A quem interessa uma sociedade alienada?




LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Em tempos de Eleições e Twitter, me espanta a quantidade de críticas, ironias e deboches destinados aos candidatos e à classe política. Tiririca, pseudocelebridade de gosto duvidoso, tornou-se porta-voz desse pensamento ao afirmar em pleno horário eleitoral: "O que é que faz um deputado federal? Na realidade eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto. Vote Tiririca, pior do que tá, não fica".

Nunca pensei que Tiririca soubesse o que se faz no Congresso, assim como não deve saber como funciona um tribunal, um hospital ou uma universidade. Isso não lhe dá direito a pleitear vaga de juiz, médico ou professor, mas pode, sim, pleitear vaga no mesmo Congresso que debocha (como já o fez Clodovil e tantos outros). Isso é ruim? Não, isso é democracia. Ruim, e muito ruim para a democracia e para a nação, é a alienação declarada de um Tiririca encontrar eco na população, revelando um total desconhecimento do que seja política, ideologia.


Evidentemente os escândalos propagados com estardalhaço pela mídia ajudam a afastar o cidadão do fazer político, ampliando a alieanação, mas aí repito a pergunta do título: a quem interessa a alienação?


Lembremos que quanto mais enfraquecida a ideologia, mais fortalecido o casuísmo, e mais a sociedade fica vulnerável às mensagens e interesses da grande mídia. Aqui no RS, por exemplo, Ana Amélia Lemos, a mesma jornalista que por décadas criticou os escândalos do congresso, agora candidata-se a uma vaga ao Senado. Será vontade de mudar ou oportunismo? Ou será porque Sérgio Zambiasi, oriundo da mesma empresa, não quis tentar a reeleição?


Não estou sendo benevolente com maracutaias e conchavos políticos, mas alguém realmente acredita que nas grandes empresas seja muito diferente? Alguém questiona os absurdos gastos com o salário dos generais do exército, dos ministros do Supremo?


A outra face da alienação é a ingenuidade, e não há dúvidas de que a ingenuidade é muito útil para a manutenção do
status quo, para que se continue tendo poucas opções de canais de TV, continue se pagando caro pelo acesso à internet, para que os passageiros de ônibus continuem sendo tratados como sardinhas em lata. E útil também para que a parcela podre dos políticos enriqueça a si e aos seus familiares, para que multinacionais gozem de renúncias fiscais, para que magistrados tenham o direito de julgar o aumento do próprio salário, multiplicando-o.

Por outro lado, tenho certeza de que a "Geração
CQC" exibe-se nas redes sociais mais alienadas e superficial do que realmente é. Quero acreditar que as pessoas ainda saibam que a diferença entre PT e DEM é de visão de mundo, ideológica, não de jingle, cor ou candidato. E não há bem ou mal, certo ou errado, há apenas formas de pensar a sociedade, e é isso, estritamente isso o que deve guiar nosso voto.

Um tema central em qualquer campanha eleitoral deveria ser o tamanho do Estado, discussão secular que opôs republicanos e liberais. O que é melhor, um Estado forte, com alta carga de impostos e intervindo em diversas áreas da sociedade, mantendo bancos para a área financeira, escolas e universidades públicas e gratuitas, garantindo acesso à saúde, ou um Estado menor, com baixos impostos e serviços de saúde, segurança e educação privatizados, pois o mercado saberia se autorregular?


Repito, não há bem ou mal, certo ou errado, há visões de mundo. Ingenuidade é o discurso da mídia de que o Brasil precisa urgentemente reduzir impostos, que isso é um roubo, aliado ao discurso de melhoria dos serviços, de que precisamos de educação de mais qualidade, saúde de mais qualidade, ampliar os programas sociais. Assim a mídia fica numa posição confortável para tentar agradar gregos e troianos, ainda que saiba ser tudo apenas discurso, pois na prática há uma escolha a ser feita.


A mesma mídia, aliás, que aboliu o termo "classes" ou "burguesia" de seu discurso, como se vivêssemos numa sociedade harmônica em que não houvesse ricos e pobres, como se as oportunidades para uns e outros fossem as mesmas, como se não fosse quase impossível para o jovem nascido na periferia ter o padrão de vida da
burguesinha ironizada por Seu Jorge.

Outro ponto importante: uma vez um professor, falando sobre a diferença e os erros fundamentais do capitalismo e do socialismo, sintetizou a questão numa frase: "é muito difícil termos igualdade e liberdade ao mesmo tempo". Os regimes ou são mais rígidos e tornam a população mais igual ou o contrário. Pois então, e você, entre a liberdade e a igualdade optaria por qual deles? Claro que ninguém irá implantar o comunismo nem o anarquismo no Brasil, mas algumas pequenas decisões passam por essa questão maior, como a isenção de impostos a ricas universidades privadas, que amplia o leque de opções aos estudantes mas aprofunda a distorção entre o ensino de uns e de outros.


Embora essas questões ideológicas apareçam mais na Presidência, este critério para escolher um representante deve valer para todos os cargos, do presidente ao vereador que escolheremos daqui a dois anos. Primeiro escolhe-se uma visão de mundo mais próxima a nossa, depois observa-se quais são os candidatos daquele partido, e aí, sim, personificamos o voto em um nome, já que assim o sistema político exige.


Do mais, não esqueçamos que os políticos são um espelho do povo, e se Tiriricas e Amélias forem eleitos será porque a mídia ― e sua pasteurização ― está obtendo algum sucesso nas conquistas do poder de fato, além do já consolidado poder simbólico. 


AUGUSTO CURYAUGUSTO CURY

Augusto Jorge Cury é psiquiatra, cientista e é também autor de Você é Insubstituível, Dez Leis para Ser Feliz, Revolucione sua Qualidade de Vida, Seja Líder de Si Mesmo e Nunca Desista de Seus Sonhos, publicados pela Sextante. Pós-graduado em Psicologia Social, com pesquisa na Espanha na área de Ciências da Educação, é fundador da Academia de Inteligência, um instituto que promove seminários, cursos e treinamento sobre qualidade de vida e desenvolvimento da inteligência lógica, emocional e multifocal para empresas, profissionais liberais, educadores, psicólogos e público em geral. Ele também é autor de Inteligência Multifocal (Editora Cultrix), Treinando a Emoção para Ser Feliz e da coleção Análise da Inteligência de Cristo, publicados pela Editora Academia de Inteligência.


Código da Inteligência, O
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Por que é preciso despistar a literatura


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Nada como abrir a caixa de mensagens (no computador, no celular ou mesmo aquela incrustada no muro de casa) e ler uma boa notícia. É um evento, uma delícia, um suspiro aliviante. Risinhos caem pelos cantos da boca. Um ventinho sopra a franja de que tem. Ah! (E este "ah" tem que ter "H".) Como a vida é boa.

E outro dia, não faz muito tempo, abri um e-mail cheio dessas delicinhas. Era o organizador do livro Como se não houvesse amanhã (Record, 2010, 160 págs.), o corajoso e empreendedor carioca Henrique Rodrigues, dando a boa nova. Em poucas e intensas linhas, dizia ele que o livro já ia para a terceira edição (rapidíssimo para uma obra de literatura escrita por jovens autores contemporâneos) e que fora aprovada pelos professores, ou seja, figuraria nas listas a serem lidas nas salas de aula, por alunos sedentos por contos.

De uma só tacada, a feliz editora dona do passe da coletânia deveria imprimir aí mais de quinze mil exemplares da obra para ser vendida ao governo e chegar aos professores. Estes, por sua vez, devem arrancar de seus lumes criativos as melhores atividades possíveis para que os alunos leiam mesmo o material e curtam a relação música/conto proposta ali.

Melhor alinhavar isto direito. É que Como se não houvesse amanhã é uma coletânea de contos de autores contemporâneos (todos vivos, diga-se de passagem). Os contos são inspirados (às vezes mais, às vezes menos do que isso) em músicas da banda Legião Urbana, uma das mais marcantes do rock nacional das últimas décadas. Cada autor, a convite do organizador, escolheu um hit (ou menos hit) e arranjou seu método de escrever um conto baseado na canção. Houve quem pinçasse logo "Eduardo e Mônica", faixa de trabalho do álbum Dois, conhecida até mesmo dos filhos (quiçá netos) da geração que curtiu o lançamento do vinil de capa bege nos anos 1980. É claro que os contos que se inspiraram em canções dessa estirpe são mais citados nas matérias de revistas e jornais.

