Por Márcio Florestan Berestinas
Jacinto das Dores jazia em seu leito mortuário com os enfeites e as parafernálias a que tinha direito. Havia deixado esta vida para integrar-se à eternidade abraçado pela madeira trabalhada industrialmente, exigência dessas ocasiões. Morador há longos anos na pacata Jaburu da Serra, situada na geografia sulina do país, cidade hospedeira de frio intenso, salpicado, em certos momentos, pela brancura da neve, no período mais agudo do inverno, sem oferecer resistência. Dominada em batalhas que se recusava a travar , recolhia-se “bravamente”. Todos tinham de acrescentar zero grau, sem exceção, a essa aritmética negativa das temperaturas. A valentia era aptidão para ser exercida em outras oportunidades mais favoráveis, como sói acontecer a consagrados valentões ... A incompreensão qualificando a fama e organizando o seu status, é preciso dizer, desprezadas as medidas do sistema métrico decimal...
As históricas batalhas de Napoleão Bonaparte, no frio da Rússia dos czares, tão bem articuladas pela literatura de Leon Tolstoi em “Guerra e Paz”, encontravam ressonância na comparação com esse ambiente. Do ponto de vista da economia, o PIB regional só não murchava acentuadamente, em razão do trabalho acumulado nas outras estações. A situação era para reforçar os agasalhos e “pegar duro” na ociosidade das lareiras. Um único setor prosperava tranquilamente: o de chás, doces e tortas, impulsionado pelo turismo, que os malucos de outras regiões alimentavam atraídos pelo fascínio que a neve exercia sobre as suas suntuosas indumentárias, prontas a travar a guerra contra o gelo. Vitrine apropriada ao sucesso social e econômico...
Cidade nascida do trabalho dos tropeiros desbravadores que faziam o trajeto de Viamão a Sorocaba. Pausa para descanso e refeições, tuteladas pela carne de sol. Preferência ou questão de ordem prática? Mal sabiam os comensais que essa iguaria iria gerar tantos entreveros e rixas com o vizinho Uruguai, operando como estopim da Guerra dos Farrapos e preparando o terreno para que Bento Gonçalves lançasse as bases para alcançar o Panteão dos Heróis e colher os benefícios da glória até hoje.
A História namorando a ficção. Algum impedimento legal nisso? Ou estético? O leitor tem todo o direito de julgar, desde que não seja alimentado pelas armas do preconceito ou inimigo declarado da inovação.
Era um sistema de vida ainda governado pela espontaneidade e pela naturalidade, em contraposição ao Iluminismo, que estava com o cavalo encilhado para empreender sua longa marcha desbravando os novos tempos com a sua bandeira de racionalidade.
Não se tratava de um descanso glorioso e heroico como o de Bento Gonçalves ou de Anita Garibaldi, o de Jacinto das Dores, mas é inegável que tinha a sua história gravada. Quem de nós não a tem, por mais singela que seja?
A sua contabilidade registrou mais afetos do que desafetos pela vida afora. Viveu afastado das aflições públicas, até porque a urbe raramente era fotografada por essas tendências. Índole pacata e propensa à concórdia, não obstante não se poder dizer que estivesse ausente da rotina provinciana. Nem tudo na sua vida eram influências externas. A empatia não governava a sua existência de modo absoluto, em vista de inclinar-se pelas vantagens de constituir-se em uma personalidade balanceada... Seguia as regras estabelecidas, mas, também, firmava entendimento próprio em muitas das situações.
Um morto privilegiado, tranquilamente se poderia dizer. Já nos seus primeiros passos em direção à eternidade, o seu sono tranquiliza-se com os aromas da mata serrana, das flores, do perfume silvestre. Não necessitava ser transportado ao paraíso: já estava convivendo com ele. Ser guiado e protegido por esse ambiente não é coisa pouca não! Paisagem fúnebre catalogada com cinco estrelas. Conforto e calmaria nessa nova empreitada que a sua vida empreendera, pois vida e morte estão amalgamadas numa unidade indestrutível. Elementar, meu Caro Watson...!, poderia dizer o leitor dado a zombarias como regra de ofício da alma.
