FHC a Política e meios de comunicação

Fernando Henrique Cardoso - O Estado de S.Paulo

Escrevo esta crônica às vésperas de partir para o Japão e a China, de onde só regressarei depois de publicado o texto, daqui a duas semanas. É sempre arriscado, nessas condições, falar sobre a agenda política. Será mesmo? O marasmo é tão grande que possivelmente, ao voltar e reler os jornais, encontrarei os mesmos temas: a CPI, a corrupção com suas teias enredadas, os candidatos às prefeituras já conhecidos e suas previsíveis alianças, o PIB que cresce pouco, os juros que finalmente começam a cair, a inadimplência dos devedores, as demandas por reformas tributárias, as soluções caso a caso para diminuir os estoques das empresas (principalmente automobilísticas), e assim por diante. Dá até preguiça passar os olhos pelas colunas e notícias da mídia, sem falar das TVs que repetem tudo isso com sabor de press release, emitido seja pelo governo, seja por empresas.

Ainda recentemente, um sociólogo mexicano, falando na Fundação iFHC e se referindo a outro aspecto da mesma questão, disse que o resultado das eleições em seu país independe das campanhas eleitorais. Isso porque, quando a propaganda partidária tem vez na mídia, a "opinião" já está enraizada nos eleitores, pois nos anos anteriores se elegeram os heróis e os vilões cujas virtudes e defeitos foram repetidos todo o tempo, sem contestação crítica. Será muito diferente entre nós? É dessa maneira que se exerce nas modernas sociedades de massa o controle ideológico da opinião, seja pelos governos, seja pelos grupos dominantes na sociedade, econômicos ou políticos.

A sensação do já visto que alimenta a modorra e leva ao tédio e ao descaso com a política é, entretanto, enganadora e perigosa. A despeito de tudo, nem só de manipulação da opinião vive uma sociedade. De repente, quando menos se espera, não são as "forças do mercado" nem o "pensamento único" (que em nosso caso, menos do que neoliberal, é de esquerda desenvolvimentista-autoritária) que comandam a vontade popular. É o que vemos agora na Grécia e na França, onde a vitória de Hollande, a despeito do irrealismo de algumas de suas promessas, ecoa até na alma de Obama e o rígido dogmatismo tedesco, fantasiado de racionalidade de mercado, se vê cerceado por aspirações de outra natureza. Convém, portanto, não sobre-estimar a força das verdades preestabelecidas. Mormente em nossos dias, quando a internet permite que um sem-número de opiniões divergentes circule sem que os leitores ou ouvintes da grande mídia se deem conta.

Não digo isso para aceitar o conformismo vigente em muitos meios de comunicação, até porque, para fazer frente a ele, o desconcerto causado pela variabilidade de opiniões das mídias sociais, e mesmo pela mistura entre lixo eletrônico e real opinião, é insuficiente. Digo-o para alertar: a despeito de parecer que a política, principalmente a partidária, é mais enganação do que afirmação de interesses e valores que podem enfrentar a luz do sol, no final das contas o que decide a nossa vida em sociedade é a política mesmo. Portanto, sensaborona ou não, repetitiva ou não, controlada pelos que mandam ou não, dependemos dela. Nos dias que correm, sobretudo nos regimes democráticos, não há política sem comunicação; logo, é melhor tomar coragem para ler e ouvir tudo o que se diz, mesmo quando partindo de fontes suspeitas.

A precondição para que haja alternativas ao que aí está é manter a liberdade de expressão, mesmo que haja distorções. Isso não exclui uma luta constante contra estas, não para censurá-las, mas para confrontá-las com outras versões. Afastando por inaceitável qualquer tentativa de "controle social da mídia", o acesso de opiniões divergentes aos meios de comunicação poderia criar um ambiente mais favorável à veracidade das informações.

Por exemplo: será que é democrático deixar que os governos abusem nas verbas publicitárias ou que as empresas estatais, sub-repticiamente, façam coro à mesma publicidade sob pretexto de estarem concorrendo em mercados que, muitas vezes, são quase monopólicos? E que dizer do tom invariavelmente otimista das declarações sobre a superação da crise financeira global oriundas de setores empresariais interessados ou, em nosso caso, da marcha contínua para o êxito econômico reiterada pelos governos? O efeito deletério desse tipo de propaganda disfarçada não é tão sentido na grande mídia, pois nesta há sempre a concorrência de mercado que a leva a pesar o interesse e mesmo a voz do consumidor e do cidadão eleitor. Mas nas mídias locais e regionais o pensamento único impera sem contraponto.


A autenticidade das informações escapa das deformações advindas da influência das forças estatais (inclusive do setor produtivo estatal) e das empresas privadas precisamente pela voz crítica dos setores da mídia independente, por meio de seus repórteres, editorialistas e mesmo dos proprietários que têm coragem de expor opiniões. Não por acaso, é contra estes que os donos do poder político e os partidos que os sustentam se movem: denunciam que é a imprensa que faz o papel da oposição. Até certo ponto isso é verdade. Mais por deficiência dos partidos de oposição, cujas vozes se perdem nos corredores dos Parlamentos, do que por desejo de protagonismo da mídia crítica. Nos países europeus ou nos Estados Unidos, por mais que haja partidarismo nos meios de comunicação ou que por lá prevaleça o mesmismo das notícias que refletem o statu quo, sempre há espaço para o outro lado, para o contraponto. Mal termina de falar o primeiro-ministro da Inglaterra e já a voz da oposição, como tal, é transmitida. O mesmo ocorre quando o presidente dos Estados Unidos faz sua apresentação anual ao Congresso.

Obviamente, não basta haver uma mudança na oferta de espaço pela mídia, é preciso que haja vozes de oposição com peso suficiente para serem ouvidas e se fazerem respeitar. Sem esquecer que nas democracias a voz que pesa politicamente é a de quem busca o voto para se tornar poder.

SOCIÓLOGO,  FOI  PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Fonte: Estadão

Um Conturbado Adeus

 Por Márcio Florestan Berestinas
Jacinto das Dores jazia em seu leito mortuário com os enfeites e as parafernálias a que tinha direito. Havia deixado esta vida para integrar-se à eternidade abraçado pela madeira trabalhada industrialmente, exigência dessas ocasiões. Morador há longos anos na pacata Jaburu da Serra, situada na geografia sulina do país, cidade hospedeira de frio intenso, salpicado, em certos momentos, pela brancura da neve, no período mais agudo do inverno, sem oferecer resistência. Dominada em batalhas que se recusava a travar , recolhia-se “bravamente”. Todos tinham de acrescentar zero grau, sem exceção, a essa aritmética negativa das temperaturas. A valentia era aptidão para ser exercida em outras oportunidades mais favoráveis, como sói acontecer a consagrados valentões ... A incompreensão qualificando a fama e organizando o seu status, é preciso dizer, desprezadas as medidas do sistema métrico decimal...



