A quem interessa uma sociedade alienada?




LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Em tempos de Eleições e Twitter, me espanta a quantidade de críticas, ironias e deboches destinados aos candidatos e à classe política. Tiririca, pseudocelebridade de gosto duvidoso, tornou-se porta-voz desse pensamento ao afirmar em pleno horário eleitoral: "O que é que faz um deputado federal? Na realidade eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto. Vote Tiririca, pior do que tá, não fica".

Nunca pensei que Tiririca soubesse o que se faz no Congresso, assim como não deve saber como funciona um tribunal, um hospital ou uma universidade. Isso não lhe dá direito a pleitear vaga de juiz, médico ou professor, mas pode, sim, pleitear vaga no mesmo Congresso que debocha (como já o fez Clodovil e tantos outros). Isso é ruim? Não, isso é democracia. Ruim, e muito ruim para a democracia e para a nação, é a alienação declarada de um Tiririca encontrar eco na população, revelando um total desconhecimento do que seja política, ideologia.


Evidentemente os escândalos propagados com estardalhaço pela mídia ajudam a afastar o cidadão do fazer político, ampliando a alieanação, mas aí repito a pergunta do título: a quem interessa a alienação?


Lembremos que quanto mais enfraquecida a ideologia, mais fortalecido o casuísmo, e mais a sociedade fica vulnerável às mensagens e interesses da grande mídia. Aqui no RS, por exemplo, Ana Amélia Lemos, a mesma jornalista que por décadas criticou os escândalos do congresso, agora candidata-se a uma vaga ao Senado. Será vontade de mudar ou oportunismo? Ou será porque Sérgio Zambiasi, oriundo da mesma empresa, não quis tentar a reeleição?


Não estou sendo benevolente com maracutaias e conchavos políticos, mas alguém realmente acredita que nas grandes empresas seja muito diferente? Alguém questiona os absurdos gastos com o salário dos generais do exército, dos ministros do Supremo?


A outra face da alienação é a ingenuidade, e não há dúvidas de que a ingenuidade é muito útil para a manutenção do
status quo, para que se continue tendo poucas opções de canais de TV, continue se pagando caro pelo acesso à internet, para que os passageiros de ônibus continuem sendo tratados como sardinhas em lata. E útil também para que a parcela podre dos políticos enriqueça a si e aos seus familiares, para que multinacionais gozem de renúncias fiscais, para que magistrados tenham o direito de julgar o aumento do próprio salário, multiplicando-o.

Por outro lado, tenho certeza de que a "Geração
CQC" exibe-se nas redes sociais mais alienadas e superficial do que realmente é. Quero acreditar que as pessoas ainda saibam que a diferença entre PT e DEM é de visão de mundo, ideológica, não de jingle, cor ou candidato. E não há bem ou mal, certo ou errado, há apenas formas de pensar a sociedade, e é isso, estritamente isso o que deve guiar nosso voto.

Um tema central em qualquer campanha eleitoral deveria ser o tamanho do Estado, discussão secular que opôs republicanos e liberais. O que é melhor, um Estado forte, com alta carga de impostos e intervindo em diversas áreas da sociedade, mantendo bancos para a área financeira, escolas e universidades públicas e gratuitas, garantindo acesso à saúde, ou um Estado menor, com baixos impostos e serviços de saúde, segurança e educação privatizados, pois o mercado saberia se autorregular?


Repito, não há bem ou mal, certo ou errado, há visões de mundo. Ingenuidade é o discurso da mídia de que o Brasil precisa urgentemente reduzir impostos, que isso é um roubo, aliado ao discurso de melhoria dos serviços, de que precisamos de educação de mais qualidade, saúde de mais qualidade, ampliar os programas sociais. Assim a mídia fica numa posição confortável para tentar agradar gregos e troianos, ainda que saiba ser tudo apenas discurso, pois na prática há uma escolha a ser feita.


A mesma mídia, aliás, que aboliu o termo "classes" ou "burguesia" de seu discurso, como se vivêssemos numa sociedade harmônica em que não houvesse ricos e pobres, como se as oportunidades para uns e outros fossem as mesmas, como se não fosse quase impossível para o jovem nascido na periferia ter o padrão de vida da
burguesinha ironizada por Seu Jorge.