Outros autores atacaram de músicas de fã, ou seja, aquelas que o grande público não conheceu, mas que tocaram nas vitrolas dos fãs de carteirinha. É o caso de "Andréa Dória", que escolhi por me lembrar dos momentos de emoção que a letra me provocava e das infinitas frases copiadas nas agendas e nos diários.

Que articulações um projeto assim sugere aos professores (mais de quinze mil) e suas salas de aula? Por que a literatura anda precisando destas fantasias ou destes outros trajes? Ou ela sempre precisou?

Para se ter uma ideia, Henrique Rodrigues anda recebendo e-mails de professores que vêm lhe contar da adesão dos alunos à leitura da obra. Depoimentos de leitores apaixonados pela Legião, antes a Urbana, agora a de autores que ali estão, como se tocassem novamente, com outros instrumentos, aquelas canções que Renato Russo disparava por aí. Como se não houvesse amanhã conquistou não apenas a terceira edição, mas o primeiro lugar na escolha dos professores, deixando em segundo um Nelson Motta. E mais: desbancando top hits como Manoel de Barros e Stanislaw Ponte Preta.

Como poderíamos ler esse acontecimento? É claro: não apenas como uma trilha que liga leitores a livros, o que já é, sem dúvida, ótimo, mas como uma trilha tortuosa que faz esse milagre aí. Explico: tortuosa porque somos um país de poucos livros por cabeça/ano. Para que a média suba um pouquinho, é preciso juntar todo tipo de leitura no mesmo bolo, o que não é incomum nas pesquisas sobre o tema, mesmo em outros países. Lemos jornais, revistas, quadrinhos, a Bíblia, o Corão, os Vedas, flyer, panfleto, e-mail e livros (de autoajuda, de receitas e de literatura, desde que ela se pareça com outra coisa). É isso?

Se somos um país de poucos livros/cabeça/ano, por que é que somos uma das maiores potências editoriais do mundo? É isso mesmo. Coisa de quinto ou oitavo lugar, a depender de quem fez a pesquisa. Como é que pode? Mas pode. É que o governo compra a maior parte dos livros e os distribui aos leitores (quase leitores, pseudoleitores, semileitores, megaleitores, hiperleitores, hipoleitores etc.). É mais ou menos como aquela cobra que come o próprio rabo. Mas até que funciona. Pelo menos os professores podem escolher os livros que acham mais bacanas e levá-los para as salas de aula. Ou emprestá-los aos alunos. Ou produzir mais contos sob a influência destes. Ou pensar projetos com foco na música (e a literatura pega os adolescentes de assalto). Pelo menos isto: a escola continua funcionando como um forte (e quase solitário) espaço no qual as pessoas têm seus rudimentos de cultura literária (alguns diriam letramento literário).

Ao menos as esferas do governo implementam planos como o Biblioteca do Professor ou projetos que visam a forçar essa rede livro-leitor-leitura, que deveria ser um ciclo infinito (e nem sempre é). E por que eu disse "ao menos"? Porque, como todo mundo não se cansa de dizer, em média, o professor brasileiro não tem o melhor salário do mundo. Comprar livro fica depois, bem depois, de pagar as contas.

Até que Como se não houvesse amanhã também não é dos livros mais caros do planeta. Na Livraria Cultura, ele custa R$ 32,90, mas sai, na promoção, por R$ 26,32. Como não bebo cerveja, preciso consultar alguém para ver como fica a conversão: isso dá umas dez ou doze cervejas, dependendo do boteco? É por aí. Questão de decidir o que é melhor para o momento.

O que os jovens leitores querem com este livro? O que o professor vislumbrou? Aposto que o raciocínio foi algo assim: "vou articular os contos às canções e meus alunos ficarão mais interessados" ou, em toscas palavras, "eba, vou poder enganar a moçada. Pensam que vão ouvir música, mas estarão lendo".

Mas o fato é que há quem realmente goste do livro, inclusive entre a garotada. No meio da multidão, eis que uma menina aponta a bela narrativa baseada em "Quando o sol bater na janela do seu quarto". Ou em "Pais e filhos", um quase blues que emociona. E um outro leitor, mais proficiente, posta em seu blog um exercício literário inspirado no livro. Ele percebe a falta da canção "Índios" e dá sua contribuição.

Mas minha questão não passa de uma digressão. Meu título não é bem uma pergunta (e seria retórica, se fosse). É apenas um desses pensamentos que passam rapidinho e se vão. É preciso despistar a literatura, vesti-la com canções, fantasias, adornos, badulaques, apetrechos, penduricalhos, maquiagens, berloques, máscara e touca ninja. Afinal, ninguém quer parar para contemplar, ouvir mentalmente a leitura dos textos literários. Dói menos quando a leitura se parece com outra coisa.

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O exército, o político, o morro e a morte

Às seis horas da manhã de 14 de junho de 2008, os amigos David Florêncio, Wellington Gonzaga e Marcos Paulo Campos desceram do táxi, na praça Américo Brum, no alto do morro da Providência - a favela mais antiga do Rio de Janeiro. Chegavam de um baile funk.


Das manchetes ao esquecimento: o caso Providência faz dois anos

Os rapazes, moradores da comunidade, falavam alto e riam, chamando a atenção dos comerciantes que abriam suas lojas ainda com o céu escuro. Do outro lado da praça, um grupo de militares do Exército - que havia seis meses patrulhava a área como parte da estratégia de segurança do Cimento Social, um projeto de reforma de casas populares -, também se virou para acompanhar o burburinho.

Como o táxi continuava estacionado, um dos soldados ventilou a hipótese de que os jovens dariam calote no motorista. Resolveram averiguar a situação. Onze homens fardados e armados com pistolas e fuzis caminharam em direção ao veículo.

Foi quando um dos militares enxergou um objeto bojudo e suspeito na cintura de um dos rapazes e fez sinal aos colegas. Como em uma coreografia ensaiada, o grupo levou as mãos aos coldres e passou a gritar, produzindo uma torrente confusa de ordens. Os jovens entenderam que precisavam se encostar no muro para serem revistados.

Protestaram. Argumentaram que eram moradores da favela, que os militares os conheciam havia tempo e que eram pessoas "de bem". Um dos três ainda emendou: "Vocês não mandam aqui!"

Os soldados seguiam berrando para que os jovens abrissem as pernas, levantassem os braços e se colassem à parede. Diante da cena, o taxista, que recebera pela corrida, partiu acelerando o carro.

Dez minutos se passaram e o bate-boca seguia inflamado. A essa altura, moradores e transeuntes compunham uma plateia aturdida. Alguém de dentro da padaria gritou: "Mostra logo para eles que vocês não têm nada e pronto."

Como se estivessem em câmera lenta - resultado provável do consumo excessivo de álcool durante a noitada -, os rapazes finalmente levaram as mãos à nuca. O movimento fez com que a camiseta de um deles se levantasse revelando a natureza do objeto bojudo e suspeito: era um celular.

De acordo com testemunhas, alguns soldados se entreolharam. O excesso contra os jovens de celular os deixara claramente desconfortáveis. Um dos militares subiu a voz. Disse que, ainda assim, os três seriam levados para "averiguações" na base militar recém-instalada no bairro do Santo Cristo, aos pés do morro da Providência - o que deflagrou um novo embate verbal.

Os rapazes xingavam, faziam gestos obscenos e os soldados davam o troco na mesma moeda. No meio da confusão, um dos jovens se desvencilhou do cerco militar e saiu correndo, seguido pelos dois amigos. Tentavam entrar no beco que os levaria para casa - uma viela escura de menos de 2 metros de largura que desembocava num emaranhado de barracos.