Destino magnânimo e generoso. Fato que não poderia gerar objeções, embora muitos (alguns até com posição de destaque) estejam por aí travando luta encarniçada contra a realidade... Mas se alguém o fizesse, por imposição, apenas, do domínio democrático, estaria entregando-se a um raciocínio indefensável, sujeito ao escárnio público. Questão a ser arrematada com argumento forte, de modo a não serem geradas dúvidas absurdas em quem esteja à procura de definições existenciais inconcebíveis, ou como diria o linguajar popular: buscando chifres na cabeça de cavalos.
Um erro é um erro, e como tal deve ser tratado. Ainda mais quando não está devidamente protegido dos trajes da camuflagem. Instalação do contraditório para quê? Apenas para gastar energias inutilmente. Essa figura perniciosa, originária da ignorância ou da má fé, não pode obter salvo-conduto ou licença para desfilar de batom e ruge. A tolerância dá-lhe carta branca para produzir enganos e estragos sem conta. A missão da diplomacia é lidar com conflitos reais ou latentes. Ou, então, acomodar interesses legítimos. E não dourar a pílula em situações que requerem cirurgia e bisturi, antes que ganhem corpo e se transformem em assunto da Cultura. O vício transformado em lei! Daí é praticamente impossível a sua remoção...
Depois desse esforço em prolatar essa sentença, verdadeiro balanço da narrativa, sucede-lhe o trabalho de detenção da linearidade, mesmo que seja por alguns instantes... Assunto provido em seguida.
A beleza deve frutificar pela sua divulgação, pois a clausura imposta pelo desconhecimento conduz os seus frutos ao definhamento. Com esse espírito, é atraída a presença de Jorge Luis Borges, poeta, contista, detentor de ideias universais na literatura, com fortes incursões na arte Surrealista, para aqui erguer fração do seu edifício poético, formulada com o propósito de despertar a atenção e estimular o aprimoramento estético dos espíritos inclinados a tal fim. E, também, porque o nosso personagem, mesmo não sendo aficionado das letras, reunia méritos pa ra receber homenagem desse quilate, em vista de ser homem de valor, dessas criaturas que, mesmo na sua simplicidade, dão expressiva cota de contribuição para que o mundo seja melhor. Remorso por Qualquer Morte, de Jorge Luis Borges – Obras Completas, da Editora Globo, página 31 (traduzida para o Português):
“Livre da memória e da esperança,/ilimitado, abstrato, quase futuro,/ o morto não é um morto; é a morte./Como o Deus dos místicos,/de Quem devem negar-se todos os predicados,/o morto ubiliquamente alheio/não é senão a perdição e ausência do mundo./Tudo dele roubamos,/não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba:/aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos,/ali a calçada onde sua esperança espreitava./Até o que pensamos poderia estar pensando ele também;/ repartimos como ladrões/o caudal das noites e dos dias.”
Nessa incursão do argentino, faria sentido apenas um pequeno reparo: em vez da expressão “...quase futuro”, a sua substituição por “...quase passado”. Correção que é atributo da ousadia e da falta de juízo da autoria, mas quem é que não tem alguns segundos do dia dedicados a esse ofício?
Jacinto das Dores, porém, impôs a si mesmo a condição de usufrutuário dos sentimentos dos amigos ali presentes: choros de dosimetria variada, assinalando a viagem do pudor de cada um, rezas conduzidas por fé inabalável, augúrios, lamentos e declarações de perda irreparável. A normalidade veiculando-se pela propagação dos tempos...
Preferiu descansar serenamente e receber, em silêncio (mas agradecido), amigos, parentes, curiosos e destituídos de posses de outras regiões que estavam ali de passagem, apenas com a pretensão de colherem os frutos da temporada, espantando a loteria aziaga que os perseguia, influenciada ou pelo destino, ou pelo casamento sólido e indissolúvel com a ociosidade.