As históricas batalhas de Napoleão Bonaparte, no frio da Rússia dos czares, tão bem articuladas pela literatura de Leon Tolstoi em “Guerra e Paz”, encontravam ressonância na comparação com esse ambiente. Do ponto de vista da economia, o PIB regional só não murchava acentuadamente, em razão do trabalho acumulado nas outras estações. A situação era para reforçar os agasalhos e “pegar duro” na ociosidade das lareiras. Um único setor prosperava tranquilamente: o de chás, doces e tortas, impulsionado pelo turismo, que os malucos de outras regiões alimentavam atraídos pelo fascínio que a neve exercia sobre as suas suntuosas indumentárias, prontas a travar a guerra contra o gelo. Vitrine apropriada ao sucesso social e econômico...

Cidade nascida do trabalho dos tropeiros desbravadores que faziam o trajeto de Viamão a Sorocaba. Pausa para descanso e refeições, tuteladas pela carne de sol. Preferência ou questão de ordem prática? Mal sabiam os comensais que essa iguaria iria gerar tantos entreveros e rixas com o vizinho Uruguai, operando como estopim da Guerra dos Farrapos e preparando o terreno para que Bento Gonçalves lançasse as bases para alcançar o Panteão dos Heróis e colher os benefícios da glória até hoje.

A História namorando a ficção. Algum impedimento legal nisso? Ou estético? O leitor tem todo o direito de julgar, desde que não seja alimentado pelas armas do preconceito ou inimigo declarado da inovação.

Era um sistema de vida ainda governado pela espontaneidade e pela naturalidade, em contraposição ao Iluminismo, que estava com o cavalo encilhado para empreender sua longa marcha desbravando os novos tempos com a sua bandeira de racionalidade.

Não se tratava de um descanso glorioso e heroico como o de Bento Gonçalves ou de Anita Garibaldi, o de Jacinto das Dores, mas é inegável que tinha a sua história gravada. Quem de nós não a tem, por mais singela que seja?

A sua contabilidade registrou mais afetos do que desafetos pela vida afora. Viveu afastado das aflições públicas, até porque a urbe raramente era fotografada por essas tendências. Índole pacata e propensa à concórdia, não obstante não se poder dizer que estivesse ausente da rotina provinciana. Nem tudo na sua vida eram influências externas. A empatia não governava a sua existência de modo absoluto, em vista de inclinar-se pelas vantagens de constituir-se em uma personalidade balanceada... Seguia as regras estabelecidas, mas, também, firmava entendimento próprio em muitas das situações.

Um morto privilegiado, tranquilamente se poderia dizer. Já nos seus primeiros passos em direção à eternidade, o seu sono tranquiliza-se com os aromas da mata serrana, das flores, do perfume silvestre. Não necessitava ser transportado ao paraíso: já estava convivendo com ele. Ser guiado e protegido por esse ambiente não é coisa pouca não! Paisagem fúnebre catalogada com cinco estrelas. Conforto e calmaria nessa nova empreitada que a sua vida empreendera, pois vida e morte estão amalgamadas numa unidade indestrutível. Elementar, meu Caro Watson...!, poderia dizer o leitor dado a zombarias como regra de ofício da alma.

Destino magnânimo e generoso. Fato que não poderia gerar objeções, embora muitos (alguns até com posição de destaque) estejam por aí travando luta encarniçada contra a realidade... Mas se alguém o fizesse, por imposição, apenas, do domínio democrático, estaria entregando-se a um raciocínio indefensável, sujeito ao escárnio público. Questão a ser arrematada com argumento forte, de modo a não serem geradas dúvidas absurdas em quem esteja à procura de definições existenciais inconcebíveis, ou como diria o linguajar popular: buscando chifres na cabeça de cavalos.

Um erro é um erro, e como tal deve ser tratado. Ainda mais quando não está devidamente protegido dos trajes da camuflagem. Instalação do contraditório para quê? Apenas para gastar energias inutilmente. Essa figura perniciosa, originária da ignorância ou da má fé, não pode obter salvo-conduto ou licença para desfilar de batom e ruge. A tolerância dá-lhe carta branca para produzir enganos e estragos sem conta. A missão da diplomacia é lidar com conflitos reais ou latentes. Ou, então, acomodar interesses legítimos. E não dourar a pílula em situações que requerem cirurgia e bisturi, antes que ganhem corpo e se transformem em assunto da Cultura. O vício transformado em lei! Daí é praticamente impossível a sua remoção...

Depois desse esforço em prolatar essa sentença, verdadeiro balanço da narrativa, sucede-lhe o trabalho de detenção da linearidade, mesmo que seja por alguns instantes... Assunto provido em seguida.

A beleza deve frutificar pela sua divulgação, pois a clausura imposta pelo desconhecimento conduz os seus frutos ao definhamento. Com esse espírito, é atraída a presença de Jorge Luis Borges, poeta, contista, detentor de ideias universais na literatura, com fortes incursões na arte Surrealista, para aqui erguer fração do seu edifício poético, formulada com o propósito de despertar a atenção e estimular o aprimoramento estético dos espíritos inclinados a tal fim. E, também, porque o nosso personagem, mesmo não sendo aficionado das letras, reunia méritos pa ra receber homenagem desse quilate, em vista de ser homem de valor, dessas criaturas que, mesmo na sua simplicidade, dão expressiva cota de contribuição para que o mundo seja melhor. Remorso por Qualquer Morte, de Jorge Luis Borges – Obras Completas, da Editora Globo, página 31 (traduzida para o Português):

“Livre da memória e da esperança,/ilimitado, abstrato, quase futuro,/ o morto não é um morto; é a morte./Como o Deus dos místicos,/de Quem devem negar-se todos os predicados,/o morto ubiliquamente alheio/não é senão a perdição e ausência do mundo./Tudo dele roubamos,/não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba:/aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos,/ali a calçada onde sua esperança espreitava./Até o que pensamos poderia estar pensando ele também;/ repartimos como ladrões/o caudal das noites e dos dias.”

Nessa incursão do argentino, faria sentido apenas um pequeno reparo: em vez da expressão “...quase futuro”, a sua substituição por “...quase passado”. Correção que é atributo da ousadia e da falta de juízo da autoria, mas quem é que não tem alguns segundos do dia dedicados a esse ofício?

Jacinto das Dores, porém, impôs a si mesmo a condição de usufrutuário dos sentimentos dos amigos ali presentes: choros de dosimetria variada, assinalando a viagem do pudor de cada um, rezas conduzidas por fé inabalável, augúrios, lamentos e declarações de perda irreparável. A normalidade veiculando-se pela propagação dos tempos...