Com as armas em punho e sob o olhar estupefato dos espectadores, os militares iniciaram uma perseguição. O tenente Vinícius Ghidetti, um capixaba de 25 anos, casado e com um filho de 2 meses, comandava a operação. Enquanto corria, levantou o braço e atirou para o alto. O disparo fez com que moradores se jogassem no chão, passantes se escondessem atrás de muretas e os curiosos - que já somavam mais de cinquenta pessoas - escapassem para dentro das lojas.

Os três rapazes foram capturados e levados de volta à praça. Zé do Guaraná, um paraibano que vive na Providência há quatro décadas e é dono de uma loja de materiais de construção, ainda guarda detalhes. "O Marcos Paulo tentou se distanciar do grupo, mas um soldado negro e alto puxou ele de volta e ficou dizendo: 'Não! Não! Você fica aqui também'", contou.

Durante uma hora, os rapazes permaneceram sentados no chão, sob o bulício revoltado dos moradores, à espera do jipe oficial que os levaria para a base militar, onde seria checado se tinham pendências com a Justiça. Foi nessa situação que Bárbara Gonzaga, uma jovem magra de cabelos frisados, viu seu irmão, Wellington, pela última vez.

"Quando cheguei perto, um soldado me disse: 'Pode se despedir dele. Pode se despedir'", contou, numa manhã recente, na sala de sua casa, no coração da Providência.

Às 7h30, David, Wellington e Marcos Paulo entraram no jipe. Os presentes ouviram quando os militares disseram que em breve os três estariam de volta. "Quando o jipe desapareceu pela ladeira, fiquei desesperada. Senti uma coisa muito ruim", lembrou Bárbara.

A informação de que três jovens tinham sido detidos levou um átimo para cruzar a favela. Desde a chegada dos 290 militares ao morro da Providência, dezoito episódios de desacato - média de quase um por semana - haviam sido registrados. O clima amistoso entre Exército e moradores parecia ser mais uma quimera das autoridades, própria para consumo externo, do que a realidade cotidiana da favela.

David, Wellington e Marcos Paulo eram vizinhos. Quem os visse juntos, poderia tomá-los por irmãos. O corte de cabelo era igual - curto, raspado a máquina -, a altura era semelhante e as roupas, parecidas.

O mais velho era David. Tinha 24 anos e cursava à noite o último ano do ensino médio. Durante o dia, trabalhava numa lan house. Aos 19 anos, Wellington concluía o 2º ano do ensino médio na mesma escola. Fazia bicos como contínuo, entregador de pizza e garçom. Ambos tinham passagem pela polícia. Quando ainda não tinham completado 18 anos, Wellington fora apreendido por associação ao tráfico e David, por porte de arma e corrupção de menores. Marcos Paulo tinha 17 anos e a ficha limpa. Estava na 7ª série.

Às 8 horas, o tenente Vinícius Ghidetti chegou à base militar do Santo Cristo trazendo consigo os três jovens. Ali, encontrou-se com o capitão Laerte Ferrari, a quem relatou o ocorrido. Ghidetti sugeriu a seu superior que enquadrasse os rapazes por crime de desacato a autoridade.

O capitão

Ferrari mandou o tenente ignorar o episódio e soltar os jovens. Ghidetti bateu continência sem disfarçar a contrariedade. Naquele momento, lembrou-se do que lera no documento confidencial elaborado pelo Exército durante o período de planejamento da operação na Providência. "Nenhuma fração da Força Terrestre pode ser derrotada e o Exército Brasileiro não pode ser desmoralizado."

Meses depois, Ghidetti explicou a razão pela qual decidira não acatar a ordem do seu superior. Livrar os jovens de uma repreensão que lhe parecia merecida poderia afetar o moral e o prestígio da tropa junto aos moradores da favela. Foi assim que, segundo afirmou em juízo, decidiu que David, Wellington e Marcos Paulo mereciam uma lição.

Horas antes, assim que o jipe saiu de seu campo de visão, Bárbara Gonzaga correu para avisar sua mãe, Lílian, sobre Wellington. Lílian, de 43 anos, que na hora fazia a faxina da Vila Olímpica da Gamboa, largou o serviço e foi uma das primeiras pessoas a chegar à base militar onde estavam seu filho e os dois amigos.

Da cancela, era possível enxergá-los ainda no pátio. "Eu vi os soldados obrigando os meninos a sentar e levantar milhares de vezes, só de maldade. Gritei pra eles liberarem os garotos, mas eles me ignoraram." Segundo Lílian, seu filho estava arranhado e com a blusa rasgada.

Benedita Monteiro, avó de David, uma cearense de 70 anos e de pele vincada, ainda dormia quando soube que seu neto predileto havia sido capturado pelo Exército. Teve tempo apenas de calçar os chinelos antes de sair a sua procura. "O que vocês fizeram com o meu menino?", perguntou ao primeiro homem fardado que cruzou no caminho. "Não se preocupe, tia. Eles foram fazer uma averiguação e já voltam", respondeu o soldado.

Ao chegar em frente à base do Santo Cristo, ela foi recebida com hostilidade. "Os militares atiçavam uns bichões enormes contra a gente", disse. Bichões, explicou, eram cachorros.

Maria de Fátima Barbosa, de 50 anos, criara Marcos Paulo desde que ele tinha 6 anos. A avó do menino falecera e ela, como vizinha, assumira para si a responsabilidade. "Desde então, cuidei dele como se tivesse saído de mim", contou. Também estava deitada quando soube do ocorrido. Mandou sua filha mais velha ir atrás da história.

Por volta das 9 horas, cerca de cinquenta pessoas se aglomeravam no portão da base militar para exigir a libertação dos rapazes. Gritavam, xingavam e pediam clemência. O tenente Vinícius Ghidetti ignorou os protestos. Reuniu sua tropa e mandou que subisse num caminhão onde já estavam os jovens.

Os rapazes se equilibravam na boleia do veículo quando Ghidetti avisou: "Vou escrever 'cv' na testa de vocês", referindo-se à sigla do Comando Vermelho, a facção criminosa que domina a Providência. Segundos depois, aprimorou a ideia. Disse que os largaria num morro controlado por um grupo rival. Para bom entendedor, aquilo tinha o peso de uma sentença de morte.

Ghidetti mandou chamar um colega que conhecesse a geopolítica da violência local. Foi informado de que a favela da Mineira - a dois passos do Sambódromo, como se pode constatar pelos desfiles de escola de samba - era controlada pela Amigos dos Amigos, a ada, inimiga intestina do Comando Vermelho.

Ordenou ao motorista que deixasse a base pelos fundos, de modo a evitar a multidão. Cruzou novamente com o capitão Ferrari, que se surpreendeu com o fato de os rapazes ainda estarem por ali. O capitão quis saber por que sua ordem não fora cumprida.

Ghidetti explicou suas razões: soltar os rapazes na base pareceria concessão à pressão das famílias, o que seria vexaminoso. Ele os liberaria "um pouco mais à frente". O chefe se deu por satisfeito e autorizou a passagem do veículo.

Em dez minutos, o caminhão do Exército chegou ao morro da Mineira. Segundo o relato de Ghidetti, no trajeto ele chegou a perguntar aos jovens se estavam arrependidos por terem desacatado a tropa, mas, como "não obteve respostas satisfatórias", determinou que o motorista seguisse para as vielas da favela.

Não tardou para que o veículo fosse parado por traficantes armados. Em seu depoimento ao Conselho Especial de Justiça, Ghidetti classificou o encontro com os criminosos como "contato fortuito". Segundo disse, jamais havia falado ou visto qualquer um deles. A prova seria o fato de terem ficado sob a mira dos bandidos até um sargento descer do caminhão e esclarecer que não haveria conflito.

De acordo com o relato de pelo menos três integrantes do pelotão, Ghidetti começou o diálogo com os traficantes avisando que trazia "um presentinho". O tenente nega veementemente a frase. Diz também ser falsa a informação de que teria feito um acordo com a facção Amigos dos Amigos para "vender" os jovens, como chegou a ser divulgado à época.

Entretanto, reconhece ter informado que os rapazes eram da Providência e mereciam um "susto". De acordo com o testemunho de alguns soldados, a conversa foi encerrada com um aperto de mão entre um dos chefes do crime organizado local e o tenente Ghidetti, que se despediu dizendo: "Valeu."