Vamos usar de absoluto realismo: morrer nessas condições é uma fortuna que poucos podem alcançar. Recebia as homenagens de todas as classes sociais, nas condições relatadas. O ensejo não estava a serviço da divisão de classes.
Concepções se rivalizariam pela madrugada adentro. Os versos de Borges estavam presentes. De outro lado, a teoria acerca da reencarnação das almas pretendia ajustar as contas com o seu conteúdo, valendo-se de um exemplo empírico, de modo a não deixar dúvidas sobre a sua validade. O mundo real e a ficção competindo como laboratório de experiências.
Jacinto, entretanto, motivado pelos fatos supervenientes, passou a conviver problematicamente com o otimismo e a resignação. Dominado pela perplexidade, voz calada pelo silêncio imposto pela situação sem retorno, permanecia imóvel, circunspeto, apenas enxergando a avidez dos visitantes no banquete. Aliás, era surpreendente a azáfama dos comensais na árdua tarefa de darem conta dos sanduíches, cafés e chás, ofertados gentilmente pela família. Os despossuídos e alguns dos cidadãos protegidos pela normalidade das refeições davam a sua cota de contribuição para que as provisões se esgotassem mais rapidamente.
A verdade nua e crua é que, com a chegada dos salgadinhos, sanduíches e chás, Jacinto deixou o cenário principal para constituir-se em mero figurante. O repasto postou-se na mais elevada das hierarquias. Enquanto houve comida, decretaram o seu status de exilado.
Talvez, daí resultasse a alteração da sua personalidade, pois de ator principal a penduricalho ou agregado é gravemente problemático. Trabalho de pasteurização. Primeiro uma temperatura muito elevada, depois.... Quem de nós não teria as fundações espirituais fortemente abaladas? Com ele não foi diferente. Veneno que abate um, abate todos.
De outro lado, a viúva, dona Lívia das Dores, não se deixava prostrar pela falta de sequência na vida do seu marido. Mostrava-se claramente conformada. Avaliação descolada da aritmética das lágrimas, haja vista que ainda não havia como serem contabilizadas, o que passou a gerar comentários de alguns “amigos”, tão logo os comensais viram-se amansados em sua tarefa de glutões, guiados não pelo bom senso, mas pelo esgotamento das reservas existentes.
Entretanto, fotografada a sua postura pelas figuras de boa fé, que ornamentavam o ambiente, atribuíram-lhe firmeza de caráter, determinante na formação da fortaleza e fé demonstradas.
Opinião minada pelo desdém da maioria, em legítimo exercício da propagação da sua força.
Com o adiantar da madrugada, o frio intenso tomou conta, reinando sem admitir interferência de outras temperaturas, ou a divisão do seu poder. E poder que se conquista é para ser mantido e não distribuído, já ensinava o astuto Maquiavel ao Príncipe. Assim, sob a vigência desse domínio, as horas avançavam, e uma compenetrada e devotada carpideira que se fazia presente fincou o olhar em Jacinto e notou que o lençol, na pureza de sua brancura, com o qual tinha sido envolto o seu corpo, começava levemente a movimentar-se.
O desmaio foi seguido de alvoroço. Prestados os devidos socorros, e recuperada parcialmente do susto que ainda a mantinha trêmula, relatou, com engulhos e voz trôpega, o motivo que a fizera enfrentar aquela dificuldade.
Após ouvir o seu relato, o grupo reunido, agora em torno do caixão, notou o repetido movimento do lençol, confirmando as informações recebidas da mulher, o que ocasionou o sumiço em desabalada carreira de todos os presentes, num espantoso efeito manada. Atropelamentos na porta de saída não aconteceram por puro milagre. Por muito pouco, a confusão não conferiu a um dos presentes o mesmo destino do pranteado.
Agora, porém, em “confortável” distância da capela mortuária, ainda ofegantes e exaustos, os desertores começaram a discutir o que tinha se passado. Inicialmente, o fato despertou apenas a vigência da teoria da reencarnação, amparada numa sólida razão: Jacinto teria reencarnado em seu próprio corpo para ajustar as contas com Lívia.
