrar aos nossos governantes do dever de fazê-lo. O sacrifício de Katsumoto serviu pois para despertar o Imperador e subtrair o Japão da órbita do imperialismo estadunidense. Bom para o Japão, pior para os países que décadas depois foram vítimas do imperialismo japonês. No final das contas, o espírito de Omura, com seus interesses comerciais, acabou triunfando sobre a grandeza dos samurais. Os heróis morrem e submergimos todos no nível da mediocridade.


Esses desenvolvimentos no plano da História estão contidos em embrião no conflito dramático do cinema. Na impossibilidade de desenvolver concretamente as implicações ideológicas do conflito Omura/Katsumoto, o filme se contenta em apresentar um embate moral entre duas personalidades. Nessa restrição está a fraqueza do filme, a sua submissão aos cânones da narrativa cinematográfica estadunidense tradicional, com sua tendência para as conciliações que consolam o espectador.


Ao mostrar a morte de Katsumoto, “O último samurai” não se limita a uma mensagem puramente fatalista, ao estilo japonês, e insiste em conseguir a reabilitação moral póstuma do herói, ao estilo hollywoodiano. O público de cinema hollywoodiano está acostumado a ver o sacrifício do herói, como aconteceu por exemplo em “Matrix”, ou, para não fugir do mesmo registro épico, em “Coração Valente”. Mas o público aceita essas mortes porque é imediatamente consolado pela notícia de que o herói se saiu moralmente vencedor e sua causa de alguma forma triunfou, o que para a estética samurai é supérfluo. O esquema dramático de “O último samurai” permanece assim irremediavelmente cristão. Por isso não alcança a profundidade trágica dos verdadeiros filmes de samurai, como os de Akira Kurosawa.


A incompletude trágica do filme está expressa na falta de música japonesa tradicional na trilha sonora. A música em “O último samurai” não diz muito do espírito japonês, ao contrário do que acontece em “O tigre e o dragão”, por exemplo, cuja trilha sonora expressa musicalmente o espírito chinês. A música japonesa tradicional é triste, trágica, quase angustiante, mas sempre severa e serena, fatalista. A música ocidental usada em “O último samurai” não foge ao padrão hollywoodiano de violinos pesados e melosos, para induzir uma sensação forçada de triunfo, pois a estrutura narrativa do filme, com sua tentativa de produzir artificialmente um triunfo da causa do herói, assim o exige.


Nathan Algren se reduz a um portador da mensagem de Katsumoto. Por isso dissemos que ele não pode ser considerado um verdadeiro samurai. O destino do personagem não lhe concedeu essa honra. Por mais que Katsumoto tenha dito que o estadunidense recuperou sua honra na batalha, e que o próprio Algren tenha dito ao Imperador que se mataria, se ele assim o ordenasse, conforme manda a ética samurai; apesar disso fica no ar uma insatisfação com a sobrevivência de Algren. Para ser um verdadeiro samurai, deveria ter morrido no campo de batalha. Sobreviver é para os fracos. Mais do que sobreviver, o filme insinua que Algren voltou para a aldeia samurai, o que deve servir de consolação para aquela metade do público que foi ao cinema com interesses românticos.


Tom Cruise tentou o seu golpe perfeito, mas não conseguiu. Por um triz, por um pequeno detalhe, ele falhou. A fidelidade aos cânones da narrativa cinematográfica estadunidense tradicional o impede de ser um samurai de verdade, pois insiste em um final moralista como prêmio de consolação. O golpe perfeito deve ser dado com um só movimento, do desembainhar da espada à queda do objeto fendido. Sem hesitações, sem segunda tentativa, sem epílogo, sem consolação, sem remorso. “O último samurai”, por conta de suas hesitações, idas e vindas, finais duvidosos, não alcança essa perfeição. Não se trata de um verdadeiro suemono-giri.


Notas:


1. Istvan Mészaros, “Para além do capital”, Ed. Boitempo, SP 2002, pg. 186.

2. idem, pg 187.

Daniel M. Delfino

Suemono-giri é o nome em japonês para “corte de objeto estacionário.” Esse nome é dado para um golpe perfeito executado com a espada, capaz de cortar qualquer objeto, seja um corpo humano, uma viga de madeira, uma coluna de pedra, etc.. Esse golpe é executado num só movimento, começando com a espada ainda embainhada, a qual é retirada de uma só vez, e desse gesto se segue sem descontinuidade o corte do alvo, pelo qual a lâmina passa sem se deter, como se houvesse cortado apenas o ar, ininterruptamente, sendo sustada ao final com pleno controle, como uma mera extensão do braço.