Assistindo à cena, apavorados, os jovens tentaram fugir, mas foram capturados com facilidade. Não tinham escolha. De um lado, havia as armas dos criminosos. Do outro, as do Exército Brasileiro. Ficaram com os traficantes.

A tropa tomou o caminho de volta. Ao chegar à base, os familiares ainda protestavam. Ghidetti mandou que seus soldados informassem que os rapazes tinham sido soltos no centro da cidade. Ao pelotão, pediu discrição sobre o episódio.

Anoitecia e ainda não havia notícias de David, Wellington e Marcos Paulo. As famílias tinham passado o dia peregrinando por hospitais, delegacias e andando a esmo pelo centro da cidade.

Uma vizinha de Maria de Fátima, a tutora de Marcos Paulo, recebeu o telefonema de uma prima, moradora do morro da Mineira. Ela dizia que três garotos "de fora do morro" tinham sido vistos por lá. Alguém da família de Wellington resolveu ligar para o tal objeto bojudo e suspeito. Do outro lado da linha, uma voz atendeu: "Já perdeu. Tá morto." A notícia se espalhou rapidamente pela comunidade.

Minutos depois, mais de 100 pessoas se concentravam na praça Américo Brum. Os militares pediram reforço e subiram em um coreto para se proteger da multidão, que atirava pedras e garrafas. Revidaram com tiros para o alto.

A vereadora Líliam Sá, do Partido da República, cujo rosto podia ser visto nos cartazes que dominavam o entorno da praça, foi chamada às pressas, mas acabou também sendo alvo do gás de pimenta lançado pelos soldados. A confusão varou a madrugada.

O delegado Ricardo Dominguez, responsável pela 4ª dp, lanchava com seus trigêmeos quando foi avisado de que o posto policial estava tomado por familiares de três jovens da Providência que estavam desaparecidos. Ouviu que as pessoas insistiam em envolver o Exército no desaparecimento.

Dominguez, um homem alto, de cabelos bem penteados e pele levemente rosada, entendeu a gravidade do assunto. Ao chegar à delegacia, começou as investigações. Foi pessoalmente à sede do Comando Militar do Leste, a instância máxima do Exército na capital.

Ali, deu de cara com os onze membros do pelotão do tenente Vinícius Ghidetti, que começavam a amargar uma detenção administrativa por haver desobedecido à ordem para soltar os rapazes. Interrogou-os um por um ao longo da madrugada. "Era tarde quando obtive a confissão do tenente. Sem qualquer sinal de remorso, ele me contou que havia deixado os jovens na Mineira para que os traficantes lhes dessem um susto", lembrou. "Mas, até ali, não havia corpos. Não se falava em homicídio."

Naquela noite, o Disque-Denúncia recebeu sete informações importantes sobre o caso. A partir delas, foi possível reconstituir as últimas horas de David, Wellington e Marcos Paulo.

Para morrer, basta que o indivíduo cruze a fronteira entre duas facções criminosas rivais. Na esquina das ruas Emília Guimarães e Van Erven, diante de vários moradores da Mineira, os três jovens foram baleados depois de serem brutalmente espancados e torturados. Os corpos foram jogados numa caçamba de lixo da praça Doutor Roberto, que a Comlurb recolheu sem saber o que continha.

Nas primeiras horas da manhã seguinte, o delegado Dominguez recebeu um telefonema de um colega do posto policial de Duque de Caxias. Foi informado de que três corpos tinham sido encontrados em Gramacho, no maior aterro sanitário da América Latina, uma montanha fétida que recebe diariamente 9 mil toneladas de dejetos urbanos.

Dominguez ligou para um dos familiares dos rapazes. "Quando atenderam, me identifiquei e perguntei onde estavam. Disseram-me que estavam protestando em frente à base militar do Santo Cristo. Na hora, hesitei. Não queria causar mais tumulto, mas resolvi dizer: 'Olha, desculpa, acharam os corpos.'"

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal, Wellington tinha "19 pafs", sigla para perfuração por arma de fogo. Um dos tiros estraçalhou seu olho direito. As mãos foram amarradas com fios de náilon que abriram sulcos profundos nos pulsos. Um plástico transparente envolvia o pescoço e a cabeça, de onde escorriam pedaços do cérebro. "Nota-se destruição total da massa encefálica e tronco-cerebral, descolada da dura-máter", escreveu o legista, referindo-se à membrana mais extensa, espessa e fibrosa do cérebro.

David levou 26 tiros e foi amarrado com fios de telefone e cordas de sisal. As pernas tinham diversas fraturas, e o crânio fora fatalmente atingido. O menor Marcos Paulo morreu com dois disparos à queima-roupa.

A Associação de Moradores da Providência e organizações não governamentais dispararam telefonemas para a imprensa e para políticos locais, com o intuito de engrossar o protesto iniciado na porta da base. De lá, o grupo marchou até o prédio do Comando Militar do Leste gritando palavras de ordem. "Ah! Ah! Quem matou vai pagar", "Justiça! Justiça!" No meio do caminho, os manifestantes cruzaram com um jipe do Exército, que se viu obrigado a dar marcha a ré e se retirar do local.

No dia seguinte, às seis da tarde, os jovens foram enterrados. Uma hora depois, o Rio de Janeiro testemunharia um dos protestos populares mais violentos de que se tem notícia. Cerca de 300 pessoas atacaram a sede do Comando Militar do Leste com paus, pedras, cartazes, garrafas e até coroas de flores trazidas do cemitério.

Do alto do edifício, os soldados apontavam suas armas para a multidão. Usaram bombas de efeito moral, balas de borracha e gás lacrimogênio para conter o tumulto. O trânsito de algumas ruas e a saída do terminal rodoviário que liga o Centro à Baixada Fluminense foram interrompidos. Houve quebra-quebra de carros, queima de ônibus e saques. A desordem só chegou ao fim no meio da madrugada.

David, Wellington e Marcos Paulo não puderam ser enterrados no cemitério do Caju, o mais próximo de suas casas - no Rio, cemitérios também se dividem entre facções criminosas. O Caju é área exclusiva da Amigos dos Amigos. Os três corpos foram levados para o São João Batista, na Zona Sul da cidade.

Segundo a avó de David, Benedita Monteiro, o enterro dos três - que custou 6 mil reais - foi pago pelos traficantes da Providência. "O dono do morro ligou para a irmã dele, que é quem está no lugar dele enquanto ele está preso, e disse que o movimento não podia agir como se nada tivesse acontecido." Era hora de mostrar apoio às mães e, sobretudo, repúdio total ao Exército e à rival ada. Os parentes de Wellington e Marcos Paulo negam essa versão.

Os meninos foram enterrados em caixão de madeira de lei. Um cortejo os acompanhou até o cemitério: sete ônibus, dezenas de kombis e inúmeras motos com cartazes afixados em que se lia: "A minha infelicidade é ter votado em você, Lula e Cesar Maia" e também: "Crivella, anjo mau".

No início do ano anterior, 2007, parlamentares do prb, o partido do vice-presidente José Alencar e do senador Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, tinham uma audiência agendada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tratariam de assuntos de praxe, como coli-
gações e cargos.

Na primeira brecha, Crivella pediu a palavra. Tirou da pasta uma fotografia do morro da Providência alterada por Photoshop. Nela, via-se a favela com barracos decadentes ao lado de casas remodeladas, com fachadas refeitas e telhados novos. "Presidente", disse o senador, "a Providência pode ficar assim."

Crivella vendia diretamente ao governo federal o diamante de sua próxima campanha eleitoral: o projeto Cimento Social. A proposta previa a recuperação de 782 casas da favela. Tetos e janelas seriam trocados e paredes, repintadas. Os barracos seriam revestidos com placas pré-moldadas de 1 centímetro de espessura feitas com uma argamassa patenteada pela Universidade de São Paulo que duraria "mil anos".