Todavia, um dos presentes, de nome Ethevaldo Faustino, depois de dar corda à arquitetura do seu pensamento, expressão que poderia ser sintetizada, mais secamente, como “urdidura”, pelos mais céticos, simplesmente isso, relatou que, há anos, havia evitado fosse Jacinto vitimado num afogamento, ventilando uma nova possibilidade: “A sua morte, de inopino, não lhe ensejou tempo para elaborar o testamento e, assim, resolveu despertar para deliberar sobre o destino de seu patrimônio”. Alegou, ainda, ser ele, certamente, ao lado dos herdeiros naturais, um dos legatários contemplados: “Um grande homem, até em sua despedida final buscou agir com equidade e justiça”. Concluiu.
De outro lado, havia um deles, tardiamente presente nas conversas, porém já ciente da situação, com sinais da valentia de Bento Gonçalves, que bradou com convicção: “Vou até o pé do caixão para comprovar a veracidade da sua morte”. E prosseguiu: “Todos estão convidados a me acompanhar.” A sua fala foi seguida de um calafrio generalizado. Os espíritos balançavam como se estivessem diante de um terremoto de escala devastadora. Entretanto, passados esses momentos iniciais de terror, a situação foi acomodando-se lentamente. Afinal de contas, um escudo é um escudo!
As regras vigentes da valentia, por força dessa nova situação, sofreram rachaduras consistentes: pusilânimes de carteirinha, com ações já sobejamente transitadas em julgado, assumiram ares de guerreiros ensandecidos... Só vendo para crer! Confundiam-se com samurais destemidos em defesa do seu feudo. Ou Kamicazes lançando os seus aviões contra os navios inimigos. O “destemor”, quando encontra terreno apropriado, exibe-se com galhardia e glamour, inegavelmente!
Lá chegando, surpreendentemente, constataram que o “homenageado” não havia sido abandonado à sua própria sorte naquele interlúdio, pois lá se encontrava o Sr. Salim Azambuja da Silva, conhecido comerciante, governado pelos prantos e alegando ser credor de uma dívida que, segundo suas palavras, não fora satisfeita por Jacinto. Causa de espanto e perplexidade dos demais, pois era sabido sobejamente ser o falecido um homem de reputação ilibada, que não abria mão de cumprir as suas obrigações.
Provavelmente, esse “pragmático” homem intuiu do movimento repentino do lençol, o acenar da possibilidade da quitação do referido débito, cuja veracidade está apta a receber, também, as lupas dos leitores...
Inquirido nos momentos seguintes, seu Salim Azambuja explicou que vira apenas a mansidão e o descanso do referido cidadão, em pleno exercício da faculdade de estar de acordo com os fundamentos da morte que lhe sobreviera. A única anormalidade era a presença de um obeso besouro, movimentando-se na lentidão da sua espécie e que, certamente, deveria ter provocado toda a confusão e decretado vida apenas ao lençol, infelizmente, e frustrando-lhe a expectativa de receber o que era de “justiça”, palavra esta utilizada por ele (sendo as aspas uma concessão aos céticos e descrentes).
Assim, todas as hipóteses aqui cogitadas viram-se desprender da realidade, encontrando sérias dificuldades para firmarem-se como verdade: a da reencarnação; a da vingança a ser infligida à esposa infiel; a do testamento tardio; e a do recebimento da dívida, firmando-se possivelmente, a convicção de que o imaginário é capaz de promover verdadeiras revoluções ou reboliços na ordem vigente.
Apenas uma das teorias não destoou, a despeito da aparente relutância de Jacinto das Dores em permitir que ela governasse o seu destino, porque encontrou relevância na expressão: a boa poesia é aquela que imita a vida.
Gramado e Canela, hospedeiras de eventos importantes, do alto da sua condescendência, poderiam emprestar o seu cenário e o seu Campo Santo para Jacinto das Dores receber o descanso devido aos justos e elevados de espírito, nesta hora tão importante da sua trajetória, que ficaria de bom tamanho.
Márcio Florestan Berestinas - Promotor de Justiça das Comarcas de Alto Araguaia e Alto Garças.