Preferiu descansar serenamente e receber, em silêncio (mas agradecido), amigos, parentes, curiosos e destituídos de posses de outras regiões que estavam ali de passagem, apenas com a pretensão de colherem os frutos da temporada, espantando a loteria aziaga que os perseguia, influenciada ou pelo destino, ou pelo casamento sólido e indissolúvel com a ociosidade.

Vamos usar de absoluto realismo: morrer nessas condições é uma fortuna que poucos podem alcançar. Recebia as homenagens de todas as classes sociais, nas condições relatadas. O ensejo não estava a serviço da divisão de classes.

Concepções se rivalizariam pela madrugada adentro. Os versos de Borges estavam presentes. De outro lado, a teoria acerca da reencarnação das almas pretendia ajustar as contas com o seu conteúdo, valendo-se de um exemplo empírico, de modo a não deixar dúvidas sobre a sua validade. O mundo real e a ficção competindo como laboratório de experiências.

Jacinto, entretanto, motivado pelos fatos supervenientes, passou a conviver problematicamente com o otimismo e a resignação. Dominado pela perplexidade, voz calada pelo silêncio imposto pela situação sem retorno, permanecia imóvel, circunspeto, apenas enxergando a avidez dos visitantes no banquete. Aliás, era surpreendente a azáfama dos comensais na árdua tarefa de darem conta dos sanduíches, cafés e chás, ofertados gentilmente pela família. Os despossuídos e alguns dos cidadãos protegidos pela normalidade das refeições davam a sua cota de contribuição para que as provisões se esgotassem mais rapidamente.

A verdade nua e crua é que, com a chegada dos salgadinhos, sanduíches e chás, Jacinto deixou o cenário principal para constituir-se em mero figurante. O repasto postou-se na mais elevada das hierarquias. Enquanto houve comida, decretaram o seu status de exilado.

Talvez, daí resultasse a alteração da sua personalidade, pois de ator principal a penduricalho ou agregado é gravemente problemático. Trabalho de pasteurização. Primeiro uma temperatura muito elevada, depois.... Quem de nós não teria as fundações espirituais fortemente abaladas? Com ele não foi diferente. Veneno que abate um, abate todos.

De outro lado, a viúva, dona Lívia das Dores, não se deixava prostrar pela falta de sequência na vida do seu marido. Mostrava-se claramente conformada. Avaliação descolada da aritmética das lágrimas, haja vista que ainda não havia como serem contabilizadas, o que passou a gerar comentários de alguns “amigos”, tão logo os comensais viram-se amansados em sua tarefa de glutões, guiados não pelo bom senso, mas pelo esgotamento das reservas existentes.

Entretanto, fotografada a sua postura pelas figuras de boa fé, que ornamentavam o ambiente, atribuíram-lhe firmeza de caráter, determinante na formação da fortaleza e fé demonstradas.

Opinião minada pelo desdém da maioria, em legítimo exercício da propagação da sua força.

Com o adiantar da madrugada, o frio intenso tomou conta, reinando sem admitir interferência de outras temperaturas, ou a divisão do seu poder. E poder que se conquista é para ser mantido e não distribuído, já ensinava o astuto Maquiavel ao Príncipe. Assim, sob a vigência desse domínio, as horas avançavam, e uma compenetrada e devotada carpideira que se fazia presente fincou o olhar em Jacinto e notou que o lençol, na pureza de sua brancura, com o qual tinha sido envolto o seu corpo, começava levemente a movimentar-se.

O desmaio foi seguido de alvoroço. Prestados os devidos socorros, e recuperada parcialmente do susto que ainda a mantinha trêmula, relatou, com engulhos e voz trôpega, o motivo que a fizera enfrentar aquela dificuldade.

Após ouvir o seu relato, o grupo reunido, agora em torno do caixão, notou o repetido movimento do lençol, confirmando as informações recebidas da mulher, o que ocasionou o sumiço em desabalada carreira de todos os presentes, num espantoso efeito manada. Atropelamentos na porta de saída não aconteceram por puro milagre. Por muito pouco, a confusão não conferiu a um dos presentes o mesmo destino do pranteado.

Agora, porém, em “confortável” distância da capela mortuária, ainda ofegantes e exaustos, os desertores começaram a discutir o que tinha se passado. Inicialmente, o fato despertou apenas a vigência da teoria da reencarnação, amparada numa sólida razão: Jacinto teria reencarnado em seu próprio corpo para ajustar as contas com Lívia.

Todavia, um dos presentes, de nome Ethevaldo Faustino, depois de dar corda à arquitetura do seu pensamento, expressão que poderia ser sintetizada, mais secamente, como “urdidura”, pelos mais céticos, simplesmente isso, relatou que, há anos, havia evitado fosse Jacinto vitimado num afogamento, ventilando uma nova possibilidade: “A sua morte, de inopino, não lhe ensejou tempo para elaborar o testamento e, assim, resolveu despertar para deliberar sobre o destino de seu patrimônio”. Alegou, ainda, ser ele, certamente, ao lado dos herdeiros naturais, um dos legatários contemplados: “Um grande homem, até em sua despedida final buscou agir com equidade e justiça”. Concluiu.

De outro lado, havia um deles, tardiamente presente nas conversas, porém já ciente da situação, com sinais da valentia de Bento Gonçalves, que bradou com convicção: “Vou até o pé do caixão para comprovar a veracidade da sua morte”. E prosseguiu: “Todos estão convidados a me acompanhar.” A sua fala foi seguida de um calafrio generalizado. Os espíritos balançavam como se estivessem diante de um terremoto de escala devastadora. Entretanto, passados esses momentos iniciais de terror, a situação foi acomodando-se lentamente. Afinal de contas, um escudo é um escudo!

As regras vigentes da valentia, por força dessa nova situação, sofreram rachaduras consistentes: pusilânimes de carteirinha, com ações já sobejamente transitadas em julgado, assumiram ares de guerreiros ensandecidos... Só vendo para crer! Confundiam-se com samurais destemidos em defesa do seu feudo. Ou Kamicazes lançando os seus aviões contra os navios inimigos. O “destemor”, quando encontra terreno apropriado, exibe-se com galhardia e glamour, inegavelmente!

Lá chegando, surpreendentemente, constataram que o “homenageado” não havia sido abandonado à sua própria sorte naquele interlúdio, pois lá se encontrava o Sr. Salim Azambuja da Silva, conhecido comerciante, governado pelos prantos e alegando ser credor de uma dívida que, segundo suas palavras, não fora satisfeita por Jacinto. Causa de espanto e perplexidade dos demais, pois era sabido sobejamente ser o falecido um homem de reputação ilibada, que não abria mão de cumprir as suas obrigações.