Outro ponto importante: uma vez um professor, falando sobre a diferença e os erros fundamentais do capitalismo e do socialismo, sintetizou a questão numa frase: "é muito difícil termos igualdade e liberdade ao mesmo tempo". Os regimes ou são mais rígidos e tornam a população mais igual ou o contrário. Pois então, e você, entre a liberdade e a igualdade optaria por qual deles? Claro que ninguém irá implantar o comunismo nem o anarquismo no Brasil, mas algumas pequenas decisões passam por essa questão maior, como a isenção de impostos a ricas universidades privadas, que amplia o leque de opções aos estudantes mas aprofunda a distorção entre o ensino de uns e de outros.


Embora essas questões ideológicas apareçam mais na Presidência, este critério para escolher um representante deve valer para todos os cargos, do presidente ao vereador que escolheremos daqui a dois anos. Primeiro escolhe-se uma visão de mundo mais próxima a nossa, depois observa-se quais são os candidatos daquele partido, e aí, sim, personificamos o voto em um nome, já que assim o sistema político exige.


Do mais, não esqueçamos que os políticos são um espelho do povo, e se Tiriricas e Amélias forem eleitos será porque a mídia ― e sua pasteurização ― está obtendo algum sucesso nas conquistas do poder de fato, além do já consolidado poder simbólico. 


AUGUSTO CURYAUGUSTO CURY

Augusto Jorge Cury é psiquiatra, cientista e é também autor de Você é Insubstituível, Dez Leis para Ser Feliz, Revolucione sua Qualidade de Vida, Seja Líder de Si Mesmo e Nunca Desista de Seus Sonhos, publicados pela Sextante. Pós-graduado em Psicologia Social, com pesquisa na Espanha na área de Ciências da Educação, é fundador da Academia de Inteligência, um instituto que promove seminários, cursos e treinamento sobre qualidade de vida e desenvolvimento da inteligência lógica, emocional e multifocal para empresas, profissionais liberais, educadores, psicólogos e público em geral. Ele também é autor de Inteligência Multifocal (Editora Cultrix), Treinando a Emoção para Ser Feliz e da coleção Análise da Inteligência de Cristo, publicados pela Editora Academia de Inteligência.


Código da Inteligência, O
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Por que é preciso despistar a literatura


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Nada como abrir a caixa de mensagens (no computador, no celular ou mesmo aquela incrustada no muro de casa) e ler uma boa notícia. É um evento, uma delícia, um suspiro aliviante. Risinhos caem pelos cantos da boca. Um ventinho sopra a franja de que tem. Ah! (E este "ah" tem que ter "H".) Como a vida é boa.

E outro dia, não faz muito tempo, abri um e-mail cheio dessas delicinhas. Era o organizador do livro Como se não houvesse amanhã (Record, 2010, 160 págs.), o corajoso e empreendedor carioca Henrique Rodrigues, dando a boa nova. Em poucas e intensas linhas, dizia ele que o livro já ia para a terceira edição (rapidíssimo para uma obra de literatura escrita por jovens autores contemporâneos) e que fora aprovada pelos professores, ou seja, figuraria nas listas a serem lidas nas salas de aula, por alunos sedentos por contos.

De uma só tacada, a feliz editora dona do passe da coletânia deveria imprimir aí mais de quinze mil exemplares da obra para ser vendida ao governo e chegar aos professores. Estes, por sua vez, devem arrancar de seus lumes criativos as melhores atividades possíveis para que os alunos leiam mesmo o material e curtam a relação música/conto proposta ali.

Melhor alinhavar isto direito. É que Como se não houvesse amanhã é uma coletânea de contos de autores contemporâneos (todos vivos, diga-se de passagem). Os contos são inspirados (às vezes mais, às vezes menos do que isso) em músicas da banda Legião Urbana, uma das mais marcantes do rock nacional das últimas décadas. Cada autor, a convite do organizador, escolheu um hit (ou menos hit) e arranjou seu método de escrever um conto baseado na canção. Houve quem pinçasse logo "Eduardo e Mônica", faixa de trabalho do álbum Dois, conhecida até mesmo dos filhos (quiçá netos) da geração que curtiu o lançamento do vinil de capa bege nos anos 1980. É claro que os contos que se inspiraram em canções dessa estirpe são mais citados nas matérias de revistas e jornais.

Outros autores atacaram de músicas de fã, ou seja, aquelas que o grande público não conheceu, mas que tocaram nas vitrolas dos fãs de carteirinha. É o caso de "Andréa Dória", que escolhi por me lembrar dos momentos de emoção que a letra me provocava e das infinitas frases copiadas nas agendas e nos diários.

