Dois chilenos com a arte na alma

Mais um domingo chega e, com ele, mais um texto bem fresco e bem elaborado da coluna "Crônicas Contemporâneas" do Melhores artigos, assinada pelo mestre em literatura brasileira Marinaldo Custódio. Confira o texto, na íntegra, logo abaixo:


Dois chilenos com a arte na alma

Um se chama Sergio, o pai. E o outro? Bem, o outro se chama Sergio, o filho. Sergio Liberona Díaz e Sergio Liberona Mena formam a dupla de artistas que conheci há 15 dias na Praça 8 de Abril (ou do Choppão), em Cuiabá, por ocasião do encerramento das atividades da 2ª Mostra Internacional de Teatro Infantil (Miti).

Estavam ali para apresentar a peça “Histórias para imaginar”, espetáculo transitando entre a pantomina e o teatro de bonecos, com Sergio pai na mesa, à guisa de diretor, e Sergio filho encarando a plateia – e com ela interagindo maravilhosamente, diga-se, na condição de titereiro ou de “operador de bonecos”.

Trata-se de um espetáculo encantador para crianças e adultos, naquele bom e velho estilo da arte circense 100% recomendável para crianças de todas as idades, ou, adaptando-a à gíria dos palhaços, para crianças de 8 meses a 88 anos! Ou mais, já que o próprio imaginário popular dá conta de que o ser humano, a partir de certa avançada idade, volta à infância inexoravelmente.

Todavia o que quero abordar aqui diz respeito mais à trajetória dos artistas do que ao espetáculo propriamente dito, porque isso me permite falar da arte num sentido maior e, aqui, relacionado muito às estradas que eles vêm trilhando em suas vidas, pelos palcos sobretudo da América do Sul e, em breve, quem sabe, da Europa.

Do que me ficou de nossa conversa, Sergio pai, dos seus 70 e poucos anos, dedicou mais de 60 à arte teatral-circense, atuando especialmente no seu Chile natal, na Argentina (onde viveram cerca de 15 anos), e em outros países como Uruguai e Brasil; já o filho está desde os 6 na estrada, vale dizer, há 28 anos, visto estar agora com 34.

O pai me disse que tem formação acadêmica em Artes Cênicas (“em Teatro”, ele diz) e que é também professor da Universidade do Chile. “E você, também tem formação acadêmica? Também frequentou bancos de universidade?”, perguntei ao filho. “Não”, ele me disse, “sou formado apenas na melhor escola, que é a escola da vida, simplesmente porque nunca encontrei tempo pra fazer uma faculdade regular”.

Sergio pai impressiona pelo amor que dedica à arte, às suas plateias mundo afora e particularmente ao filho e parceiro de cena, a quem sempre se refere como “mi amigo del alma”. O filho lhe devolve o carinho e também impressiona pelo talento no manejo de sua arte e por parecer “uns anos” mais jovem, o que certamente deriva da vida vivida assim ao vento, sempre navegando nas boas águas da arte e da sensibilidade, fazendo rir e chorar (de emoção) tantas crianças de todas as idades pelos palcos do mundo.

A se registrar, ainda, o curioso sistema composto de seis forças cósmicas com que Sergio pai divide o Universo: alegria (bem), tristeza (mal), ternura (bem), ira (mal), medo (que comporta em si o bem e o mal) e o erótico (impulso pela propagação da vida e naturalmente identificado com o Bem Verdadeiro). Mas ele alerta: “Erótico aqui entendido como a força que atrai os opostos, homem e mulher, visando ao amor e à procriação, mas que nunca deve ser confundido com fornicação!”

Fui à internet à procura da grafia correta da expressão “mi amigo del alma” e lá encontrei a canção homônima, de autoria de um tal El Polaco. A música é daquelas em que um amigo tenta confortar o outro pela desilusão amorosa que este sofrera recentemente.

Mas eu, como gosto tanto de fazer, prefiro fechar este texto lembrando um episódio envolvendo outra canção. Dia desses, na Famato, já à saída do trabalho, encontrei no YouTube a versão italiana de “Sentado à beira do caminho”, de Roberto e Erasmo, na magistral interpretação de Ornela Vanoni. Então meu colega Amauri Loss, ouvindo aqueles acordes pungentes de “L’appuntamento” (nome da canção em italiano), fez o seguinte comentário: “Como deve ser feliz o artista, o compositor em especial, ao ouvir, ao saber que a sua criação está assim correndo mundo, emocionando pessoas mundo afora!”.

É precisamente isto o que penso de Sergio pai e de Sergio filho em suas andanças e em suas performances pelas praças e demais palcos do planeta. Como devem eles ser felizes por fazer tanta gente feliz em toda parte! Vida longa aos dois chilenos, desde aquela hora também amigos de mi alma e, certamente, de muitos outros e outras, crianças de todas as idades que naquela tarde de sábado, 24 de outubro de 2009, tiveram a imensa sorte de estar ali com eles viajando a viagem boa de suas “Histórias para imaginar”.

Marinaldo Custódio

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