Nome original: The last samurai

Produção: Estados Unidos

Ano: 2003

Idiomas: Inglês, Japonês, Francês

Diretor: Edward Zwick

Roteiro: John Logan Elenco: Ken Watanabe, Tom Cruise, William Atherton, Chad Lindberg, Ray Godschall Sr., Billy Conolly, Tony Goldwyn, Timothy Spall, John Koyama, Togo Igawa

Gênero: ação, aventura, drama, guerra

Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/

Bravo, maestro!

Ricardo Noblat

"Cada um de nós é responsável pelo que constrói". 
(Aécio Neves, ao rejeitar qualquer culpa pelo que acontecer com Serra)


Lula comanda sua sucessão como um virtuose da política. Impôs ao PT um candidato que ele jamais escolheria já pensou nisso? Meteu-se no processo de escolha do candidato do PSDB reforçando o nome de José Serra. Ao convencer Fernando Pimentel, do PT, a abdicar da disputa ao governo de Minas Gerais, agrada o PMDB e, de quebra, Aécio Neves.


Talento só não basta. Há que ter sorte. Isso vale para todo mundo. Lula teve muita sorte. Faça de conta que não houve o escândalo do mensalão quando rolou a cabeça de José Dirceu, o poderoso chefe da Casa Civil da presidência da República. Ali, uma cabeça de peso rolaria de qualquer forma para que Lula preservasse a dele.


E faça de conta também que não houve o escândalo da quebra do sigilo bancário de Francenildo da Costa, o caseiro da alegre mansão de Brasília freqüentada pelo ministro Antonio Palocci, da Fazenda. Francenildo disse ter visto Palocci na mansão uma dezena de vezes. Palocci negou. Fracenildo perdeu o sigilo e Palocci, o emprego.


A essa altura, Dirceu e Palocci estariam se pegando para ver quem seria o candidato do PT à sucessão de Lula. Dirceu tinha o controle do PT e interlocutores dentro de todos os partidos. A economia com Palocci fora muito bem e esse seria seu maior trunfo. Dizia-se na época que a dupla mandava mais no governo do que o próprio Lula.


Uma eventual vitória de Dirceu ou de Palocci nas eleições de outubro próximo não acabaria debitada exclusivamente na conta de Lula. A sombra de Lula não pesaria tanto sobre o governo de um ou do outro como pesará sobre um possível governo de Dilma. Ela é uma invenção de Lula Dirceu e Palocci, não.


Fernando Henrique Cardoso teve dois candidatos à sua vaga em 2002 José Serra, o oficial, e Lula, o "in pectore". Era fraternal amigo de ambos. Entregar a faixa presidencial ao primeiro ex-operário eleito garantiria melhor espaço para Fernando Henrique nos livros de História. Se Lula governasse mal, ele até pensaria em voltar.


Lula repetiu a fórmula de Fernando Henrique. Ganha com Dilma. Não perde com Serra. O PT recusou o convite de Itamar Franco para fazer parte do seu governo mas Lula não se recusou a indicar Serra para ministro da Fazenda. Itamar conversou com Serra duas vezes. Achou-o com mais pinta de presidente do que de ministro.


Antonio Carlos Magalhães ensinou que presidência da República é destino. Lula ajudou Serra a governar São Paulo abrindo-lhe os cofres da União, apressando o repasse de verbas, comprando-lhe por meio do Banco do Brasil a Nossa Caixa, atendendo, enfim, a maioria dos seus pedidos. Adversário não se trata assim.


Caso Serra seja eleito, Lula dormirá em paz. Sabe que ele não promoverá nenhuma devassa em seu governo. Nem caçará petistas pelo simples prazer de caçá-los. Serra foi o ministro do governo Fernando Henrique que mais se cercou de petistas. O ministério da Saúde abrigou muitos deles.


Na última terça-feira, em São Paulo, Lula garantiu que o próximo presidente, seja quem for, não estragará "o que já foi feito". A palavra dele: "Não acredito e não aceito mais a idéia imbecil que se falava no Brasil de que se ganhar fulano vai estragar tudo, se ganhar beltrano vai estragar tudo. Não existe essa hipótese".


A quem beneficia Lula ao renunciar ao "terrorismo eleitoral" usado contra ele em eleições passadas? A Serra, ora. Lula quis dizer: vença Dilma ou Serra, o que foi feito de bom nos últimos oito anos será preservado. Assim como ele preservou a política econômica de Fernando Henrique e seus programas sociais, expandindo-os.


Nenhum governador da oposição foi mais cúmplice de Lula do que Aécio, agora empenhado em ser sucedido por seu vice. Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte, poderia se eleger. Para selar o apoio do PMDB a Dilma, Lula apoiará Hélio Costa para governar Minas. Facilitou a vida de Aécio. Espera que Aécio facilite a vida de Dilma.

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