Provavelmente, esse “pragmático” homem intuiu do movimento repentino do lençol, o acenar da possibilidade da quitação do referido débito, cuja veracidade está apta a receber, também, as lupas dos leitores...

Inquirido nos momentos seguintes, seu Salim Azambuja explicou que vira apenas a mansidão e o descanso do referido cidadão, em pleno exercício da faculdade de estar de acordo com os fundamentos da morte que lhe sobreviera. A única anormalidade era a presença de um obeso besouro, movimentando-se na lentidão da sua espécie e que, certamente, deveria ter provocado toda a confusão e decretado vida apenas ao lençol, infelizmente, e frustrando-lhe a expectativa de receber o que era de “justiça”, palavra esta utilizada por ele (sendo as aspas uma concessão aos céticos e descrentes).

Assim, todas as hipóteses aqui cogitadas viram-se desprender da realidade, encontrando sérias dificuldades para firmarem-se como verdade: a da reencarnação; a da vingança a ser infligida à esposa infiel; a do testamento tardio; e a do recebimento da dívida, firmando-se possivelmente, a convicção de que o imaginário é capaz de promover verdadeiras revoluções ou reboliços na ordem vigente.

Apenas uma das teorias não destoou, a despeito da aparente relutância de Jacinto das Dores em permitir que ela governasse o seu destino, porque encontrou relevância na expressão: a boa poesia é aquela que imita a vida.

Gramado e Canela, hospedeiras de eventos importantes, do alto da sua condescendência, poderiam emprestar o seu cenário e o seu Campo Santo para Jacinto das Dores receber o descanso devido aos justos e elevados de espírito, nesta hora tão importante da sua trajetória, que ficaria de bom tamanho.


Márcio Florestan Berestinas

Márcio Florestan Berestinas - Promotor de Justiça das Comarcas de Alto Araguaia e Alto Garças.
 
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Corpus Christi

23 de junho de 2011, quinta-feira, feriado nacional no Brasil. Dia de Corpus Christi. O que é isto? A tradução literal da expressão latina é "Corpo de Cristo". Refere-se a uma solenidade católica celebrada anualmente na primeira quinta-feira após o Domingo da Santíssima Trindade, para comemorar a eucaristia. A celebração do Corpus Christi acontece na igreja latina desde o século XIII. A primeira pessoa a pensar em uma festa especial para o sacramento eucarístico foi Santa Juliana (1193-1258), freira do convento agostiniano de Monte Cornillon, na Bélgica. Juliana compartilhou sua ideia com Robert de Thorete, então bispo de Liége, e com Jacques Pantaleón, que mais tarde seria o Papa Urbano IV. Como no regime católico de administração eclesiástica os bispos têm autoridade para ordenar a celebração de festas em suas dioceses, ele convocou um sínodo em 1246, e ordenou que a celebração acontecesse no ano seguinte. O bispo Robert morreu antes disto, mas a festa foi realizada assim mesmo. Em 1264 o Papa Urbano IV publicou a bula “Transiturus”, na qual ordenava a celebração da festa de Corpus Christi em todo o mundo (e não mais apenas na diocese de Liége). Aos poucos a festa passou a ser celebrada: Colônia (1306), Worms (1315), Strasburg (1316). Desde então, tem sido celebrada em todo o mundo católico .

A pergunta inevitável que surge é: se a festa se refere à instituição da eucaristia por Jesus na noite da quinta-feira que antecedeu sua crucificação (cf. Mt 26:17-30; Mc 14:17-26; Lc 22:7-20), por que é celebrada depois da Semana Santa? O argumento de Urbano IV na já citada “Transitorus” é que na Semana Santa os fiéis devem estar com suas mentes voltadas para a reflexão nos acontecimentos da Paixão propriamente, e por isso, podem acabar perdendo de vista a importância e o significado do evento da quinta-feira. Para evitar que tal acontecesse, a celebração da instituição da eucaristia por Jesus foi deslocada para um período posterior.

“Corpus Christi” é, portanto, uma tradição católica ocidental. O protestantismo e o cristianismo ortodoxo oriental não têm nada que seja similar. Mas a celebração desta festa faz pensar em algo importante, a celebração da eucaristia por Jesus e seu significado. Toda a cristandade tem no partir do pão e no beber do cálice seu ritual mais significativo. Todavia, ao mesmo tempo, muita discussão tem havido em torno do significado deste ritual, que é expressão de fé, e não meramente uma parte da liturgia. Afinal de contas, o que Jesus quis dizer quando afirmou "isto é meu corpo"? A tradição católica, trabalhando com categorias filosóficas tomadas de empréstimo da filosofia aristotélica, entende as palavras de Jesus em sentido literal. Ou seja, conforme o catolicismo, no momento da consagração dos elementos da ceia – o pão e o vinho – acontece uma mudança, não nos acidentes do elemento pão e do elemento vinho (cor, textura, sabor, odor), mas na “substância” destes, ainda que isto seja imperceptível aos sentidos humanos. A esta compreensão dá-se o nome de “transubstanciação”, que significa literalmente "mudar de substância".

A Reforma Protestante no século XVI apresentou compreensões diferentes. Lutero, que fora monge agostiniano, sempre teve a celebração da ceia do Senhor na mais alta conta. Ele divergia da compreensão católica tradicional, mas afirmava que, de alguma maneira, o próprio Jesus se faz presente no momento da ceia, “junto com”, “em com” “e sob” o pão e o vinho. A esta compreensão dá-se o nome de “consubstanciação”, que significa literalmente "com a substância". Na verdade, bem antes de Lutero houve quem entendesse a eucaristia em termos de consubstanciação. Mas o catolicismo tradicional rejeitou esta compreensão.

Zuínglio, contemporâneo de Lutero, iniciador do segmento protestante conhecido como "Reforma Reformada" (que teve mais tarde em João Calvino seu nome mais conhecido) divergiu das duas interpretações até agora citadas. Para Zuínglio as palavras de Jesus ditas por ocasião da última ceia devem ser entendidas de modo figurado, simbólico, e nunca de um modo literal. Portanto, para aquele reformador suíço, o pão e o vinho simplesmente simbolizam o corpo de Jesus morto na cruz e seu sangue derramado.
Carlos Jeremias Klein, pesquisador brasileiro e pastor da Igreja Presbiteriana Independente, em seu livro “Os sacramentos na tradição reformada” (São Paulo, Fonte Editorial, 2005), mostra como a maioria absoluta dos evangélicos no Brasil, pentecostais e não pentecostais, entende a ceia de maneira apenas simbólica.