Pelo projeto, as novas estruturas resistiriam "ao impacto de balas de até 7,5 milímetros de calibre, a uma distância mínima de 20 metros". Também se previa a implantação de um sistema de esgoto, a instalação de centros comunitários, creches, postes de iluminação e a criação de um sistema de proteção para a rede elétrica e telefônica. Por último, a área seria reflorestada.

Numa tarde recente, Crivella falou da reunião ocorrida há três anos. Segundo disse, o presidente Lula comprou a ideia "no ato" e convocou engenheiros do Ministério das Cidades para ouvir a proposta do senador.

Dias depois, Crivella sobrevoaria de helicóptero a favela carioca em companhia de Ambrosino de Serpa Coutinho, engenheiro da Secretaria de Habitação do Ministério das Cidades. Em 2008, Crivella foi lançado candidato do prb à prefeitura do Rio, com o apoio do presidente Lula.

No meio do caminho do Cimento Social, havia Cesar Maia, um obstáculo barulhento e de peso. O então prefeito passou a dizer que a remodelação das casas na Providência não passava de promessa eleitoreira feita às vésperas de um pleito relevante. Queria impugnar a licitação pública das obras.

A reação do Palácio do Planalto foi imediata. Em vez de ser submetido aos trâmites usuais de um projeto público - envio de carta-consulta e cumprimento de todas as etapas burocráticas previstas em lei -, o governo federal acolheu a ideia de Crivella por meio de uma emenda parlamentar apresentada pelo próprio senador.

Em vez de o contrato de repasse de verbas, no valor de 12 milhões de reais, ser firmado entre o Ministério das Cidades e a prefeitura - como seria o usual - estabeleceu-se um acordo de cooperação técnica entre o Ministério das Cidades e o da Defesa. Desse modo, foram dispensados o envolvimento da prefeitura carioca e a fiscalização da Caixa Econômica Federal, a quem compete controlar o uso de recursos públicos em obras de habitação popular.

"Usar o Exército na proteção dos canteiros era a única alternativa viável", explicou Crivella, numa tarde de maio no plenário do Senado, em Brasília. "As polícias do Rio não tinham gente suficiente nem interesse político para executar aquilo", acrescentou.

Quando relembrou o caso da Providência, Crivella lançou o olhar para longe, e ficou assim, como se tomado pela tristeza. Depois de um silêncio, disse que a morte dos três jovens era "uma desgraça". Perguntado sobre quem teria dado a ordem final autorizando a ocupação da favela pelas tropas durante as obras do Cimento Social, ele respondeu sem titubear: "O Lula. O presidente Lula."

Desde a Grécia Clássica se discute se os militares devem ou não atuar dentro das fronteiras do país que defendem. Em A República, Platão sustenta que não, sob pena de comprometer a própria existência do Estado. Na Roma Antiga, os generais evitavam entrar na cidade com suas tropas. Acampavam além do Rubicão, um riacho fora dos muros, como um ato de respeito ao Senado e à polis, que tinha sua organização e dinâmica próprias. Quando em 49 a.C, o general Júlio César resolve violar o entendimento tácito, o resultado é conhecido: a República se transforma em Império, e o cidadão romano é alijado do poder.

Em países como os Estados Unidos, as Forças Armadas costumam ser mantidas à distância dos assuntos internos. Em setembro de 2006, quando o então presidente George W. Bush quis enviar tropas militares a uma Nova Orleans destruída pelo furacão Katrina, precisou de uma manobra política para convencer os congressistas a alterar uma lei que datava do século xix. Desde então, o Exército tem autorização para atuar dentro das fronteiras nacionais em situações de emergência decorrentes de desastres naturais, epidemias ou ataques terroristas. E só.

Pela Constituição brasileira, se o país não estiver em guerra ou vivendo sob estado de sítio ou de defesa, Exército, Marinha e Aeronáutica podem ser requisitados para agir nas questões de segurança pública mediante a assinatura de um decreto presidencial, mas somente se os órgãos responsáveis pela ordem - as polícias federais, civis, militares e os Corpos de Bombeiros militares estiverem "indisponíveis, inexistentes ou insuficientes".

No livro O Uso Político das Forças Armadas e Outras Questões Militares, o coordenador do Centro de Estudos de Direito Militar, o promotor militar João Arruda, mostra que, entre 1994 e 2004, o Exército atuou em operações que descaracterizam sua função, como a destruição de plantações de maconha ou a expulsão dos sem-terra da fazenda do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

"O que se tem observado nos últimos anos é a banalização do emprego das Forças Armadas para enfrentar problemas policiais (...) estão transformando os militares em uma versão atualizada de capitães do mato."

Durante o governo Lula, foi criada a Força Nacional de Segurança Pública, constituída por policiais militares e federais. Um dos objetivos era estabelecer uma força que substituísse o Exército nas tarefas cada vez mais constantes a que era chamado a participar. Entretanto, em dezembro de 2007, quando se decidiu que a manutenção da ordem nas obras do Cimento Social ficaria a cargo do Exército, a opção não foi sequer cogitada.

Na ocasião em que os militares ocuparam a Providência, não existia qualquer decreto ou solicitação formal assinada pelo presidente Lula. Na melhor das hipóteses, havia uma autorização verbal. O Congresso tampouco fora informado. E as polícias do Rio não tinham decretado falência nem tinham sido declaradas incapazes. Mesmo assim, as tropas começaram a agir. O acordo de cooperação interministerial que validaria a operação só seria assinado quase dois meses depois.

À época do assassinato dos jovens, o Centro de Comunicação Social do Exército emitiu notas sucessivas à imprensa alegando que a presença das tropas se enquadrava nos preceitos de uma "ação subsidiária". É a expressão usada quando soldados ajudam nas campanhas de vacinação e em dias de eleição.

No início de maio, o general Luiz Cesário da Silveira Filho, número 1 do Comando Militar do Leste à época das obras do Cimento Social, participava de um evento promovido pelo oficialato carioca. Entre apertos de mão, lembrou-se de quando foi avisado por telefone pelo comandante geral do Exército, Enzo Peri, que o senador Crivella o procuraria para tratar do projeto da Providência.

"Ele me pediu que o recebesse bem e assim o fiz", disse. "Mas, quando o senador me contou seus planos, avisei: lá tem drogas e o Exército não convive com o ilícito." Segundo o general Cesário, o político pareceu não se importar com o aviso e insistiu que era possível fazer a obra sem nenhum tiro se a associação de moradores fosse envolvida na empreitada. "Na hora, sugeri que ele voltasse à Brasília", lembrou o militar.

Nos meses que se seguiram, o general produziu alguns informes sobre o risco de uma operação militar no morro da Providência. Ele sabia que, pela posição geográfica e pelos altos índices de criminalidade na área, a operação acabaria tomando contornos de ocupação militar. Mesmo assim, recebeu ordens superiores para tocar a missão.

Nove dias depois do crime, o presidente Lula se encontrou com a avó e as duas mães dos rapazes e prometeu indenizar as famílias rapidamente. Na semana seguinte, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, anunciou a possibilidade de a União conceder uma pensão vitalícia no valor de um salário mínimo às vítimas. O valor foi considerado risível pelas famílias, que mantiveram uma ação indenizatória contra o Estado correndo na Justiça. No Superior Tribunal de Justiça, a praxe tem sido decretar indenizações de cerca de 500 salários mínimos em casos semelhantes.

Nos dois anos que se seguiram, no entanto, só foram cumpridos dois de cinco mandados de prisão emitidos contra criminosos do morro da Mineira. O governador Sérgio Cabral chegou a justificar a morosidade da polícia, alegando que os policiais não "faziam mágica".

Em agosto de 2008, a Justiça Federal determinou que a União pagasse um salário mínimo às famílias de David e de Wellington - como Marcos Paulo nunca foi formalmente adotado, sua mãe de criação foi excluída - como antecipação de tutela, figura jurídica que antecede a sentença. Em abril, ciente de que os familiares ainda não haviam recebido nada, o juiz solicitou comprovação do cumprimento de sua determinação. Até o mês passado, não recebera resposta.

Pouco antes, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio embargou as obras do Cimento Social por suspeita de viés eleitoreiro em favor do senador Marcelo Crivella. Até aquele dia, o 194º da operação, só trinta das 782 casas prometidas haviam sido reformadas.