Que articulações um projeto assim sugere aos professores (mais de quinze mil) e suas salas de aula? Por que a literatura anda precisando destas fantasias ou destes outros trajes? Ou ela sempre precisou?

Para se ter uma ideia, Henrique Rodrigues anda recebendo e-mails de professores que vêm lhe contar da adesão dos alunos à leitura da obra. Depoimentos de leitores apaixonados pela Legião, antes a Urbana, agora a de autores que ali estão, como se tocassem novamente, com outros instrumentos, aquelas canções que Renato Russo disparava por aí. Como se não houvesse amanhã conquistou não apenas a terceira edição, mas o primeiro lugar na escolha dos professores, deixando em segundo um Nelson Motta. E mais: desbancando top hits como Manoel de Barros e Stanislaw Ponte Preta.

Como poderíamos ler esse acontecimento? É claro: não apenas como uma trilha que liga leitores a livros, o que já é, sem dúvida, ótimo, mas como uma trilha tortuosa que faz esse milagre aí. Explico: tortuosa porque somos um país de poucos livros por cabeça/ano. Para que a média suba um pouquinho, é preciso juntar todo tipo de leitura no mesmo bolo, o que não é incomum nas pesquisas sobre o tema, mesmo em outros países. Lemos jornais, revistas, quadrinhos, a Bíblia, o Corão, os Vedas, flyer, panfleto, e-mail e livros (de autoajuda, de receitas e de literatura, desde que ela se pareça com outra coisa). É isso?

Se somos um país de poucos livros/cabeça/ano, por que é que somos uma das maiores potências editoriais do mundo? É isso mesmo. Coisa de quinto ou oitavo lugar, a depender de quem fez a pesquisa. Como é que pode? Mas pode. É que o governo compra a maior parte dos livros e os distribui aos leitores (quase leitores, pseudoleitores, semileitores, megaleitores, hiperleitores, hipoleitores etc.). É mais ou menos como aquela cobra que come o próprio rabo. Mas até que funciona. Pelo menos os professores podem escolher os livros que acham mais bacanas e levá-los para as salas de aula. Ou emprestá-los aos alunos. Ou produzir mais contos sob a influência destes. Ou pensar projetos com foco na música (e a literatura pega os adolescentes de assalto). Pelo menos isto: a escola continua funcionando como um forte (e quase solitário) espaço no qual as pessoas têm seus rudimentos de cultura literária (alguns diriam letramento literário).

Ao menos as esferas do governo implementam planos como o Biblioteca do Professor ou projetos que visam a forçar essa rede livro-leitor-leitura, que deveria ser um ciclo infinito (e nem sempre é). E por que eu disse "ao menos"? Porque, como todo mundo não se cansa de dizer, em média, o professor brasileiro não tem o melhor salário do mundo. Comprar livro fica depois, bem depois, de pagar as contas.

Até que Como se não houvesse amanhã também não é dos livros mais caros do planeta. Na Livraria Cultura, ele custa R$ 32,90, mas sai, na promoção, por R$ 26,32. Como não bebo cerveja, preciso consultar alguém para ver como fica a conversão: isso dá umas dez ou doze cervejas, dependendo do boteco? É por aí. Questão de decidir o que é melhor para o momento.

O que os jovens leitores querem com este livro? O que o professor vislumbrou? Aposto que o raciocínio foi algo assim: "vou articular os contos às canções e meus alunos ficarão mais interessados" ou, em toscas palavras, "eba, vou poder enganar a moçada. Pensam que vão ouvir música, mas estarão lendo".

Mas o fato é que há quem realmente goste do livro, inclusive entre a garotada. No meio da multidão, eis que uma menina aponta a bela narrativa baseada em "Quando o sol bater na janela do seu quarto". Ou em "Pais e filhos", um quase blues que emociona. E um outro leitor, mais proficiente, posta em seu blog um exercício literário inspirado no livro. Ele percebe a falta da canção "Índios" e dá sua contribuição.

Mas minha questão não passa de uma digressão. Meu título não é bem uma pergunta (e seria retórica, se fosse). É apenas um desses pensamentos que passam rapidinho e se vão. É preciso despistar a literatura, vesti-la com canções, fantasias, adornos, badulaques, apetrechos, penduricalhos, maquiagens, berloques, máscara e touca ninja. Afinal, ninguém quer parar para contemplar, ouvir mentalmente a leitura dos textos literários. Dói menos quando a leitura se parece com outra coisa.

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