Jacinto das Dores jazia em seu leito mortuário com os enfeites e as parafernálias a que tinha direito. Havia deixado esta vida para integrar-se à eternidade abraçado pela madeira trabalhada industrialmente, exigência dessas ocasiões. Morador há longos anos na pacata Jaburu da Serra, situada na geografia sulina do país, cidade hospedeira de frio intenso, salpicado, em certos momentos, pela brancura da neve, no período mais agudo do inverno, sem oferecer resistência. Dominada em batalhas que se recusava a travar , recolhia-se “bravamente”. Todos tinham de acrescentar zero grau, sem exceção, a essa aritmética negativa das temperaturas. A valentia era aptidão para ser exercida em outras oportunidades mais favoráveis, como sói acontecer a consagrados valentões ... A incompreensão qualificando a fama e organizando o seu status, é preciso dizer, desprezadas as medidas do sistema métrico decimal...
As históricas batalhas de Napoleão Bonaparte, no frio da Rússia dos czares, tão bem articuladas pela literatura de Leon Tolstoi em “Guerra e Paz”, encontravam ressonância na comparação com esse ambiente. Do ponto de vista da economia, o PIB regional só não murchava acentuadamente, em razão do trabalho acumulado nas outras estações. A situação era para reforçar os agasalhos e “pegar duro” na ociosidade das lareiras. Um único setor prosperava tranquilamente: o de chás, doces e tortas, impulsionado pelo turismo, que os malucos de outras regiões alimentavam atraídos pelo fascínio que a neve exercia sobre as suas suntuosas indumentárias, prontas a travar a guerra contra o gelo. Vitrine apropriada ao sucesso social e econômico...
Cidade nascida do trabalho dos tropeiros desbravadores que faziam o trajeto de Viamão a Sorocaba. Pausa para descanso e refeições, tuteladas pela carne de sol. Preferência ou questão de ordem prática? Mal sabiam os comensais que essa iguaria iria gerar tantos entreveros e rixas com o vizinho Uruguai, operando como estopim da Guerra dos Farrapos e preparando o terreno para que Bento Gonçalves lançasse as bases para alcançar o Panteão dos Heróis e colher os benefícios da glória até hoje.
A História namorando a ficção. Algum impedimento legal nisso? Ou estético? O leitor tem todo o direito de julgar, desde que não seja alimentado pelas armas do preconceito ou inimigo declarado da inovação.
Era um sistema de vida ainda governado pela espontaneidade e pela naturalidade, em contraposição ao Iluminismo, que estava com o cavalo encilhado para empreender sua longa marcha desbravando os novos tempos com a sua bandeira de racionalidade.
Não se tratava de um descanso glorioso e heroico como o de Bento Gonçalves ou de Anita Garibaldi, o de Jacinto das Dores, mas é inegável que tinha a sua história gravada. Quem de nós não a tem, por mais singela que seja?
A sua contabilidade registrou mais afetos do que desafetos pela vida afora. Viveu afastado das aflições públicas, até porque a urbe raramente era fotografada por essas tendências. Índole pacata e propensa à concórdia, não obstante não se poder dizer que estivesse ausente da rotina provinciana. Nem tudo na sua vida eram influências externas. A empatia não governava a sua existência de modo absoluto, em vista de inclinar-se pelas vantagens de constituir-se em uma personalidade balanceada... Seguia as regras estabelecidas, mas, também, firmava entendimento próprio em muitas das situações.
Um morto privilegiado, tranquilamente se poderia dizer. Já nos seus primeiros passos em direção à eternidade, o seu sono tranquiliza-se com os aromas da mata serrana, das flores, do perfume silvestre. Não necessitava ser transportado ao paraíso: já estava convivendo com ele. Ser guiado e protegido por esse ambiente não é coisa pouca não! Paisagem fúnebre catalogada com cinco estrelas. Conforto e calmaria nessa nova empreitada que a sua vida empreendera, pois vida e morte estão amalgamadas numa unidade indestrutível. Elementar, meu Caro Watson...!, poderia dizer o leitor dado a zombarias como regra de ofício da alma.