Crivella disse ter tirado 800 mil reais do próprio bolso para concluir parte das obras abandonadas. Segundo ele, o projeto chegou à marca de 100 residências renovadas. Quem visita o morro, no entanto, tem dificuldade em apontar mais de vinte.

O senador também comprou um terreno na parte baixa da Providência e contratou operários para, em três dias, construir um minicondomínio. No total, gastou 100 mil reais. Cercou o espaço com grades de ferro, ergueu três casas de dois pisos num terreno plano em forma de T e instalou um portão para carros numa viela estreita demais para a passagem de veículos.

A construção foi batizada de "Vila Zé Alencar e Dona Marisa". Ali, moram as famílias dos três jovens assassinados. A irmã de Wellington, Bárbara, riu quando perguntei se as paredes eram mesmo resistentes a tiros. Ela se levantou e apontou para o ar-condicionado. "Eu fiz esse buraco com a ajuda de uma faca de cozinha", disse. Com a ponta dos dedos, mostrou que a parede se esfarela ao toque.

Era final de tarde quando Fátima, que criou Marcos Paulo, comentou: "Gente, todo mundo se esqueceu de nós... Agora a única coisa que importa é essa tal de upp [Unidade de Polícia Pacificadora]." Olhando para três policiais que conversavam na esquina de sua casa, ponderou: "Eu só queria que me dissessem por que eu devo acreditar que essa polícia pacificadora aí vai dar certo..." Apesar dos fuzis e das pistolas, as upps são compostas por policiais militares que recebem treinamento específico e são amparados pela Constituição para atuar na garantia da segurança pública.

Há dois anos, o tenente Ghidetti está preso numa cela do 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca, Zona Norte do Rio. O primeiro ano serviu para ele cumprir a única sentença que já recebeu, no caso, da Justiça Militar - 365 dias de cadeia por insubordinação ao capitão Ferrari. O segundo ano tem sido de espera ao pronunciamento da Justiça Federal. Recentemente, soube que será julgado por triplo homicídio num tribunal do júri. A data ainda não foi marcada.

Ghidetti nunca deu entrevistas, mas enviou para esta reportagem uma carta na qual conta como foi a sua infância e adolescência. Numa folha de papel pautado, ele descreve, em letra de forma, a rotina de um jovem pobre, ambicioso e dedicado à vida militar. Em Nova Venécia, cidade do Espírito Santo onde foi criado, ex-professores falam dele como um menino de boas notas que queria ser astronauta.

Marcelo Crivella, candidato à reeleição para o Senado, está em primeiro lugar nas pesquisas, com 40% das intenções de voto. Mais uma vez, conta com o apoio do presidente Lula.

Fonte: Revista Piaui

A pedagogia da fofoca

Pouco antes do Carnaval, a carioca Roberta Escansette aproximou-se do balcão de atendimento da Biblioteca Nacional, no centro do Rio de Janeiro, e, equilibrando os óculos de aro fino na ponta do nariz, pediu: "Quero tudo sobre teatro grego." Em seguida, e para estupefação dos funcionários que a observavam, pediu mais: "Quero também todos os documentos sobre a história do rádio, das rádio novelas, das revistas brasileiras e da televisão." Passou então dias e dias no edifício neoclássico da Cinelândia. Estudou as origens do mito - de Ésquilo a Aristófanes -, descobriu que o ator Téspis é o mais antigo ancestral de Brad Pitt e saiu de lá com uma certeza inabalável: oitenta horas é tempo mais que suficiente para ensinar um homo sapiens a ser repórter de celebridade.

Com um lápis afiado na ponta dos dedos, a erudição acumulada no cérebro e o conteúdo teórico estalando as sinapses, Escansette se debruçou sobre seus dez anos de jornalismo de fofoca e, em instantes, voilà!, sistematizou os vinte mandamentos da reportagem de celebridade. O documento era um compêndio de tudo, absolutamente tudo que um indivíduo precisa saber para escrever com esmero e rigor sobre temas como o décimo quinto casamento de Bruno Gagliasso ou as vicissitudes da última namorada esbofeteada de Dado Dolabella. Quando chegou ao fim da lista, comemorou. Nascia ali a ementa do primeiro curso de extensão sobre jornalismo de celebridade da história deste país.

Sentada numa lanchonete de um shopping do Rio, a morena de 28 anos que circula pela noite carioca como frila da revista Caras defendeu sua iniciativa como quem defende religião: "Estou cansada desse preconceito com o repórter de celebridade. É uma profissão honrada, que paga as contas. Descobri uma oportunidade, e a Facha resolveu investir num nicho de mercado que merece atenção." Por Facha, leia-se Faculdades Integradas Hélio Alonso, uma universidade com dois campi no Rio. Como o -Supremo Tribunal Federal determinou, em 2009, que diploma não faz falta em redação nenhuma - que dirá, então, certificado de curso de extensão -, Escansette sabe que a briga é ladeira acima. Mas a moça está confiante. No sábado, dia 10 de abril, às 8h30, ela estará a postos, de giz em punho, para receber quem estiver disposto a desembolsar 2.250 reais por 80 horas de expertise em notoriedade.

Enquanto esperava uma Coca-Cola que nunca chegaria, ela topou revelar alguns dos tópicos que abordará em sala de aula. Antes, porém, esclareceu que seu currículo é sólido. Se estava ali, era tão-somente porque havia sido setorista - o repórter que cobre um único assunto - de Giovana Antonelli, Vera Fischer, Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos, o cantor. "Eles me ensinaram tudo!", disse com sentimento.

O mandamento supremo é este: "Na agenda do jornalista de celebridade tem que constar o telefone dos famosos e também dos assessores deles - maquiadores, cabeleireiros, assistentes de produção, figurinistas etc." Ela explica: "Esse pessoal do segundo escalão é valioso. Eles costumam ser humilhados, maltratados, e aí descontam passando informação sobre as celebrities ou sobre a agenda delas. Importantíssimo cultivar esse vínculo."

O segundo mandamento é um no, nein, non: "O repórter de celebridade não tem direito à tietagem." O deslumbramento seria o atalho mais curto para o desmanche da isenção e da objetividade, princípios que Escansette preza muito. "Tirar foto com o famoso que acabou de ser entrevistado acaba com a credibilidade de qualquer pessoa", adverte. É preciso rigor. "Gente assim deve ficar longe da redação. Melhor se ater aos fã-clubes."

O terceiro e o quarto mandamentos inserem-se no campo da hermenêutica. Mais especificamente, vinculam-se às reflexões de Escansette sobre o estatuto da negação e do silêncio: "Um famoso nunca-jamais-never admite de cara que está se separando. Melhor abrir a conversa com um papo leve [lição número 3] e mostrar que você fez uma pré-apuração consolidada [lição 4] antes de entrar de sola. Se tiver foto dele[a] beijando outro[a], melhor." Os futuros repórteres de celebridade também aprenderão que o silêncio e a verborragia agressiva são igualmente eloquentes: "O silêncio mostra onde o jornalista tem de fuçar, e, quando a celebridade fica arisca, é porque ela deve. Aí é só apurar direitinho..."

Ao longo de sua carreira, Roberta Escansette já deu furos que só por puro despeito não entraram para os anais do jornalismo nacional. Foi ela quem descobriu a amante de Marcelo Silva quando ele ainda estava com Susana Vieira. Foi ela quem contou para o Brasil que Giovana Antonelli estava de malas prontas para morar em Nova York, levando consigo o filho Pietro, fruto do casamento com Murilo Benício. E também foi ela - como não? - a primeira a falar sobre a intrigante gravidez de Daniela Cicarelli.

É do alto desse currículo que Escansette tira legitimidade para tratar de assuntos espinhosos. Perseguição de famosos, por exemplo: "1) Não use o mesmo carro todos os dias; 2) não grude um carro no outro porque pode haver um acidente; 3) decore as placas dos famosos quando eles ainda estiverem na festa; 4) ande sempre com vidros recobertos por insulfilm; e 5) só se aproxime com uma pergunta depois de ter feito a foto."