O já citado João Calvino contribuiu para o debate com outra perspectiva. Para Calvino, no momento da eucaristia Jesus se faz presente de maneira real, não nos elementos em si, mas no coração dos fiéis. Esta é a “presença real” de Jesus na ceia. A compreensão de Calvino talvez seja uma via média entre a compreensão de Lutero e de Zuínglio. No entanto, é desconhecida da maioria dos membros, e mesmo pastores, de igrejas de tradição calvinista propriamente.

Ninguém pode negar a importância da ceia. Ninguém pode negar a importância desta celebração na caminhada cristã. Ninguém pode negar a presença de Jesus Cristo na vida dos que crêem. Não como um ritual mágico, para garantir sorte ou prosperidade. Mas como um momento de renovação de forças para continuar na jornada da fé, do amor e da esperança, no seguimento daquele que se deu por nós, para nossa salvação.


• Carlos Caldas é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo.
As informações históricas foram extraídas do verbete "Feast of Corpus Christi" da "The Catholic Encyclopedia".
Fonte: Ultimato

FHC aos 80 anos


Fernando Henrique Cardoso chega aos 80 anos em grande forma e na plenitude das qualidades que dele fizeram um grande intelectual e um grande homem público. É o nosso elder statesman e a sua palavra tem prioridade na agenda de discussão nacional. Tem prioridade porque é dotada de autoridade, que se caracteriza por ser menos que um comando, mas mais do que um conselho, na definição de Mommsen. Essa autoridade é fruto do seu percurso e do seu legado, que aqui destaco celebrando o seu aniversário e, ao mesmo tempo, contrapondo-me à damnatio memoriae com a qual o presidente Lula, o PT e os seus simpatizantes, inclusive no mundo acadêmico, buscaram infligir à sua trajetória.

A damnatio memoriae é um instituto do Direito Romano por meio do qual um sucessor condenava a memória do seu antecessor, buscando apagar a sua imagem e eliminar o seu nome das inscrições, considerando-o um inimigo ou uma vergonha para o Estado romano. No Brasil, esse é o objetivo da retórica da "herança maldita", tal como persistentemente aplicada à qualificação da sua gestão presidencial por seu sucessor e acólitos. Ressalvo que dessa postura se afastou a presidente Dilma Rousseff, ao saudar com civilidade republicana os 80 anos de FHC e ao identificar os seus méritos.

Fernando Henrique é um raro caso, no Brasil e no mundo, de um grande intelectual que foi bem-sucedido na política, alcançando a Presidência da República no primeiro turno, por voto majoritário, em duas sucessivas eleições. Usualmente os intelectuais, na medida em que se interessam pela política, ou se dedicam à crítica do poder ou a assessorar o poder. FHC, além de ter desempenhado esses dois papéis, exerceu o poder no vértice do sistema político brasileiro. Logrou alcançar e exercer o poder em função de certas características de personalidade que merecem o elogio, e não a condenação de uma ressentida damnatio memoriae.

FHC foi afirmando a sua liderança desde os tempos da universidade, o que lhe valeu o reconhecimento dos seus pares. São componentes do modo de ser da sua liderança a agilidade e a rapidez da inteligência, que os gregos qualificam de anquinoia, e o dom de gentes, da prazerosa civilidade do seu trato com as pessoas..

A política requer coragem, que é uma "virtude forte" necessária para o ofício de governar e vai além das virtudes requeridas para lidar com as necessidades da vida e as exigências da profissão. É o sentimento de suas próprias forças, como a define Montesquieu. É saber manter a dignidade sob pressão, nas palavras de Hemingway, no confronto com o perigo e as dificuldades. Coragem, nos precisos termos das definições acima mencionadas, nunca faltou a FHC, como posso testemunhar ao tê-lo visto enfrentar seja a aposentadoria compulsória na USP por obra do arbítrio do regime militar e o bafo da repressão nos momentos iniciais do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), seja, em outro plano, no exercício da Presidência, a desestabilizadora crise do câmbio de 1999, que pôs em risco o Plano Real. Teve, para dar outro exemplo, a coragem de assumir o Ministério da Fazenda, no governo Itamar Franco, para enfrentar o imenso desafio de debelar anos de uma inflação desenfreada e corrosiva. A coragem também passa pela firmeza de lidar com temas controvertidos e se contrapor ao seu grupo político e à tendência majoritária da opinião pública. É a nota do seu empenho atual na discussão do problema das drogas, que mostra que os anos não enfraqueceram a sua vocação de combate.

O juízo político é a capacidade de perceber as características que singularizam um contexto. Beneficia-se da visão geral que o conhecimento oferece, mas requer a competência para identificar, numa dada realidade, as particularidades do que pode ou não resultar. FHC, na sua trajetória, foi capaz de olhar o distante e observar o perto, nas palavras de Goethe. Desse modo, como intelectual apto a se orientar na História, sempre teve visão global para entender o conjunto das coisas no Brasil e no mundo e, por obra da qualidade do seu juízo político, a sensibilidade para captar o espaço do potencial das conjunturas com que se confrontou. Pôde, assim, exercer, para falar com Albert Hirschman, a sua íntegra "paixão pelo possível".

Assegurou, na sua Presidência, republicanamente, a governabilidade democrática de um país complexo como o Brasil, por meio de uma liderança aparelhada por um superior juízo político que soube dosar harmonização com inovação e transformação. Logrou, desse modo, orientar o País a partir do Estado e mudar a sociedade brasileira, pois guiado pelo seu sentido de direção construiu um novo patamar de possibilidades para o nosso país.

FHC transformou a sociedade brasileira com o Plano Real, que, com a estabilidade da moeda, assegurou a previsibilidade social das expectativas e promoveu a redistribuição de renda. Impôs racionalidade administrativa com a legislação da responsabilidade fiscal e as privatizações. Garantiu a solidez do sistema bancário com o Proer. Inaugurou o novo alcance das redes de proteção social com o Bolsa-Escola. Empenhou-se na institucionalização da democracia, no fortalecimento da cidadania e na valorização dos direitos humanos. Deu destaque à agenda ambiental. Elevou, com as suas realizações e sua presença pessoal, o alcance do papel do Brasil no mundo. Em síntese, o seu legado é o de um grande homem público que promoveu a ampliação do poder de controle da sociedade brasileira sobre o seu destino, de que se vem beneficiando, de maneira duradoura, o nosso país.

Celebrar o seu aniversário é uma oportunidade de celebrar a sua obra e a sua pessoa e, no meu caso, de afirmar que é um privilégio fruir a sua convivência e, assim, saudar, com amizade e admiração, os seus jovens, sábios e democraticamente bem-humorados 80 anos.

PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES NO GOVERNO FHC


O PT esqueceu os trabalhadores


 

A posição da mídia nativa em relação ao Caso Palocci intriga os meus inquietos botões. Há quem claramente pretenda criar confusão. Outros tomam o partido do chefe da Casa Civil. Deste ponto de vista a Veja chega aos píncaros: Palocci em Brasília é o paladino da razão e se puxar seus cadarços vai levitar.

Ocorre que Antonio Palocci tornou-se um caso à parte ao ocupar um cargo determinante como a chefia da Casa Civil, mas com perfil diferente daqueles que o precederam na Presidência de Lula. José Dirceu acabou pregado na cruz. Dilma foi criticada com extrema aspereza inúmeras vezes e sofreu insinuações e acusações descabidas sem conta. A bem da sacrossanta verdade factual, ainda no Ministério da Fazenda o ex-prefeito de Ribeirão Preto deu para ser apreciado pelo chamado establishment e seu instrumento, a mídia nativa.

As ações de Palocci despencaram quando surgiu em cena o caseiro Francenildo, e talvez nada disso ocorresse em outra circunstância, porque aquele entrecho era lenha no fogo da campanha feroz contra a reeleição de Lula. Sabe-se, e não faltam provas a respeito, de que uma contenda surda desenrolava-se dentro do governo entre Palocci e José Dirceu. Consta que o atual chefe da Casa Civil e Dilma não se bicavam durante o segundo mandato de Lula, o qual seria enfim patrocinador do seu retorno à ribalta.

E com poderes largos, como grande conselheiro, negociador junto à turma graúda, interlocutor privilegiado do mercado financeiro e do empresariado, a contar com a simpatia de amplos setores da mídia nativa. Um ex-trotskista virou figura querida do establishment, vale dizer com todas as letras. Ele trafega com a devida solenidade pelas páginas impressas e nos vídeos, mas é convenientemente escondido quando é preciso, como se envergasse um uniforme mimético a disfarçá-lo na selva da política.

Murmuram os botões, em tom sinistro e ao mesmo tempo conformado: pois é, a política… Está claro que se Lula volta à cena para orquestrar a defesa de Palocci com a colaboração de figuras imponentes como José Sarney, o propósito é interferir no jogo do poder ameaçado e garantir a estabilidade do governo de Dilma Rousseff, fragilizado nesta circunstância.

A explicação basta? Os botões negam. CartaCapital sempre se postou contra a busca do poder pelo poder por entender que a política também há de ser pautada pela moral e pela ética, igual a toda atividade humana. Fatti non foste a viver come bruti, disse Dante Alighieri. Traduzo livremente: vocês não foram criados para praticar, embrutecidos, a lei do mais forte. Nós de CartaCapital poderemos ser tachados de ingênuos, ou iludidos nesta nossa crença, mas a consideramos inerente à prática do jornalismo.

 No tempo de FHC, cumprimos a tarefa ao denunciar as mazelas daqueles que Palocci diz imitar, na aparente certeza de que, por causa disso, merece a indulgência plenária. Luiz Carlos Mendonça de Barros, André Lara Rezende, e outros fortemente enriquecidos ao deixarem o governo graças ao uso desabrido da inside information, foram alvo de CartaCapital, e condenados sem apelação. Somos de coerência solar ao mirar agora em Antonio Palocci.

Em outra época, os vilões foram tucanos. Chegou a hora do PT, um partido que, alcançado o poder, se portou como os demais, clubes armados para o deleite dos representantes da minoria privilegiada. Devo dizer que conheço muito bem a história do Partido dos Trabalhadores. A primeira reportagem de capa publicada por uma semanal sobre a liderança nascente de Luiz Inácio da Silva, dito o Lula, remonta a começos de fevereiro de 1978. IstoÉ foi a revista, eu a dirigia. Escrevi a reportagem e em parceria com Bernardo Lerer entrevistei o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, na vanguarda de um sindicalismo oposto ao dos pelegos.

Dizia a chamada de capa, estampada sobre o rosto volitivo do jovem líder: Lula e os Trabalhadores do Brasil. Já então sabia do seu projeto, criar um partido para defender pobres e miseráveis do País. Acompanhei a trajetória petista passo a passo e ao fundar o Jornal da República, que nasceu e morreu comigo depois de menos de cinco meses de vida, fracasso esculpido por Michelangelo em dia de desbordante inspiração, passei a publicar diariamente uma página dedicada ao trabalho, onde escreviam os novos representantes do sindicalismo brasileiro. Ao longo do caminho, o partido soube retocar seu ideário conforme tempos diferentes, mas permaneceu fiel aos propósitos iniciais e como agremiação distinta das demais surgidas da reforma partidária de 1979, marcado por um senso de honestidade e responsabilidade insólito no nosso cenário.

Antonio Palocci é apenas um exemplo de uma pretensa e lamentável modernidade, transformação que nega o passado digno para mergulhar em um presente que iguala o PT a todos os demais. Parece não haver no Brasil outro exemplo aplicável de partido do poder, é a conclusão inescapável. Perguntam os botões desolados: onde sobraram os trabalhadores? Uma agremiação surgida para fazer do trabalho a sua razão de ser, passa a cuidar dos interesses do lado oposto. Não se trataria, aliás, de fomentar o conflito, pelo contrário, de achar o ponto de encontro, como o próprio Lula conseguiu como atilado negociador na presidência do sindicato.

Há muito tempo, confesso, tenho dúvidas a respeito da realidade de uma esquerda brasileira, ao longo da chamada redemocratização e esgotadas outras épocas em que certos confrontos em andamento no mundo ecoavam por aqui. Tendo a crer, no momento, que a esquerda nativa é uma criação de fantasia, como a marca da Coca-Cola, que, aliás, o mítico Che Guevara bebia ironicamente às talagadas na Conferência da OEA, em 1961, em Punta del Este. Quanto à ideologia, contento-me com a tese de Norberto Bobbio: esquerdista hoje em dia é quem, aspirante à igualdade certo da insuficiência da simples liberdade exposta ao assalto do poderoso, luta a favor dos desvalidos. Incrível: até por razões práticas, a bem de um capitalismo necessitado de consumidores.

Nem a tanto se inclina a atual esquerda verde-amarela, na qual milita, digamos, o ultracomunista Aldo Rebelo, disposto a anistiar os vândalos da desmatação. E como não anistiar o ex-camarada Palocci? Lula fez um bom governo, talvez o melhor da história da República, graças a uma política exterior pela primeira vez independente e ao empenho a favor dos pobres e dos miseráveis, fartamente demonstrado. CartaCapital não regateou louvores a estes desempenhos, embora notasse as divergências que dividem o PT em nome de hipócritas interpretações de uma ideologia primária.