Destino magnânimo e generoso. Fato que não poderia gerar objeções, embora muitos (alguns até com posição de destaque) estejam por aí travando luta encarniçada contra a realidade... Mas se alguém o fizesse, por imposição, apenas, do domínio democrático, estaria entregando-se a um raciocínio indefensável, sujeito ao escárnio público. Questão a ser arrematada com argumento forte, de modo a não serem geradas dúvidas absurdas em quem esteja à procura de definições existenciais inconcebíveis, ou como diria o linguajar popular: buscando chifres na cabeça de cavalos.
Um erro é um erro, e como tal deve ser tratado. Ainda mais quando não está devidamente protegido dos trajes da camuflagem. Instalação do contraditório para quê? Apenas para gastar energias inutilmente. Essa figura perniciosa, originária da ignorância ou da má fé, não pode obter salvo-conduto ou licença para desfilar de batom e ruge. A tolerância dá-lhe carta branca para produzir enganos e estragos sem conta. A missão da diplomacia é lidar com conflitos reais ou latentes. Ou, então, acomodar interesses legítimos. E não dourar a pílula em situações que requerem cirurgia e bisturi, antes que ganhem corpo e se transformem em assunto da Cultura. O vício transformado em lei! Daí é praticamente impossível a sua remoção...
Depois desse esforço em prolatar essa sentença, verdadeiro balanço da narrativa, sucede-lhe o trabalho de detenção da linearidade, mesmo que seja por alguns instantes... Assunto provido em seguida.
A beleza deve frutificar pela sua divulgação, pois a clausura imposta pelo desconhecimento conduz os seus frutos ao definhamento. Com esse espírito, é atraída a presença de Jorge Luis Borges, poeta, contista, detentor de ideias universais na literatura, com fortes incursões na arte Surrealista, para aqui erguer fração do seu edifício poético, formulada com o propósito de despertar a atenção e estimular o aprimoramento estético dos espíritos inclinados a tal fim. E, também, porque o nosso personagem, mesmo não sendo aficionado das letras, reunia méritos pa ra receber homenagem desse quilate, em vista de ser homem de valor, dessas criaturas que, mesmo na sua simplicidade, dão expressiva cota de contribuição para que o mundo seja melhor. Remorso por Qualquer Morte, de Jorge Luis Borges – Obras Completas, da Editora Globo, página 31 (traduzida para o Português):
“Livre da memória e da esperança,/ilimitado, abstrato, quase futuro,/ o morto não é um morto; é a morte./Como o Deus dos místicos,/de Quem devem negar-se todos os predicados,/o morto ubiliquamente alheio/não é senão a perdição e ausência do mundo./Tudo dele roubamos,/não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba:/aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos,/ali a calçada onde sua esperança espreitava./Até o que pensamos poderia estar pensando ele também;/ repartimos como ladrões/o caudal das noites e dos dias.”
Nessa incursão do argentino, faria sentido apenas um pequeno reparo: em vez da expressão “...quase futuro”, a sua substituição por “...quase passado”. Correção que é atributo da ousadia e da falta de juízo da autoria, mas quem é que não tem alguns segundos do dia dedicados a esse ofício?
Jacinto das Dores, porém, impôs a si mesmo a condição de usufrutuário dos sentimentos dos amigos ali presentes: choros de dosimetria variada, assinalando a viagem do pudor de cada um, rezas conduzidas por fé inabalável, augúrios, lamentos e declarações de perda irreparável. A normalidade veiculando-se pela propagação dos tempos...
Preferiu descansar serenamente e receber, em silêncio (mas agradecido), amigos, parentes, curiosos e destituídos de posses de outras regiões que estavam ali de passagem, apenas com a pretensão de colherem os frutos da temporada, espantando a loteria aziaga que os perseguia, influenciada ou pelo destino, ou pelo casamento sólido e indissolúvel com a ociosidade.
Vamos usar de absoluto realismo: morrer nessas condições é uma fortuna que poucos podem alcançar. Recebia as homenagens de todas as classes sociais, nas condições relatadas. O ensejo não estava a serviço da divisão de classes.