Com esses saberes, Escansette garante seu ganha-pão desde o segundo semestre da faculdade. Como frila, ela consegue cerca de 200 reais por noite, o que rende uns 5 mil reais por mês. E ela ainda se diverte. Na noite anterior, havia entrevistado Caio Blat, que considerou "uma gracinha".

Mas e quando o famoso se chateia? "Mande flores!", responde rápido. "E um cartãozinho de próprio punho dizendo algo como 'Fulano, entenda a nossa -posição. Trabalhamos com a verdade. Agradecemos a compreensão. Desde já contamos com a parceria.'" Quando Escansette publicou que Susana Vieira estava sendo trocada pela proto-célebre Fernanda Cunha, por exemplo, ela enviou um buquê à atriz, acompanhado de um cartãozinho assim: "Nós estamos do seu lado. Queremos a sua felicidade." (A reportagem não conseguiu falar com a atriz para saber se as flores saíram voando pela janela.)

Até a última semana de março, havia oito inscritos no curso de extensão de jornalismo de celebridade, -metade do quórum mínimo para a formação da turma.

Fonte: Piaui

O poder da intuição

Veja como aquele palpite pode ser útil na hora de tomar uma decisão na vida. Aprenda a utilizar a intuição a seu favor — você vai se surpreender

texto Rafael Tonon fotos Nati Canto design Adriana C. Wolff

Pensamos, logo existimos. Desculpe- me, leitor, começar este texto assim, com um clichê já tão propagado da filosofia – e com a licença de ainda colocá-lo no plural, vá lá... Mas é difícil encontrar um argumento mais certeiro para definir a existência humana que nossa capacidade de pensar, não é mesmo? A verdade, entretanto, é que algo parece errado nesse raciocínio tão lógico. Errado, não. Talvez incompleto. Afinal, nós só nos tornamos efetivamente humanos na medida em que conseguimos combinar nossos pensamentos – e aí, vale incluir o que pensamos sobre os outros e o mundo ao nosso redor – com outras formas de conhecimento de que dispomos, como nossos sentimentos, nossas sensações e nossas intuições para percebermos o mundo que nos rodeia.

Às vezes, mesmo quando a razão tenta nos demover de uma ideia que parece logicamente infundada, nós vamos lá, damos a cara a bater. Teimamos e, vez por outra, ainda provamos que nossa própria razão estava redondamente enganada. Afinal, nossa consciência de mundo não dá conta de ser tão racional assim – ou de buscar racionalidade em tudo. Por isso, somos capazes de perceber muitas coisas sem que elas passem pelo crivo da razão. Os sentimentos estão aí para comprovar. Quem nunca se apaixonou a ponto de perder as estribeiras da lógica?

Outra forma de conhecimento não respaldada pela razão está na intuição, que vem do latim intueri e significa considerar, ver anteriormente. Sabe quando você tem a certeza de alguma coisa, mas não sabe explicar por que ou de onde ela veio? Pois então, isso é uma manifestação dessa nossa intuição, uma capacidade de conhecimento que eu e você temos, mas que nem sempre valorizamos, é verdade. Porém, está na hora de reavaliarmos nossa forma de tomarmos consciência sobre as coisas: os pressentimentos podem nos levar a tomar decisões melhores que as deliberações racionais. Para compreender, não basta pensar. É preciso sentir e, principalmente, intuir.

A razão tem razão? 

  Não é difícil entender por que muita gente ainda torce o nariz para a intuição. Hoje o modelo de conhecimento que temos no mundo moderno ocidental ainda é muito embasado pelo pensamento racional e lógico. “É algo que herdamos dos gregos há mais de 2 mil anos”, afirma o psicoterapeuta e filósofo Ari Rehfeld. Uma frase do tipo “eu acredito que seja assim por pura intuição” dificilmente vai convencer um amigo ou um chefe. Por sabermos disso, tratamos de sabotar internamente nossos sinais particulares, não dando a devida atenção a eles. O pior é que desperdiçamos, assim, uma poderosa ferramenta para tomarmos decisões muito melhores.

A intuição é uma aptidão que todos nós temos, mas que precisa ser desenvolvida – assim como a própria capacidade de pensar. É aquela percepção ou decisão que aparentemente não tem uma explicação lógica e que até contraria o senso comum, mas que no fim das contas faz todo o sentido. Ela funciona como um guia interno, que se manifesta através de um conhecimento não-linear. “Por isso a intuição aparece através de sensações inexplicáveis, insights, sonhos, ou de uma voz interna que parece dizer ‘sim, isso está certo’ ou ‘isso não vai funcionar’”, diz a psiquiatra americana Judith Orloff, autora do livro Second Sight (“Outro olhar”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil). É difícil explicar a intuição porque ela é como um lampejo, uma resposta imediata que nossos neurônios constroem diante uma situação. “Um pressentimento sempre nos inquieta porque não sabemos de onde ele surgiu, ele não vem a partir de um raciocínio consciente, mas de um lugar desconhecido da nossa mente”, escreve Judith.

A lógica e os modos conscientes de pensamento monopolizaram nossa forma de compreender o mundo. Mas, no entanto, a lógica é apenas umas das muitas ferramentas úteis de que a mente pode se valer. “Até porque há informações e percepções que vão direto para o inconsciente, sem passar pelo filtro do nosso consciente”, complementa Rehfeld. Filósofos como Platão já valorizaram a intuição como um ponto de partida para suas ideias. As sacadas surgiam intuitivamente e, depois, eles tratavam de colocá-las à prova sob a luz do racionalismo. “Mas hoje vivemos num mundo em que não temos tempo de parar e intuir. Estamos condenados ao ritmo do pensamento racional”, diz o psicoterapeuta.

Menos é mais  
Em plena era da informação, sofremos mesmo do mal do “pensar demais”. Tanto que, de muito raciocinar, sobrecarregamos toda a capacidade de atenção do cérebro, comprometendo a saúde da mente. Como resultado, acabamos entregues à depressão e à ansiedade. Pensar demais e saber demais podem se transformar em um problema. Durante uma viagem à Itália, a musicista Abbie Conant foi convidada a fazer um teste para a Filarmônica de Munique. Os 33 candidatos tiveram que tocar atrás de uma tela, que os tornava invisíveis ao comitê de seleção. Conant se concentrou para fazer uma apresentação perfeita, mas errou uma nota. Ela pensou que seria desclassificada. Mas todos do comitê estavam estarrecidos com o que tinham ouvido. O diretor da Filarmônica ficou tão excitado que despachou de volta os candidatos que ainda não tinham se apresentado.

Mas, quando chamaram Conant, ficaram surpresos – e decepcionados – por ela ser mulher. Mulher e trombone não combinavam para o diretor da Filarmônica. E, apesar de ter vencido todas as rodadas de audições, ela entrou para a orquestra contra a vontade do diretor que, um ano depois, a rebaixou para segundo trombone. Conant ficou tão indignada que levou o caso para os tribunais. Como provas, fez uma batelada de exames: soprou em máquinas especiais e teve até seu sangue examinado para comprovar sua capacidade de absorção de oxigênio. Todos os resultados foram acima da média. Só depois de oito anos, por determinação da justiça, é que ela foi reintegrada à posição de primeiro trombone.

A história é contada no livro Blink – A Decisão num Piscar de Olhos, do jornalista americano Malcolm Gladwell, e mostra que, se tivessem levado em consideração apenas a primeira impressão da audição de Conant, os membros da Filarmônica teriam uma grande artista como primeiro trombone desde o começo. “Mas, por acharem que ela poderia ser frágil para um instrumento tão masculino, resolveram dar crédito ao pensamento racional, que indica que as mulheres são menos aptas a instrumentos que exigem maior fôlego, e não ao que tinham ouvido”, escreve o jornalista. Isso também acontece com muitos de nós. O ato de pensar objetivamente nas razões pode levar a decisões que nos deixam menos satisfeitos. Analisar todos os lados da questão pode não ser uma boa tática.