Na opinião de CartaCapital, e dos meus botões, não é tarefa de Lula defender o indefensável Antonio Palocci, e sim de ajudar a presidenta Dilma a repor as coisas em ordem, pelos mesmos caminhos que em 2002 o levaram à Presidência com todos os méritos.

Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br - Fonte: Carta Capital

O discreto charme da corrupção

Por Arnaldo Jabor
“Vivemos sob uma chuva de escândalos e denúncias de corrupção. Mas, não se enganem, esses shows permanentes nos jornais e tv, servem apenas para dar ao povo a impressão de transparência e para desviar seus olhos das reformas essenciais que mantêm nossas oligarquias intactas. Aos poucos o povo vai se acostumar à zorra geral e achar que tanta gente tem culpa que ninguém tem culpa. Me chamam de canalha, mas eu sou essencial. Tenho orgulho de minha cara de pau, de minha capacidade de sobrevivência, contra todas as intempéries. Enquanto houver 25 mil cargos de confiança no país, eu estarei vivo, enquanto houver autarquias dando empréstimos a fundo perdido, eu estarei firme e forte. Não adiantam CPI’s querendo me punir. Eu me saio sempre bem. Enquanto houver este bendito Código de Processo Penal, eu sempre renascerei como um rabo de lagartixa, como um retrovirus fugindo dos antibióticos. Eu sei chorar diante de uma investigação, ostentando arrependimento, usando meus filhos, pais, pátria, tudo para me livrar. Eu declaro com voz serena: “Tudo isso é uma infâmia de meus inimigos políticos”.

Eu explico o Brasil de hoje. Tenho 400 anos: avô ladrão, bisavô negreiro e tataravô degredado. Eu tenho raízes, tradição. Durante 4 séculos, homens como eu criaram capitanias, igrejas, congressos, labirintos. Nunca serão exterminados; ao contrário estão crescendo. Não adianta prender nem matar; sacripantas, velhacos, biltres, vendilhões e salafrários renascerão com outros nomes, inventando novas formas de roubar o país.

E sou também “pós-moderno”: eu encarno a “real-politik” do crime, a frieza do Eu, a impávida lógica do egoísmo.

No imaginário brasileiro, tenho algo de heróico. São heranças da colônia, quando era belo roubar a Coroa. Só eu sei do delicioso arrepio de me saber olhado nos restaurantes e bordeis; homens e mulheres veem-me com gula: “Olha, lá vai o ladrão..” - sussurram fascinados por meu cinismo sorridente, os “maîtres” se arremessando nas churrascarias de Brasília e eu flutuando entre picanhas e chuletas.

Amo a adrenalina que me acende o sangue quando a mala preta voa em minha direção, cheia de dólares, vibro quando vejo os olhos covardes dos juizes me dando ganho de causa, ostentando honestidade, fingindo não perceber minha piscadela maligna e cúmplice na hora da emissão da liminar...Adoro a sensação de me sentir superior aos otários que me compram, aos empreiteiros que me corrompem, eles, sim, humilhados em vez de mim.

Sou muito mais complexo que o bom sujeito. O bom é reto, com princípio e fim; eu sou um caleidoscópio, uma constelação.

Sou mais educativo. O homem de bem é um mistério solene, oculto sob sua gravidade, com cenho franzido, testa pura. O honesto é triste, anda de cabeça baixa, tem úlcera. Eu sou uma aula pública de perversidade. Eu não sou um malandro - não confundir. O malandro é romântico, boa praça; eu sou minimalista, seco, mais para poesia concreta do que para o samba-canção. Eu faço mais sucesso com as mulheres - elas ficam hipnotizadas por meu mistério; e me amam, em vez do bondoso, que é chato e previsível. A mulher só ama o inconquistável. Eu fascino também os executivos de bem, porque, por mais que eles se esforcem, competentes, dedicados, sempre se sentirão injustiçados por algum patrão ingrato ou por salários insuficientes. Eu, não; não espero recompensas, eu me premio e tenho o infinito prazer do plano de ataque, o orgasmo na falcatrua, a adrenalina na apropriação indébita. Eu tenho o orgulho de suportar a culpa, anestesiá-la - suprema inveja dos meros neuróticos e sempre arranjo uma razão que me explica para mim mesmo. Eu sempre estou certo; ou sou vítima de algum mal antigo: uma vingança pela humilhação infantil, pela mãe lavadeira ou prostituta que trabalhou duro para comprar meu diploma falso de advogado. Pois é, eu comprei meu título de advogado; paguei um filho de uma égua para me substituir no exame e ele acertou tudo por mim. Eu me clonei.

Subi até a magistratura. Como juiz e com meu belo diploma falso na parede, vendi muitas sentenças para fazendeiros, queimadores de florestas, enchi o rabo de dinheiro. Passei a ostentar uma dignidade grave, uma cordialidade de discretos sorrisos, vivendo o doce “frisson” de me sentir superior aos medíocres honestos que se sentem “dignos”; digno era eu, impávido, mentindo, pois a mentira é um dom dos seres superiores. A mentira é necessária para manter as instituições em funcionamento. O Brasil precisa da mentira para viver. E vi que é inebriante ser cruel, insensível, ignorar essas bobagens como a razão, a ética, que não passam de luxos inventados pelos franceses, como os “escargots”.

Aí, com muito dinheiro encafuado, bufunfas e granolinas entesouradas, eu me permiti as doçuras da vida e me apaixonei por aquela santa que virou mãe de meus filhos. Hoje, com a passagem do tempo, ela vai se consumindo em plásticas e murchando sob pilhas de botox, mas continuo fiel a ela como o marido público, pois nunca a abandonarei, apesar das amantes nas lanchas, dos filhos bastardos.

E, aí, fui criando a minha rede de parentes e amigos; como é doce uma quadrilha, como é bela a confiança de fio-de-bigode, o trânsito cordial entre a lei e o crime...Assim, eu fechei o ciclo que começou na mãe lavadeira e no diploma falso até a minha toga negra, da melhor seda pura que minha esposa comprou em Miami, e não fui feito desembargador nas coxas não; eu já sabia que bastavam padrinhos e meia dúzia de frases em latim: “Actore non probante, reus absolvitur!” (frase que muito me beneficiou vida a fora.) Depois, claro, fui deputado, senador e sou um homem realizado. Eu sou mais que a verdade; eu sou a realidade. Eu e meus amigos criamos este emaranhado de instituições que regem o atraso do país. Este país foi criado na vala entre o público e o privado. A bosta não produz flores magníficas? Pois é. O que vocês chamam de corrupção, eu chamo de progresso. O Brasil precisa de mim”. Fonte: A Gazeta

Um novo Brasil

 
Amigos, como sempre vale a pena ler o mais recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O texto, intitulado “Um novo Brasil”, foi publicado no dia 1º passado nos jornais O Globo, O Estado de S.Paulo e Zero Hora.