Concepções se rivalizariam pela madrugada adentro. Os versos de Borges estavam presentes. De outro lado, a teoria acerca da reencarnação das almas pretendia ajustar as contas com o seu conteúdo, valendo-se de um exemplo empírico, de modo a não deixar dúvidas sobre a sua validade. O mundo real e a ficção competindo como laboratório de experiências.
Jacinto, entretanto, motivado pelos fatos supervenientes, passou a conviver problematicamente com o otimismo e a resignação. Dominado pela perplexidade, voz calada pelo silêncio imposto pela situação sem retorno, permanecia imóvel, circunspeto, apenas enxergando a avidez dos visitantes no banquete. Aliás, era surpreendente a azáfama dos comensais na árdua tarefa de darem conta dos sanduíches, cafés e chás, ofertados gentilmente pela família. Os despossuídos e alguns dos cidadãos protegidos pela normalidade das refeições davam a sua cota de contribuição para que as provisões se esgotassem mais rapidamente.
A verdade nua e crua é que, com a chegada dos salgadinhos, sanduíches e chás, Jacinto deixou o cenário principal para constituir-se em mero figurante. O repasto postou-se na mais elevada das hierarquias. Enquanto houve comida, decretaram o seu status de exilado.
Talvez, daí resultasse a alteração da sua personalidade, pois de ator principal a penduricalho ou agregado é gravemente problemático. Trabalho de pasteurização. Primeiro uma temperatura muito elevada, depois.... Quem de nós não teria as fundações espirituais fortemente abaladas? Com ele não foi diferente. Veneno que abate um, abate todos.
De outro lado, a viúva, dona Lívia das Dores, não se deixava prostrar pela falta de sequência na vida do seu marido. Mostrava-se claramente conformada. Avaliação descolada da aritmética das lágrimas, haja vista que ainda não havia como serem contabilizadas, o que passou a gerar comentários de alguns “amigos”, tão logo os comensais viram-se amansados em sua tarefa de glutões, guiados não pelo bom senso, mas pelo esgotamento das reservas existentes.
Entretanto, fotografada a sua postura pelas figuras de boa fé, que ornamentavam o ambiente, atribuíram-lhe firmeza de caráter, determinante na formação da fortaleza e fé demonstradas.
Opinião minada pelo desdém da maioria, em legítimo exercício da propagação da sua força.
Com o adiantar da madrugada, o frio intenso tomou conta, reinando sem admitir interferência de outras temperaturas, ou a divisão do seu poder. E poder que se conquista é para ser mantido e não distribuído, já ensinava o astuto Maquiavel ao Príncipe. Assim, sob a vigência desse domínio, as horas avançavam, e uma compenetrada e devotada carpideira que se fazia presente fincou o olhar em Jacinto e notou que o lençol, na pureza de sua brancura, com o qual tinha sido envolto o seu corpo, começava levemente a movimentar-se.
O desmaio foi seguido de alvoroço. Prestados os devidos socorros, e recuperada parcialmente do susto que ainda a mantinha trêmula, relatou, com engulhos e voz trôpega, o motivo que a fizera enfrentar aquela dificuldade.
Após ouvir o seu relato, o grupo reunido, agora em torno do caixão, notou o repetido movimento do lençol, confirmando as informações recebidas da mulher, o que ocasionou o sumiço em desabalada carreira de todos os presentes, num espantoso efeito manada. Atropelamentos na porta de saída não aconteceram por puro milagre. Por muito pouco, a confusão não conferiu a um dos presentes o mesmo destino do pranteado.
Agora, porém, em “confortável” distância da capela mortuária, ainda ofegantes e exaustos, os desertores começaram a discutir o que tinha se passado. Inicialmente, o fato despertou apenas a vigência da teoria da reencarnação, amparada numa sólida razão: Jacinto teria reencarnado em seu próprio corpo para ajustar as contas com Lívia.