A mente intuitiva  
A questão é que nem que nos esforcemos muito podemos tomar todas as decisões da nossa vida sob o crivo da razão. Nossa mente trabalha melhor relegando ao inconsciente uma boa parcela do pensamento racional – ela não daria conta de tudo, se não usasse esse artifício. Por causa disso, a própria evolução dotou nossa mente da capacidade de reagir antes mesmo de pensar quando estamos diante de uma situação de risco – a intuição é, portanto, uma aptidão evolutiva. “O instinto que nos faz hoje optar por algo que conhecemos equivale ao instinto de sobrevivência no mundo selvagem. Podemos escolher uma refeição com ovos verdes, mas você não escolheria uma opção menos exótica, se pudesse?”, questiona o professor de Psicologia da Universidade de Chicago, Gerd Gigerenzer, no livro O Poder da Intuição. “Quando optamos por alimentos que conhecemos, obtemos as calorias necessárias sem perder tempo de arriscar a sorte para saber se a refeição exótica é tóxica.”

Antes mesmo que você considere o ovo colorido, sua mente já mandou um recado que é melhor comer o velho ovo com clara branca e gema amarela. A intuição permite à nossa mente colocar alguns comportamentos e decisões em piloto automático. “Pensar toda vez em como se anda de bicicleta ou como se deve sorrir nem sempre é melhor do que fazer ambas as coisas de forma automática. As partes inconscientes da mente são capazes de decidir sem que nós – ou o eu consciente – conheçamos as razões”, afirma Gigerenzer.

Somos capazes de fazer uma viagem inteira dirigindo por uma estrada com buracos e condições adversas sem sequer racionalizar uma parte do trajeto sequer. Mas isso só foi possível depois de a mente ter adquirido conhecimento suficiente para poder relegar ao inconsciente a tarefa de conduzir a direção. O mesmo ocorre com nossa intuição. Afinal, nós só temos intuições a partir de experiências, de informações e do conhecimento que obtivemos, voluntariamente ou não. “Na verdade, a natureza dá ao ser humano um potencial, e a prática ao longo do tempo se transforma numa capacidade.” A mente intuitiva se adapta e age com economia valendo-se do inconsciente, das aptidões evolutivas e dos métodos empíricos que desenvolvemos no decorrer da nossa vida. Eles consistem em procurarmos nos ater à informação mais relevante e ignorar o resto. Na maior parte das vezes, os pressentimentos se baseiam num volume surpreendentemente pequeno de informações.
Como no caso de uma proposta de emprego em que o salário é ótimo, mas, segundo aquela sua amiga, o chefe do departamento é um grosso e o clima organizacional, bastante tumultuado. Empiricamente, a única informação que você pode comprovar é que o salário oferecido é o triplo do que você ganha. A relação pessoal da sua amiga com o chefe e a equipe pode ser relativa – ou um problema só dela. Vai de você confiar na informação de que dispõe ou levar em consideração tudo o que ouviu. Por isso, a intuição tem a ver com palpites, com os riscos que corremos e que só a vivência e a experiência vão nos mostrar se acertamos ou não.

Atenção aos sinais  
As pessoas que resolvem seguir sua intuição e se dão bem passam a dar mais valor aos avisos e sinais que o inconsciente lhes dá. A cantora Tiê sempre foi de dar ouvidos aos seus pressentimentos. “Se eu cismo com uma coisa que acho que pode não ser legal, não faço. E é muito difícil alguém me convencer do contrário”, diz. Ela já se negou a participar de shows simplesmente por achar que não valeriam a pena – ao mesmo tempo que aceitou fazer outros em lugares aparentemente nem tão legais mas que sua intuição dizia ser a melhor escolha. “E é engraçado que meus palpites sempre se comprovam.” Tiê também usa sua intuição na hora de criar e compor. Dá mais valor às ideias que surgem espontaneamente e dificilmente fica pensando e alterando notas e palavras depois. “Dos cinco sentidos, acho que o olfato é o que eu tenho mais apurado, por isso costumo brincar que a intuição é o olfato da mente, porque nos permite farejar de longe as coisas. Dificilmente a gente se engana com um cheiro, né?”

Intuir, na verdade, significa utilizar um outro sentido de que dispomos além da visão, da audição, do olfato, do paladar e do tato. É mesmo como um “sexto sentido” colocado à nossa disposição e que nos ajuda a melhorar nossa relação com o mundo e facilitar nossa vida. E da mesma forma que, quanto mais nós ouvimos, melhor reconhecemos um ruído, quanto mais usamos a intuição, melhor conseguimos aproveitar os pressentimentos. A intuição melhora com a experiência sem que a gente se dê conta. Um ótimo executivo é capaz de prever se um produto vai ter sucesso de mercado mesmo que as pesquisas que sua empresa encomendou indiquem que não – e que não consiga explicar logicamente seus argumentos. Isso porque, em anos de carreira, teve experiências suficientes para conhecer o mercado e armazenar registros inconscientes. Claro que não significa que ele tenha poderes sobrenaturais, mas que aprendeu a perceber os sinais que sua mente dá mesmo quando as coisas não pareçam ter lá muita lógica.

Isso só é possível através do conhecimento que temos – do mundo que nos cerca e de nós mesmos. É o autoconhecimento, aliás, que nos permite reconhecer os pressentimentos que a nossa mente tem. Porque é fácil confundir intuição com desejo e com medo. Se estamos em um relacionamento que nos faz mal, por exemplo, é fácil intuir que precisamos buscar uma nova forma de ser feliz. Mas isso diz respeito a um desejo interno, que nem sempre é tão claro e que, por causa disso, pode ser erroneamente interpretado como intuição. “Uma pessoa que tem a sensação estranha de que seu avião pode cair precisa ponderar se não se trata de um medo que ela mesma tem de voar. Porque a mente de um fóbico tende a projetar todos os riscos relacionados a um medo”, diz a psicóloga Virgínia Marchini, diretora do Centro de Desenvolvimento do Potencial Intuitivo, em São Paulo.

Se estivermos realmente atentos aos sinais do inconsciente, defende Virgínia, aumentamos nossa capacidade de usar nossa intuição e de decidir acertadamente. Para que isso ocorra, precisamos estar com a mente mais tranquila possível – afinal, quanto maior nosso nível de estresse e de ansiedade, menor a acuidade dos nossos sentidos. “Nervosos e agitados, somos menos propensos a sentir gostos, diferenciar cheiros e, consequentemente, perceber pressentimentos”, diz. A intuição depende de um estado mental de relaxamento. As pesquisas indicam que, nesse estado, a mente intuitiva não precisa de mais de dois segundos para que seja capaz de tomar decisões.

Confiar (e agir)  
Desenvolver a intuição significa adotar uma postura mais reflexiva e trabalhar a autoconfiança. Apostar naquilo que você percebe e sente. Dedicar-se um tempo ao silêncio e ao recolhimento ajuda. Registrar e interpretar sonhos e impressões, também, porque essas práticas facilitam o acesso ao mundo interno, assim como ler, conhecer, assistir, viajar. Outros sinais aparecem em nosso próprio corpo, não apenas na mente. Sintomas físicos como insônia e agitação podem indicar desconforto com uma situação ou decisão que se esteja pensando em tomar. “Cada um de nós tem a sabedoria e o conhecimento de que necessita em seu próprio interior”, escreveu o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, um defensor da intuição. Precisamos só estar abertos a identificá-los, já que, afinal, tendemos a viver tão melhor à medida que percebemos o que nos rodeia.

Intuir, portanto, é enxergar melhor o mundo olhando para dentro de nós mesmos. Por isso é preciso confiar nas nossas próprias intuições. De nada adianta abrir uma comunicação com o inconsciente se esse conhecimento não impulsionar ações. “A intuição é vivencial, precisa ser praticada”, diz a psicóloga Virgínia. Assim como precisamos experimentar relacionamentos para quebrar a cara ou colocar a mão no fogo para perceber que ele queima. E viver é mesmo correr riscos, fazer apostas. E, para isso, nem sempre basta apenas pensar.

Livros  
Blink, Malcolm Gladwell, Rocco O Poder da Intuição, Gerd Gigerenzer, Best Seller Sway – The Irresistible Pull of Irracional Behaviour, Ori e Rom Brafman, Broadway Books

Fonte: vidasimples

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