Décadas atrás havia uma discussão sobre a “modernização” do Brasil. Correntes mais dogmáticas da esquerda denunciavam os modernizadores como gente que acreditava ser possível transformar o país saltando a revolução socialista. Com o passar do tempo, quase todos se esqueceram das velhas polêmicas e passaram a se orgulhar das grandes transformações ocorridas. Até mesmo pertencermos aos Brics, uma marca criada em 1999 pelo banco Goldman Sachs, que passou a ser motivo de orgulho dos dirigentes petistas: finalmente somos uma economia emergente!

Na verdade, o Brasil é mais do que uma “economia emergente”, é uma “sociedade emergente” ou, para usar o título de um livro que analisa bem o que aconteceu nas últimas décadas, somos um novo país (ver Albert Fishlow, O Novo Brasil, Saint Paul Editora, 2011). Para entender as dificuldades políticas que foram transpostas para acelerar estas transformações basta ler a primeira parte de um livrinho que tem o instigante título Memórias de um Soldado de Milícias, escrito por Luiz Alfredo Raposo e publicado este ano em São Luís do Maranhão.
Embora os livros comecem a registrar o que é este novo Brasil – e há outros, além do que mencionei -, o senso comum, especialmente entre os militantes ou representantes dos partidos políticos e seus ideólogos, ainda não se deu conta por completo dessas transformações e de suas consequências.

O marco inicial do novo país
Os fundamentos deste novo país começaram a se constituir a partir das greves operárias do fim da década de 1970 e da campanha das Diretas-Já, que conduziram à Constituição de 1988.

Este foi o marco inicial do novo Brasil: direitos assegurados, desenho de um Estado visando a aumentar o bem-estar do povo, sociedade civil mais organizada e demandante, enfim, liberdade e comprometimento social.

Havia na Constituição, é certo, entraves que prendiam o desenvolvimento econômico a monopólios e ingerências estatais. Sucessivas emendas constitucionais foram aliviando essas amarras, sem enfraquecer a ação estatal, mas abrindo espaço à competição, à regulação e à diversificação do mundo empresarial.

 

Os dogmáticos previram uma catástrofe que não ocorreu
O segundo grande passo para a modernização do País foi dado pela abertura da economia.
Contrariando a percepção acanhada de que a “globalização” mataria nossa indústria e espoliaria nossas riquezas, houve a redução de tarifas e diminuição dos entraves ao fluxo de capitais. Novamente os “dogmáticos” (lamento dizer, PT e presidente Lula à frente) previram a catástrofe que não ocorreu: “sucateamento” da indústria, desnacionalização da economia, desemprego em massa, e assim por diante.

Passamos pelo teste: o BNDES atuou corretamente para apoiar a modernização de setores-chave da economia, as privatizações não deram ensejo a monopólios privados e mantiveram boa parte do sistema produtivo sob controle nacional, seja pelo setor privado, seja pelo Estado, ou em conjunto. Houve expansão da oferta e democratização do acesso a serviços públicos.

A vitória sobre a inflação, não sem dificuldades e incompreensões
O terceiro passo foi o Plano Real e a vitória sobre a inflação, não sem enormes dificuldades e incompreensões políticas. Juntamente com a reorganização das finanças públicas, com o saneamento do sistema financeiro e com a adoção de regras para o uso do dinheiro público e o manejo da política econômica, a estabilização permitiu o desenvolvimento de um mercado de capitais dinâmico, bem regulado, e a criação das bases para a expansão do crédito.
Por fim, mas em nada menos importante, deu-se consequente prática às demandas sociais refletidas na Constituição. Foram ativadas as políticas sociais universais (educação, saúde e Previdência) e as focalizadas: a reforma agrária e os mecanismos de transferência direta de renda, entre eles as bolsas, a primeira das quais foi a Bolsa-Escola, substituída pela Bolsa-Família. Ao mesmo tempo, desde 1993 houve significativo aumento real do salário mínimo (de 44% no governo do PSDB e de 48% no de Lula).

Os resultados veem-se agora: aumento de consumo das camadas populares, enriquecimento generalizado, multiplicação de empresas e das oportunidades de investimento, tanto em áreas tradicionais quanto em áreas novas. Inegavelmente, recebemos também um impulso “de fora”, com o boom da economia internacional de 2004-2008 e, sobretudo, com a entrada vigorosa da China no mercado de commodities.

 
Por trás desse novo Brasil, o “espírito de empresa”

Por trás desse novo Brasil está o “espírito de empresa”. A aceitação do risco, da competitividade, do mérito, da avaliação de resultados. O esforço individual e coletivo, a convicção de que sem estudo não se avança e de que é preciso ter regras que regulem a economia e a vida em sociedade. O respeito à lei, aos contratos, às liberdades individuais e coletivas fazem parte deste novo Brasil.

O “espírito de empresa” não se resume ao mercado ou à empresa privada. Ele abrange vários setores da vida e da sociedade. Uma empresa estatal, quando o possui, deixa de ser uma “repartição pública”, na qual o burocratismo e os privilégios políticos, com clientelismo e corrupção, freiam seu crescimento. Uma ONG pode possuir esse mesmo espírito, assim como os partidos deveriam possuí-lo.

E não se creia que ele dispense o sentimento de coesão social, de solidariedade: o mundo moderno não aceita o “cada um por si e Deus por ninguém”. O mesmo espírito deve reger os programas e ações sociais do governo na busca da melhoria da condição de vida dos cidadãos.

O que é preciso que as oposições façam
Foi para isso que apontei em meu artigo na revista Interesse Nacional, que tanto debate suscitou, às vezes a partir de leituras equivocadas e mesmo de má-fé. É inegável que há espaço para as oposições firmarem o pé neste novo Brasil.

Ele está entre os setores populares e médios que escapam do clientelismo estatal, que têm independência para criticar o que há de velho nas bases políticas do governo e em muito de suas práticas, como a ingerência política na escolha dos “campeões da globalização”, o privilegiamento de setores econômicos “amigos”, a resistência à cooperação com o setor privado nos investimentos de infraestrutura, além da eventual tibieza no controle da inflação, que pode cortar as aspirações de consumo das classes emergentes.

Para ocupar esse espaço, entretanto, é preciso que também as oposições se invistam do espírito novo e sejam capazes de representar este novo Brasil, tão distante do pequeno e às vezes mesquinho dia a dia da política congressual. Fonte: Veja

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