Todavia, um dos presentes, de nome Ethevaldo Faustino, depois de dar corda à arquitetura do seu pensamento, expressão que poderia ser sintetizada, mais secamente, como “urdidura”, pelos mais céticos, simplesmente isso, relatou que, há anos, havia evitado fosse Jacinto vitimado num afogamento, ventilando uma nova possibilidade: “A sua morte, de inopino, não lhe ensejou tempo para elaborar o testamento e, assim, resolveu despertar para deliberar sobre o destino de seu patrimônio”. Alegou, ainda, ser ele, certamente, ao lado dos herdeiros naturais, um dos legatários contemplados: “Um grande homem, até em sua despedida final buscou agir com equidade e justiça”. Concluiu.
De outro lado, havia um deles, tardiamente presente nas conversas, porém já ciente da situação, com sinais da valentia de Bento Gonçalves, que bradou com convicção: “Vou até o pé do caixão para comprovar a veracidade da sua morte”. E prosseguiu: “Todos estão convidados a me acompanhar.” A sua fala foi seguida de um calafrio generalizado. Os espíritos balançavam como se estivessem diante de um terremoto de escala devastadora. Entretanto, passados esses momentos iniciais de terror, a situação foi acomodando-se lentamente. Afinal de contas, um escudo é um escudo!
As regras vigentes da valentia, por força dessa nova situação, sofreram rachaduras consistentes: pusilânimes de carteirinha, com ações já sobejamente transitadas em julgado, assumiram ares de guerreiros ensandecidos... Só vendo para crer! Confundiam-se com samurais destemidos em defesa do seu feudo. Ou Kamicazes lançando os seus aviões contra os navios inimigos. O “destemor”, quando encontra terreno apropriado, exibe-se com galhardia e glamour, inegavelmente!
Lá chegando, surpreendentemente, constataram que o “homenageado” não havia sido abandonado à sua própria sorte naquele interlúdio, pois lá se encontrava o Sr. Salim Azambuja da Silva, conhecido comerciante, governado pelos prantos e alegando ser credor de uma dívida que, segundo suas palavras, não fora satisfeita por Jacinto. Causa de espanto e perplexidade dos demais, pois era sabido sobejamente ser o falecido um homem de reputação ilibada, que não abria mão de cumprir as suas obrigações.
Provavelmente, esse “pragmático” homem intuiu do movimento repentino do lençol, o acenar da possibilidade da quitação do referido débito, cuja veracidade está apta a receber, também, as lupas dos leitores...
Inquirido nos momentos seguintes, seu Salim Azambuja explicou que vira apenas a mansidão e o descanso do referido cidadão, em pleno exercício da faculdade de estar de acordo com os fundamentos da morte que lhe sobreviera. A única anormalidade era a presença de um obeso besouro, movimentando-se na lentidão da sua espécie e que, certamente, deveria ter provocado toda a confusão e decretado vida apenas ao lençol, infelizmente, e frustrando-lhe a expectativa de receber o que era de “justiça”, palavra esta utilizada por ele (sendo as aspas uma concessão aos céticos e descrentes).
Assim, todas as hipóteses aqui cogitadas viram-se desprender da realidade, encontrando sérias dificuldades para firmarem-se como verdade: a da reencarnação; a da vingança a ser infligida à esposa infiel; a do testamento tardio; e a do recebimento da dívida, firmando-se possivelmente, a convicção de que o imaginário é capaz de promover verdadeiras revoluções ou reboliços na ordem vigente.
Apenas uma das teorias não destoou, a despeito da aparente relutância de Jacinto das Dores em permitir que ela governasse o seu destino, porque encontrou relevância na expressão: a boa poesia é aquela que imita a vida.
Gramado e Canela, hospedeiras de eventos importantes, do alto da sua condescendência, poderiam emprestar o seu cenário e o seu Campo Santo para Jacinto das Dores receber o descanso devido aos justos e elevados de espírito, nesta hora tão importante da sua trajetória, que ficaria de bom tamanho.
Márcio Florestan Berestinas
Márcio Florestan Berestinas - Promotor de Justiça das Comarcas de Alto Araguaia e Alto Garças.
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